Respeite o tempo. Possivelmente eu mudei de opinião.

quinta-feira, setembro 29, 2011

A.



"O que quer que você faça na vida, será insignificante. Mas é muito importante que você o faça porque ninguém mais o fará. Como quando alguém entra na sua vida, e metade de você diz que você não está preparado. Mas a outra metade diz: faça que ela seja sua para sempre."

[REMEMBER ME]

EU FICO COM AS MOEDAS

[...] caso você se vá.





O carro de som anunciara a morte do velho Kall. Os motivos da morte não nos interessavam. Eu e Renato só queríamos saber de uma coisa... – O velório foi simples. Só haviam pessoas que moravam naquela mesma rua. O velho solitário não possuía família. Enquanto minha mãe rezava ao pé do caixão, eu observava o cadáver. Frio, branco, mas parecia dormir. Arrisquei tocá-lo para ver se estava mesmo morto. E estava. Mesmo assim, a idéia de que o velho levantaria do caixão não saíra de minha cabeça, e eu sorria. Gargalhara em frente ao caixão do velho Kally. Ficara imaginando como as rezadeiras da cidade reagiriam com o despertar de um defunto velho.
Assim que o enterro acabou, encontrei Renato na esquina do cemitério. Fomos direto à casa do velho colecionador de moedas. No caminho, planejávamos tudo o que faríamos com a nossa coleção. “Vou vender tudinho”, disse à Renato. E ficara sonhando com todas as bolas de futebol que eu compraria com a venda das moedas... Renato dizia que continuaria a coleção. Eu achava uma bobeira aquela história, mas a parte de Renato era dele mesmo. “Faça o que quiser”, – dizia à ele, “só não morra igual ao velho. Construa família.”.
Ao chegar à casa, tudo estava do mesmo jeito que o velho havia deixado. Silêncio, solidão e calmaria. Renato achara assustador, já eu gostara da idéia de não se ter com quem se preocupar. Descemos até o porão, e lá estava a nossa coleção de moedas. Brilhantes, lindas, incontestavelmente valiosas.
– Quanto será que há aqui?
– Muito, Renato. Muito. Muito!
Meus olhos brilhavam tanto quanto os de Renato. Eu era uma criança ambiciosa. É claro que, frente aquilo, toda criança ficara admirada. Mas eu não. Eu sentia algo mais que admiração. Eu sentira amor por tudo aquilo. Amor por cada moedinha que o velho juntou com tanto esforço. Amor por cada coisa que eu faria ao vender a minha parte.
– Sua parte? – perguntou Renato. – Isto aqui tudo é do velho. Não é nosso. Tá errado, Bino! Vamos embora... Isso vai criar problemas para nós.
– Negativo. Isso é nosso, sim! Ninguém sabia dessa coleção. E o velho não tinha família... Larga de ser medroso!
Apenas nós dois sabíamos daquela coleção. E sabíamos porque o velho nos fez buscar algumas moedas que ele havia comprado com o Relojoeiro da Rua XXI. Lembro-me de como fiquei quando vi, pela primeira vez, a coleção do velho Kall. Como fiquei, não. Lembro-me o que senti. Lembro-me o que pensei: “Isto tudo será meu”.
De repente, Renato chamara minha atenção quando abrira um baú com um mapa. “ – Bino, olha isto aqui!”. O que é?, pensei. E só depois de analisar bem foi que me deparei com um mapa que levara ao Carrossel dos Sonhos.
– O Carrossel que o velho falou! Lembra? – perguntou Renato.
É claro que eu lembrava. E é claro que meus olhos brilhavam tanto quanto brilharam ao ver as moedas. O Carrossel dos Sonhos era o brinquedo mais querido pelas crianças e adultos. Você entrava, dava uma volta, e tudo o que imaginara enquanto estava ali dentro com o Carrossel girando, se realizaria. Era um Carrossel único. Mágico.

– Não podemos levar as moedas conosco.
Então fomos sem elas. Sim. Nós fomos atrás do Carrossel.

