Respeite o tempo. Possivelmente eu mudei de opinião.

quarta-feira, maio 09, 2012

DESSA VEZ NÃO TENHO MEDO


“É claro que procurei. Como sempre, eu procurei aquilo que acabaria comigo. Eu sabia quem tu eras e como eras, mas eu precisara descobrir teu coração. Precisara tocar o teu corpo, estar em teus braços, escutar tua voz baixinha em meu ouvido. Precisara de alguém que pudesse me fazer pulsar. Porque é assim que começa: – os dois não se conhecem e fazem pré-entendimentos sobre o outro, conversam, resumem a vida em algumas palavras, os olhares se encontram e a ausência tortura. E mesmo sabendo que seria impossível dar certo, a gente tenta. 
Menino, quando se entra numa relação se deve aceitar a outra pessoa como ela é. Nada de cobrar mudanças. As mudanças são naturais. O amor modifica e as transformações aparecem com o tempo. – Não te quero de outro jeito, te quero assim: num fim de tarde, sem compromisso, sem cobranças, sem regras, só por ser. 
Vou sim pular nesse buraco. Procurara por alguém que me derrubasse, hoje só quero alguém que pule comigo.”

sexta-feira, abril 20, 2012

AH, SE OUSÁSSEMOS!

A noite ainda é a mesma, é claro. Mas pode-se notar as mudanças. A música não toca mais, os versos se calaram, as pessoas que costumavam andar por aquela rua não estão mais ali. O casal que se encontrara todo final de semana na praça central, cresceu. É este o grande problema dos apaixonados: eles crescem. Alteram todo o cenário que o poeta criou e fazem de conta que a realidade é um mundo sem amor.


Ainda lembro do olhar misterioso da menininha de cabelos negros e pele branca que esperara o amado todo domingo no mesmo banco daquela pracinha enxuta que um dia já foi tão bela. Admirei a coragem da mocinha que enfrentara a solidão do lugar na espera do namorado que novamente se atrasara. E suspirara o olhar apaixonado com que ele chegara para busca-la e leva-la às noites de amor. Eram perfeitos, um ao outro, pena que nunca souberam admitir tal destino.
Vi a moça chorar abandonos e vi o moço ajoelhar desculpas. Típico do amor jovem. O primeiro amor. Aquele que aquece os corações e nos faz conhecer partes do nosso corpo que mal sabíamos admitir. Aquele amor doce e, ao mesmo tempo, destruidor. O amor que nos prepara para a vida, que nos faz sonhar e que nos tira o chão.
Com aquele casal eu pude descobrir o significado da palavra “saudade”. Sinto falta de olhá-los enquanto faziam juras de amor. Planejavam se casar, ter filhos, viver uma vida simples e docemente feliz. Cuidavam da presença um do outro, pois entendiam que sempre viveriam da ausência. E pediam à vida que não levassem a pureza daquelas mãos que se tocavam.
O que aconteceu, não sei. Às vezes acho impossível entender as voltas que o coração percorre. Se permitiram esquecer. Deixaram com que a vida continuasse e que o amor ficasse aos cantos. O maior perigo deste lugar onde vivemos são os cantos. Os cantos guardam tudo que não se acabou, que faz remoer a dor e a mágoa, que guarda lembranças e que faz a pergunta mais dolorosa de um desejo não realizado: “E se?”. E se eu não tivesse ido embora? E se eu tivesse dito? E se eu tivesse calado? E se tivesse dado certo? – Se tivesse dado certo, talvez eu fosse mais feliz.
Em cidade pequena as notícias correm rápido. O que se soube é que cada um encontrou um novo amor. Soube-se também que trocaram de cidade e que a mocinha bonita sofreu um acidente, perdera a memória, esquecera o próprio nome. Sou um poeta tão sensitivo que consigo sentir a confusão que roda a cabeça da moça. Posso vê-la sacudir a poeira do vestido sem saber que quem o deu foi seu primeiro amor no aniversário de quinze anos.
E sei que no esquecimento da moça também sofre o coração do rapaz. Ainda que os passos construam novos caminhos, a dor causada pelo esquecimento é eterna. Imaginem como o coração do rapaz acelerou ao reencontrá-la e como os olhos transbordaram água ao notar que ela não soubera quem ele era. Anos do amor mais a flor da pele que já se viveu e a amada não o conhecera. – Outro perigo dessa vida, é conviver sem saber quem é.
Com o conhecimento que as minhas histórias me trazem, sei que o rapaz tem na memória o sorriso da menina. E sei que na menina transmutam dúvidas sobre o passado. Uma conversa talvez resolvesse tudo, porém palavras não justificam atos. Como contar sobre um amor de novela à quem viveu e não se lembra? Como resgatar a alegria de um coração que esquecera o que é sorrir? Como cantar a música se a cantora não é a mesma?
O que desossa um poeta e o tira a força de continuar de pé, são as expectativas de uma história que acaba com reticencias. Bem, eu sempre soube que a vida é mesmo assim: mal pontuada. As história acabam e não há um locutor se despedindo com um “Viveram feliz para sempre.”. Não. As histórias da vida não acabam. Elas continuam, sem vírgulas e sem pontos. Não se pode compreender a leitura da história da vida. Ela não tem finais certos, é tudo muito confuso, porém ainda é um pecado que o amor não mude isto.
A tristeza já não é minha, agora sou um poeta que canta. Mas não desaprendi a ler, e ainda posso ler os olhos daqueles que amam. E tenho medo. Medo de descrevê-los pois a vida irá continuar e eu não posso alterá-la. – Como perder o medo de virar a página? – Como criar coragem se hoje sou sozinho? E em minha janela só vejo o vento e não há beleza na passagem da vida que parece se esgotar...
Ora, quanta contradição nas palavras de um poeta velho! Não é mesmo? Alegrem-se, pois só há um motivo para que um ser-humano entre em contradição: estar apaixonado. – Ah! Se as loucuras dos meus versos puderem um dia se tornar reais e me vissem como uma criança que divide o sorvete por carinho... A parte boa de desenhar palavras é que com os erros dos personagens, nós podemos evitar os nossos. Heis que a vida me trouxe a chance de mudar a história daquele casal, heis que a ponte entre o fim e o recomeço será atravessada. E ai de nós não atravessá-la, ai de nós apaixonados fúnebres que pedimos socorro às divindades, ai de nós que finalmente iremos poder abraçar aquilo que nos faz feliz.
Por isso, fecho as janelas e escondo o vento. Deixo a cidade e aquela praça. Desejo felicidades aos pombinhos que hoje vivem separados. E vou embora daqui. Sim. Eu vou embora daqui... E quando souberem de mim, lembrem apenas que daqui eu só quis uma coisa: amor. E só volto aqui com ele em meus braços. Adeus.