O Carrossel estava na Cidade Que Ninguém Encontra. O caminho era longo, levamos bastante comida. Embora a comida tenha acabado antes da metade do caminho. [...] A estrada nos trouxe surpresas arriscadas, temidas e geniosas. O palhaço que soltara fogo da boca, o dragão que falara sobre a princesa que o deixara, o peixe que andara na terra, o extraterrestre que veio do Sol, o exame médico de Hitler, a cabeça raspada do Skinhead gay, a emocionada Julieta das sombras, o tolo Willian que escrevera seus romances, Darwin que soletrava números, cartas que jogavam pôquer de humanos, labirinto das três viúvas, e finalmente a princesa que era bruxa. Foi terrível soltar a madrasta da torre! – Contos de fadas eram mais legais quando o mundo não estava de cabeça para baixo.

Andamos a metade do mundo. E chegamos ao Carrossel.

Era lindo. Brilhara tanto quanto a Torre de Paris. Haviam homenzinhos que pareciam fadas voando sobre. Muita música, algodão doce, roda gigante ao fundo. E um senhor com um chapéu enorme cuidando da porta. O senhor tinha sorriso de Coringa e olhos de Chapeleiro, só que a cor dos olhos era azul-marinho. Branco, muito branco, com marcas pretas desenhadas no corpo. Paletó verde e não tinha cabelo. Calça amarela e pantufas de pena de avestruz. O Senhor Bizarro deu-me medo.

– O que fazem aqui?
– Queremos entrar.
– E vão sonhar com o quê?

Renato entrou. Eu fiquei parado.

Eu era só um menino, que não tinha sonhos. Talvez tivesse, mas nenhum plano. Houvessem estrelas no céu e estaria bom para mim. A única coisa que sempre quis eram as moedas, porque me despertavam amor. Era a maior riqueza de minha vida. E eu houvera as deixado. Deixar um amor é imperdoável, embora o mundo seja grande e cheio de coisas lindas. – O que eu pensara quando o fiz?
Renato me chamara: “Venha, venha!”. Eu não posso Renato, desculpe. Há um amor que fica aqui dentro. São moedas de ouro. São cobiças preciosas. São moedinhas pequenas que me despertam grandes sonhos. Eu não posso sonhar sem elas.

– Não vai entrar? – perguntou o Senhor Bizarro.
– Não. Eu preciso de amor para sonhar.

segunda-feira, setembro 26, 2011

CHAMADA

– Presente.



Chegara atrasado todos os dias. Abrira a porta, olhara a sala meio por cima, entrara e começara a falar. Falar, falar, falar, falar, falar e falar. Eduardo nunca tivera trava na língua. Quando percebera que eu ficara irritada por tirar a atenção dos alunos, ele me olhara com cara de quem se desculpara e dizia: “Desculpe, professora. Prometo não fazer de novo.”. – Eu nunca conseguira dizer não à ele.
Havia ali olhos de criança, graça, beleza e domínio. Era uma criança que se destacara, mas que gostaria de se manter pelos cantos. Disfarçara suas dores com raiva e leveza, mas quem o conhecera sempre soube de sua sensibilidade. Deixava-me louca com suas traquinagens, embora muitas vezes me despertasse carinho. – Foi o meu melhor aluno.
O meu aluno de dez anos que muitas vezes soube ter mais idade do que eu. Herdara do pai o gosto por rock. Fã dos Beatles, não abrira mão do cabelo estilo Paul McCartney. Ganhara uma jaqueta de couro do tio caminhoneiro, desfilara pelos corredores da escola, segurando firme a jaqueta e sentindo-se no céu. Aconteceram momentos em que fiquei sentada observando Eduardo, e teci sonhos impossíveis, o vi voar. – Ele me lembrara personagens dos meus melhores filmes.
Tornou-se muitas vezes o meu próprio personagem. Disfarcei fatos, inventei palavras, produzi Eduardo para que ninguém soubesse. O guardei dentro das melhores fábulas, o perdi nos piores parágrafos, o encantei com alguns suspiros. Eu era professora, aluna, e sentia-me mãe. Aquele garoto era meu. Eu o amara de maneira bonita: – o educara, o protegera, escutara suas dores e fizera com que ele pudesse sorrir.
Era o menino Peter Pan que nunca crescera. Era a minha escuta, a minha alma, os meus sonhos. Olhara Eduardo e soubera muito do que fui, do que me tornaria, do que gostaria de ser. 
Era tomada por uma dor todas as vezes que ele se afastara ou que ele me atingira, mas a dor maior corria o peito quando eu tinha de adverte-lo. Muitas vezes vi Eduardo olhar com fé o horizonte, – quem era eu para julgar aqueles sonhos?
Eu era a professora, que passara a ser aluna. A estranha deslumbrada. O “ninguém” da vida de Eduardo. Era a fome, a sede, a desilusão, o caminho, o sorriso, o incerto. Eu era quem falara sobre os problemas da vida, os erros do ser-humano, a dificuldade do verbo ser, as mentiras que as pessoas contam. Eu era a palavra doce que poderia se tornar amarga. O passado, o futuro, o presente. Eduardo era o meu presente.
Aqueles presentes que vem numa embalagem com um laço vermelho enorme e lindo. Era assim que eu me sentira todas as vezes que estava frente dele: – sendo presenteada. Sentia-me machucada todas as vezes que percebera que eu não poderia ser um presente à ele também. Mas eu entendera que, Eduardo era as minhas palavras. Enquanto ele, ele teria uma vida inteira pela frente... As palavras nos enriquecem, mas quem enriquece as palavras?
Eram dados sem volta. Dois números seis. Uma dúzia de músicas e estrofes. Dois personagens. Um amor que não era amor. Uma história linda. Algumas reticências e várias virgulas. – Eu sempre tive medo do ponto final.
Sabia que uma hora ele iria embora, mas temia as pessoas que iriam tirá-lo de mim. Fiz planos incabíveis de fazê-lo meu. Fugir, roubar, matar. Que fosse! Meu personagem principal não poderia ir embora. Se ele fosse, era como se eu perdesse os parágrafos, não houvesse mais travessões... Quem me mostraria o caminho? Onde eu procuraria os verbos? Que verbo? Verbo amar.
Tu o amas. Ele o ama. Nós o amamos. Vós o ama. Eles o amam. – Eu o amo. – Eu amo o personagem que pegara borboleta com um chapéu, que jogara Alice no buraco, que adoçara o café do monstro, que fugira de casa após uma briga, que riu da cara do presidente, que enlouqueceu a cozinheira com tanta música, que fritou o ovo com o avestruz dentro, que não teve limites, que morreu, que ressuscitou, que teve vários nomes, que dançou, que cresceu, que mudou. Eu amara Eduardo que mudou.
Amara o nome, os erros, os ditos, os pronomes, a voz, a digestão, as lágrimas, os sorrisos, a mágica, as mentiras. O amara por inteiro. Pois foi assim que ele me ensinou: O amor não é só o bom, não é só o que completa, não é só o que nós queremos. Deve-se amar o todo. Certo ou errado. Que seja amor!
Que seja vivo, que seja errado, que seja água, que seja exagero, que seja romântico, que seja explosivo, paldoso, calmo, bonito, orgulhoso, chato, bobo, incalculável, desregrado, descritível, comum, irracional. Que seja nosso.
Como amor de professor, de pai, ou mãe. Amor de quem protege. De quem vive. De quem quer bem. Amor de quem faz feliz, e principalmente, amor de quem é feliz. Porque eu sou feliz com Eduardo.


– Onde eu assino? – perguntou Alice.
– Na gaveta. – respondeu o chapeleiro.
– Gaveta?
– Aquela que abre o coração.

A.