sábado, março 24, 2012

A.

“Tenho o poder de persuadir. Tu sabes que posso lhe fazer trocar de opinião com meus versos. Por isso tu não me lês mais. – Sabes o perigo de trocares de lado. E sabes que é do meu mistério que tu encontras forças, que foi eu quem escrevi a tua história e que os parágrafos que vives agora foram pontuados por minhas vontades. – Não fujas. – Tu irá me reler na memória. – Quando é que vais parar de usar minhas palavras sem atribuir meus direitos autorais?”

— Entre vírgulas, 2002, A.M.D.M.

DO QUE EU GOSTO

Se eu gosto de amores estranhos? Pois como não gostaria? Sou intensa. Movida a dramas. Nada que não me arranque os cabelos me interessa. – O que me atrai são os noveletes mexicanos. – Preciso de um mocinho e mil motivos que me separem dele para viver, viver de amor[es].
A realidade é que sou só. Me criei para ser da rua. Fui mocinha educada, mas o meu destino estava escrito: “maluca”. Poucos amigos, pouca conversa, estressada sobre a mesmice, coração partido para poder escrever. Escrever sobre a vida. Palavras que pudessem trazer esperança a quem já sofrera. Palavras que descrevessem o amor bonito que movera minha alma. Palavras simples, porque sou sem códigos. Fácil de ler.
Não acredito em mistérios. Não possuo segredos. Cambaleio na ambiguidade das frases que uso no dia-a-dia. Tenho preguiça de expor opiniões. Tenho tédio de quem sabe tudo. E não pretendo ter motivos para tudo o que faço. Sei que o verbo “fazer” é relativo. Cada um faz da maneira que quer.
Gosto de tudo que é visível. Formas físicas, geométricas, abstratas. Que se toca, se escuta e que se sente. Principalmente que se sente.
Sou sensível. Não sei não sentir com o corpo todo. Minhas mãos interagem diretamente com meus ouvidos. Minha pele sofre as reações de minha visão. O que posso ver, quero poder tocar – sentir, ter, ser, permanecer e viver.
Sinto medo ao notar passos de saudade. E os encorajo para meia-volta a qualquer momento. Sou cheia de pontos finais, mas, por enquanto, só escrevi um capítulo. – Sou alegre. – O que mais gosto é que, mesmo parecendo triste, eu vivo sorrindo por aí.