RETRATO BRANCO E PRETO
Composição: Tom Jobim e Chico Buarque

Já conheço os passos dessa estrada,
Sei que não vai dar em nada,
Seus segredos sei de cor.
Já conheço as pedras do caminho,
E sei também que ali sozinho,
Eu vou ficar tanto pior.
E o que é que eu posso contra o encanto?
Desse amor que eu nego tanto.
Evito tanto e que, no entanto,
Volta sempre a enfeitiçar...
Com seus mesmos tristes, velhos fatos,
Que num álbum de retratos,
Eu teimo em colecionar.

Lá vou eu de novo como um tolo,
Procurar o desconsolo,
Que cansei de conhecer.
Novos dias tristes, noites claras,
Versos, cartas, minha cara.
Ainda volto a lhe escrever...
Pra lhe dizer que isso é pecado,
Eu trago o peito tão marcado,
De lembranças do passado e você sabe a razão.
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto,
A maltratar meu coração.

domingo, setembro 18, 2011

A.

BABY, YOU'RE A RICH MAN
(1967)
The Beatles
Composição: John Lennon e Paul McCartney.


How does it feel to be,
One of the beautiful people?
Now that you know who you are,
What do you want to be?
And have you travelled very far?
Far as the eye can see.
How does it feel to be,
One of the beautiful people?
How often have you been there?
Often enough to know.
What did you see, when you were there?
Nothing that doesn't show.

You keep all your money in a big brown bag, inside a zoo.
What a thing to do.

How does it feel to be,
One of the beautiful people?
Tuned to A natural E.
Happy to be that way.
Now that you've found another key.
What are you going to play?

Baby, you're a rich man,
Baby, you're a rich man.
Baby, you're a rich man too.

Baby, you're a rich man...

80's love.

“E depois de aposentado, resolvi cruzar o mundo, procurar um amor. – E achei. Ah!”

Depois dos setenta e cinco, temos poucas lembranças de nossa infância. Mas eu confesso que sou cheio delas. Lembro-me do dia em que roubei uma rosquinha, porque estava com muita fome e não havia comida em casa. Até que minha mãe visse, aquilo me parecia um grande feito. Sabe aquele sentimento de trabalho cumprido? Pois bem, aquela satisfação me invadiu até que minha mãe deu um tapa em minha mão, tirou a rosquinha do meu bolso, e disse: “Grandes homens não fazem isso”. Foi então que eu decidi ser um grande homem.
Aquela foi a grande decisão de minha vida. Eu vivera numa geração e numa classe social em que as crianças decidiam se iriam suar duro para conseguir o que queriam, ou se a vida delas seria fácil, mas não obteriam nada. – E foi assim que eu consegui meu primeiro emprego, jardineiro da Dona Margarida. “A velha com nome de flor”, era como eu a chamara. Dona Margarida, apesar de muito resmungona, foi uma grande mulher em minha vida. Ela me ensinara tudo sobre as flores de seu jardim, e foi mais longe. Quando percebeu que eu era um garoto esperto, resolveu me ensinar a tocar piano. Depois começou a me dar livros para que eu aperfeiçoasse a minha leitura. E logo vieram as aulas de teologia, de etiqueta, e a autorização para que eu usasse a piscina de sua casa e treinasse natação para concorrer nos campeonatos da escola. [...] Resumindo, Dona Margarida foi mais que a minha primeira empregadora, ela foi como uma madrinha, uma segunda mãe.
Também foi a inspiração para que quando eu terminasse o colegial, trabalhasse o dia inteiro e fizesse uma faculdade. Pois fiz. Formei-me em Direito. Na faculdade, arranjei bons amigos. Uns já se foram, outros acabei perdendo o contato. Outros estão longe de mim, mas sempre que posso, os visito. E todos estão guardados na memória e nas fotografias.
Após a faculdade, entrei no meu primeiro escritório de advocacia. Eu era aquele jovem que não tinha sequer um tostão no bolso para comprar um terno, e por isso usava aquele terno velho que o meu pai comprou para se casar com a minha mãe. Mas isso não durou muito tempo. Logo que ganhei meu primeiro salário, dei um jeito de arrumar meu guarda-roupa. [...]
Certo dia, coloquei na cabeça que me tornaria juiz. E então comecei a estudar para isto. Trabalhava de dia, chegava em casa de noite e estudava. Estudava nos finais de semana, no horário de almoço, no banho... Embora não levasse os livros para todos os lugares, mantinha minha cabeça nos estudos e assim ficara memorizando. – Primeiro concurso para juiz, não passei. – Estudei em dobro. Passei na terceira tentativa.
Tornei-me juiz e aquilo se tornou a minha vida. Eu vivera para o trabalho e eu gostara daquilo. Eu procurei ser um juiz justo, um cara honesto, um grande homem. Como aprendera com Dona Margarida, mantive sempre a minha vida nas mãos de Deus. Todo o meu trabalho, sempre, teve a proteção daquele que nunca me abandonara. E assim, exerci minha profissão com muita calma e nunca tive grandes problemas. Digo, nunca enfrentei tentativas de seqüestro ou assassinato, como outros amigos juízes sofreram.
Mas eu sempre fui sozinho. E a dor de estar sozinho, só foi insuportável quando recebi a notícia de que estava na hora de me aposentar. Nunca me casei. Não tive filhos, nem netos, e estava ficando velho.
No dia da aposentadoria, cheguei em casa, sentei no sofá e comecei a relembrar tudo que havia passado em minha vida. Da pobreza, aos grandes sacrifícios e, enfim, uma vida invejável. Boa casa, bom carro, bons restaurantes, ótimos amigos, viagens maravilhosas. E nunca estive completo.
Embora muitas vezes as pessoas digam que só o amor não é o suficiente, todas as pessoas podem dizer que só o conforto nunca foi. Pois o amor pode suprir a falta de conforto, mas o conforto nunca poderá suprir a falta de amor.
Chegamos ao final de nossas vidas e descobrimos uma coisa que é fácil, que está sempre visível aos olhos, e que nos recusamos a ver: “Vivemos para o amor”. O ser humano vive para o amor, e sem amor ele não é completo. Sem amor, sempre haverá uma lacuna dentro de nós. Uma lacuna extensa, fria, e dolorosa. O amor é tudo que precisamos.
Este foi o meu grande erro. Não dei chance ao amor. Já amei, sim. Mas ignorei aquele sentimento e fui atrás do desejo de me tornar um grande homem. Eu só não soubera que, para ser um grande homem, é preciso saber amar.

Se quase chegando aos oitenta anos, posso ainda lhe dar um conselho. O conselho é: “Ame!”. Sua vida não será nada sem amor.

sexta-feira, setembro 16, 2011

E.

TOMARA
Vinícius De Moraes e Marilia Medalha

Tomara!
Que você volte depressa.
Que você não se despeça.
Nunca mais do meu carinho...
E chore, se arrependa.
E pense muito,
Que é melhor se sofrer junto,
Que viver feliz sozinho.

Tomara!
Que a tristeza te convença,
Que a saudade não compensa.
E que a ausência não dá paz,
E o verdadeiro amor de quem se ama,
Tece a mesma antiga trama,
Que não se desfaz...
E a coisa mais divina,
Que há no mundo,
É viver cada segundo,
Como nunca mais.

ÁGUAS DE JÚLIO

Chuvas do Mês de Júlio
24 de Julho de 2011




“Esperar você é o mesmo que esperar chuva em mês de Julho. Não vem. – Você não me entenderia, mas já passei por outros Julhos antes. Já tive esta esperança colada ao peito e já vi esta esperança secar.
"Tu não irás cair do céu, chuvinha” – repito sempre ao coração. Mas não sei o que há que ele sempre te espera. Ele vive esta sede insaciável do teu amor. E eu fico aqui, sentada nesta escada, esperando as gotinhas de você.”