quinta-feira, março 22, 2012

"Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas."

— Pablo Neruda

CUIDA DO TEU SORRISO

"Reza pelo teu José, menina!"


Dói, eu sei que dói. Mas não foi para ti, menina, que eu sempre contei sobre as voltas do mundo? O tempo é a cinza que não para de queimar. Contenha-se. Respire fundo e lembre-se que amanhã é um novo dia. – Hoje, menina, eu lhe dou a permissão de chorar, espernear e ficar brava com Deus. Deus aguentará os teus desabafos e entenderá a sua dor. Mas, amanhã, amanhã menina, tu irás acordar e colocar um sorriso no rosto, querendo ou não, irás fingir que está tudo bem e continuar os teus passos pela vida.
Amanhã irás agradecer pelo que lhe foi tirado hoje, e entenderá que, na verdade, não foi uma perda. Exatamente tudo que entra e sai de nossas vidas, acontece por algum motivo. Saiba sugar os detalhes de tudo aquilo que vem e vai com o vento. Nada de choros ou lamentos, prepare-se para o que está por vir, e deixe ir embora o que ficou para trás.
O segredo do sorriso humano é abstrair. É preciso não se deter demais ao tema, pontuar o texto e virar a página. Não deixe que a tristeza torne-se uma obsessão, porque nós temos a capacidade de nos acostumar com a dor. – Cria coragem, menina! Não se contente com as lágrimas, alimente somente o que te faz bem.
Muitas vezes é preciso buscar um tempo só para nós. Quando estamos passando por uma situação difícil, costumamos analisa-la de dentro, conforme sentimos, conforme podemos enxergar. Porém, é bom olharmos de fora, aceitar os nossos erros e nossos enganos, e virar a mesa.
O mais difícil nunca foi aceitar nossos erros e, sim, aceitar os nossos enganos. Admitir o quanto fomos tolos é a destruição natural do ego humano. Ninguém é forte o suficiente para não se importar quando descobre-se as mentiras vindas da pessoa amada. Ninguém é Deus, todos somos humanos pequenos e frágeis.
Cuida do teu José, menina. Lembra-te de José? José foi o homem que amou Maria mesmo sabendo que o filho que ela esperara não era dele. Amou, cuidou, respeitou e honrou Maria nos momentos bons e ruins. Foi companheiro leal e fiel. Foi amor abençoado por Deus. – Assim como Maria, todos nós temos o nosso José. Reza, menina, reza! Reza para que Deus coloque o teu José em sua vida!
E, entenda o que sempre lhe deixo, tudo o que entra e sai de sua vida é por vossa conta. Se saiu e você sente saudades, você deixou ir. Se entrou e lhe fez mal, você deixou fazer parte. – Não adianta se rebelar contra a vida. Tem que deixá-la agir e tem que cuidar do vosso caminho. Deixa as coisas novas virem, menina. Deixa o futuro dizer...
Assim como a felicidade não dura, a dor vai embora também. Abençoe o clichê, mas, a vida é feita de momentos. O importante é saber que esses momentos tem validade e não se deixar levar demais por eles. Tem que ir levando, menina. Tem que se colocar num pedestal e recusar-se às fraquezas. Tem que se fazer forte e, como num processo natural, tornar-se forte.
Espera o amanhã chegar e constrói mais chances para sorrir. Porque o sorriso é o único remédio que não custa nada, não causa esforço e ninguém poderá tirá-lo de você.

domingo, março 18, 2012

E.