Nós morávamos em Julliards, cidadezinha do meio da América. Do meio da América que pouco chovia. Eram raros os meses de chuva naquela região. Os antigos acreditavam que a falta de água era castigo dos deuses. “Os protetores estão enfurecidos com a nossa cidade, porque há muitos anos alguém daqui roubou o vento do Deus d’água”, meu avô sempre dizia. Crueldade!, eu pensava. Naquele calor e alguém tivera coragem de roubar o vento, – um pecado! Mas os antigos mantinham a esperança de que o filho de Javé voltaria com a chuva.
Julho, leva nome de Julho, graças ao Júlio. Meu melhor amigo. Filho de Javé. – Lembro como se fosse hoje a primeira vez que vi “Julliards”, assim que eu o chamara para irritá-lo. Olhei-o com certo medo. Júlio tinha altura média, um pouco acima do peso, cabelos pretos e marcas feias no corpo. Era quieto, reservado. Fazia o tipo de quem sofrera muito e levara a dor consigo. Na verdade, todos nós temos uma grande dor dentro da gente. Mas Júlio era o tipo que não aceitara aquilo e por isso se calava, mantinha-se ereto, sempre na resguarda. Havia algo em Júlio que eu admirava: seu olhar sempre grande. Não que ele tivesse olhos saltados, mas enxergava bem. Júlio tinha afetos e pensamentos que quando os dividia comigo, me deixava assustado e encantado. Era um sábio. E vivera de música. Passara as vinte e quatro horas de seu dia com a música. Escutara somente o que sua alma pedira e era incrível como todos o amavam por todos seus saberes musicais. Júlio sabia como molhar as pessoas.
“Júlio sabia como molhar as pessoas”, era o que minha mãe dizia sempre que ele almoçara lá em casa. Às vezes acho que minha mãe sempre soubera quem era Júlio. Júlio possuía mãos que tocavam os céus.
Certa vez, ele batera o carro num hidrante. Acreditem, o Hidrante não estourou. Maravilhado com a façanha, Júlio desceu do carro, olhou o estrago meio por cima e tocou o hidrante. Ao tocar, a água saltou como se brotasse do chão. As crianças ali por perto saíam correndo se maravilhando com as águas de Júlio. Foi uma algazarra! E todos nós aproveitamos aquele hidrante quebrado, aquela água que sei lá como parecia brotar com muita força do chão, feito chafariz.
Creio eu que este foi o dia em que Júlio se descobriu filho de Javé. Sei apenas que logo depois do acontecimento, o velho Danton que tinha um parque aquático, foi até a casa de Julliards conversar algo com ele. Sei também que o velho veio com uma história sobre Deus que Júlio não acreditara, e mandara o velho embora. Nunca falou diretamente comigo sobre isto, mas os vizinhos me contaram. Júlio sempre me contou suas dores, mas ninguém conta suas loucuras. Aposto que quis me poupar da idéia de que ele era algum desmiolado que andava sem rumo por aí. Porque Júlio era meio “sei lá”, sabe? Tinha vezes que eu o olhara e ficara confuso com o que ele falara. Ele voava naquilo que dizia... Era como a música que tinha várias notas.
Uma semana depois do acontecimento do hidrante, Júlio sofreu a perda de um amor. Sua namorada morreu em um acidente de carro. Não se sabe muito como foi, sabe-se apenas que Arlandria não sobreviveu. Perder Arlandria foi perder sua vida. – Quem poderia suportar a dor de perder um amor? – A música parecia não tocar mais para Júlio. Se afastou de mim, e todas as vezes que nós conversamos depois da tragédia, ele parecia me dizer entrelinhas que estava partindo também. Bem, ele na verdade estava partido, sem n. A gente acaba partido ao meio quando perde quem a gente ama. [...]
A coisa estranha é que Júlio encontrou forças na loucura do velho Danton. O velho chegou um dia com uma bíblia e disse para que Júlio pensasse em sua dor e abrisse a bíblia. Quando o fez, Júlio leu palavras que o salvaram. Não sei se ele passou a acreditar em Deus, mas tenho certeza que nunca mais teve dúvidas sobre o poder das palavras. – Se Júlio era um cara que pensava no que falar, depois disso acabou pensando muito mais.
Então, a convivência com velho Danton cresceu. E todos os dias eles subiam a Colina Dewoski, um morro que tinha uma nascente d’água. Conversavam, oravam, tocavam violão e escutavam música boa o dia inteiro. Eram pai e filho que não tinham o mesmo sangue. Dois loucos e cada um com sua loucura. Um velho e um jovem maduro. “Jovem maduro”, lembro-me quando o velho Danton intitulou Júlio assim:
"– Ele é um jovem maduro. E há uma grande diferença entre quem já viveu e sabe, e quem vive parecendo saber. – Júlio não viveu, mas é como se já tivesse vivido. – Eu sou velho, tenho experiência. Ele é jovem, e sua maturidade não lhe poupa dos erros. Apenas faz com que ele saiba assumi-los. Jovens loucos e revoltados erram, jovens maduros também. A maturidade só permite que saibam sofrer e encarar esta dor.”
Enfim, era mês de Julho e eu estava sentado na varanda de casa olhando a Colina Dewoski. Quando, de repente, escutei um barulho enorme. Avistei Júlio correndo com as mãos para o alto. As nuvens do céu pareciam segui-lo. E das nuvens caíam água. Um milagre! O cheiro de terra molhada me invadia. O cenário mudou rapidamente, de sequidão à poças de lama. – Era Júlio fazendo chover em Julho.
Escutei meu avô gritando: “Filho de Javé!”. Foi só então que entendi que Javé significava fé e Júlio era cheio disso dentro dele. Óh! Nunca me esquecerei. Danton gritava: “Chova Júlio, chova!”. E Júlio choveu.