“Você pode dirigir com 16, ir para a guerra aos 18, beber aos 21 e se aposentar aos 65. Mas qual a idade você tem que ter antes que seu amor seja verdadeiro? Já tive aos montes pessoas que não compensam esquentando a cadeira ao lado do cinema, o banco ao lado do carro e o travesseiro extra da cama. E nem por um minuto senti meu peito aquecido. A gente até engana os outros de que é feliz, mas por dentro a solidão só aumenta. Estar com alguém errado é lembrar em dobro a falta que faz alguém certo.”

— Remember me, 2010

APENAS UM GRÃO DE AREIA

A quietude de uma alma é perigosa. Ao contrário do que as pessoas acreditam, os silêncios é que são alarmantes. O contrário do amor não é o ódio e, sim, a indiferença.


Manter-me calada é a maneira que uso para resgatar o que se perdeu dentro de mim. Me é necessário este isolamento do mundo. Preciso de um tempo para reorganizar as idéias e aceitar o que é imutável em minha vida. Como uma reciclagem de mim mesma, dos meus planos e do meu bem-estar.
É hora de abandonar os vestidos velhos, calçar sapatos altos e descobrir novos caminhos. Tenho que restabelecer dentro de mim apenas aquilo que sempre me motivou a continuar: o respeito, a paciência, o perdão, a coragem, a determinação e, sobretudo, o amor.
Respeito para que eu não seja má e injusta. Paciência para quando as pessoas forem más e injustas comigo. Perdão para que eu possa ser perdoada. Coragem para abrir novos caminhos. Determinação para não desistir diante dos obstáculos. Amor para que eu não me perca.
Tenho a certeza que as pessoas não entendem as minhas atitudes. – Sou uma pessoa difícil de lidar. – Quero apenas explicar que isso acontece porque eu ajo conforme sinto. Não sei dizer “sim” ao que me é não, e, nunca aprendi a dizer “não” às minhas vontades. Embora nem sempre atendam aos meus desejos, eu não derramarei lágrimas.
Não sou fraca, nunca fui. Também não sou santa ou beata. Curo minhas feridas com o sorriso que a minha fé me concede. Sofro de saudades, mas tenho curiosidade do que está por vir. – Andei trocando o repertório, não sei se você pôde perceber...
As músicas que tocam agora trazem um pouco mais de mim e menos do que sinto. Dizem o que vivo e não o que sonho. Não parei de sonhar, mas calculei os meus erros. Percebi que é o momento de seguir em frente, não olhar para trás e, por isso, precisei fazer as pazes com o meu passado.
Não há como dar um passo a frente se meus pés continuam presos àquelas correntes. Histórias inacabadas transformam-se em cargas duradouras que nossas costas vão levando. Mas, em alguma hora, se tornará pesado demais e o caminho que se foi andado é perdido, o tempo é perdido, é tudo mentira, os machucados se abrem, o passado assombra.
É preciso levar a vida com certa seriedade sem deixar de olhá-la com olhos de criança. “Vai dar tudo certo” desde que eu me esforce para isso. – Manter a esperança diante da realidade é essencial para que a vida produza.
Não deixe que pessoas de má-fé corrompam seus princípios. Não se entregue a nada que lhe cause vícios. E diante da próxima ação, se pergunte: “Eu realmente preciso disso?”. Se a resposta for “sim”, tome cuidado. Na vida, a gente precisa de poucas coisas.
Quando tudo der errado, não volte atrás e tente consertar. Comece ali uma nova obra e calcule a construção para que desta vez você possa alcançar o objetivo. – Erre, mas não repita os mesmos erros.
A melhor forma de acabar com a dor quando alguém nos machuca, é perdoar esta pessoa. O perdão, embora seja difícil, é a única coisa que tem o poder de limpar a alma. – Lembre-se: Hoje você pode dar o perdão, amanhã você poderá precisar dele.
Perdoar não significa voltar a ser tudo como era antes. É preciso ser bom, mas é preciso ser justo. Por isso tome cuidado para não ferir quem você ama. Amor nunca foi contrato de permanência.
É comprovado cientificamente, se você não sabe, que você poderá viver anos ao lado de uma pessoa e, mesmo assim, não saber quem ela realmente é. Confie. Confie nas palavras, nas atitudes, nos laços que se criam e, sobretudo, confie no que você sente por essa pessoa.
Certifique-se de que o próximo degrau é firme, mas não deixe de subir a escada. O caminho desconhecido é sempre perigoso, mas ainda assim é fascinante. – Saiba escolher se este é o seu caminho ou se você está apenas seguindo alguém.
Por maior que seja o seu amor por outra pessoa, não a siga. Quando o amor é verdadeiro os dois andam juntos. – Não se preocupe se algo lhe faz sofrer agora. É bíblico: “Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá.”. E tudo, exatamente tudo, que nós passamos está em nossa vida por algum motivo. Saiba aproveitar ao máximo desse problema.
Desenvolva em você o desejo de ser uma boa pessoa. Uma boa pessoa não é perfeita. Ela apenas não deseja ser ruim. – Deus é a única criatura que irá lhe perdoar e acolher em todos os momentos, aproxime-se d’Ele neste exato momento.
Aprenda a escutar os silêncios das pessoas. Um sorriso, um abraço, uma cara triste é sempre mais importante do que as palavras. – Importa-te com as pessoas que estão ao seu redor. É assim que elas irão se importar com você.
Honra a tua família e tudo aquilo que eles te ensinaram. Pai e mãe são os únicos seres humanos programados biologicamente para te amar. Ou seja, é raro ver pai e mãe abandonar um filho.
Se for para jogar algo fora, jogue fora o cansaço. Não há nada mais repugnante em uma pessoa do que vê-la sem vontade de viver. Atribui-se também: estresse, antipatia, remorso e tristeza.
Irradie felicidade e as pessoas se aproximarão. – Eu sei que não é fácil, mas também sei que não é tão difícil assim. Quando se tem fé e amor dentro do coração, o resto é apenas um grão de areia.

domingo, março 04, 2012

G.


“Quando a autodestruição brota no coração, parece ser menor do que um grão de areia. É uma dor de cabeça, uma leve indigestão, um dedo inflamado; mas você perde o trem das 8h20 e chega atrasado à reunião sobre a dívida do cartão de crédito. O velho amigo com quem você se encontra para almoçar esgota a sua paciência sem mais nem menos e num esforço para ser agradável você toma três drinques, mas a essa altura o dia já perdeu a forma, o propósito e o significado. Na esperança de lhe devolver algum sentido e beleza, você bebe demais nos coquetéis e fala demais, dá em cima da mulher de alguém e termina fazendo algo idiota e obsceno, e pela manhã você quer estar morto. Mas quando tenta reconstituir o caminho que o conduziu a esse abismo, tudo que você encontra é um grão de areia.”
— Minha Natureza Atormentada, Jonh Cheever

MÃOS DADAS


O ser-humano por ser ser-humano, por ser pessoa, constrói costumes grosseiros aos olhos de Deus. Sentimentos contraditórios, quase incoerentes. Erramos com a vida, ferimos a nós mesmos. Como ser sozinho se nas mãos formaram-se dedos que entrelaçam mãos? Mãos dadas. Mãos dadas suporta sentimentos mútuos. Lealdade, cumplicidade, confiança, afeto... que se resumem em amor.
Poder dar a mão é demonstrar o quanto é agradável estar ao lado daquela pessoa. É ajudar a caminhar e indicar que se quer construir um caminho ao lado dela. É guiar diante da escuridão, é segurar diante do caos, é afagar a mão pedindo paciência.
Mãos dadas é um pedido de paz. É o homem indicando solidariedade. É o respeito entre raças diferentes. É a cordialidade representando a simpatia. É a união que constrói forças. É a oração dos beatos que derruba males. É o casal de namorados completando cinquenta anos de casados e, assim, de mãos dadas, terem passado juntos os importunos da vida.
São duas almas que se tornam uma só e, às vezes, várias almas que fazem uma corrente. É pegar a mão de outra pessoa e sentir a energia que brota de suas veias, sugar a sensibilidade, escutar o que há dentro, apertar a mão pedindo que não nos deixe nunca. Mãos dadas é, sobretudo, confiança.
É preciso coragem ao dar a sua mão. Por pedir ou por doar. Segurar outra mão exige fé e carinho. Não pode ser feito por se fazer. Há de haver honestidade nesse ato simples e, ao mesmo tempo, tão belo. Por isso, meu querido, a próxima vez que entrelaçar os dedos em outra mão, perceba que há algo muito doce naquele momento. E, por favor, honre a confiança de segurá-las.