Em Julho choveu.
" – Choveu Julliards! Choveu!"

quinta-feira, setembro 15, 2011

B.

"[...] Todo sentimento precisa de um passado pra existir.
O amor não, ele cria como por encanto um passado que nos cerca. 
Ele nos dá a consciência de havermos vivido anos a fio,
Com alguém que a pouco era quase um estranho. 
Ele supre a falta de lembranças por uma espécie de mágica..." 

(Benjamin Constant)

A vida é cheia de "mas".


"A gente reconhece de longe convites de casamento. – Que droga!"


Eu estava sentada na varanda assim como fiquei sentada quando deixei que ele partisse. Lembro como se fosse hoje: meus pés gélidos e paralisados, um livro de Jack Kerouac nas mãos, e olhos fixos nos passos do meu amor que se ia embora... Qualquer que fosse o meu erro, ou meus erros, eu o amei. Mas cada um tem a sua maneira de amar. E aquela era a minha maneira: Deixá-lo ir.

O problema é quando as pessoas aprendem a perder. E eu aprendi. Com seis anos de idade, quando vi meus pais morrerem num acidente de carro, eu aprendi a perder. Sei que devo agradecer pela vida que continuou à mim e terminou à eles, mas não foram poucas as vezes em que eu aceitaria trocar a minha vida com qualquer um que pudesse dar um sorriso sincero.
Claro que muitas vezes eu fui feliz, mas era sempre como se faltasse parte de mim. Então quem não é inteiro, não pode amar; não é mesmo? É preciso haver duas pessoas inteiras para que exista amor. Porque duas metades da laranja só competem àqueles que não vivem a vida real: os filmes, teatro, música, – aquilo que  amo.
Acontece que a vida não é um texto qual eu escrevo. Palavras são perfeitas e a graça do viver é a imperfeição. As pessoas poderiam compreender que, quando escrevo, estou apenas disfarçando solidão. Eu tenho necessidade de me transportar para um mundo perfeito. E as histórias que eu invento são meus esconderijos, minhas fugas, meu jeito de sonhar. Porque eu, como mulher, ainda sonho com um amor que eu verdadeiramente poderei amar. (...)
Mas deixá-lo ir foi uma escolha que eu sofrerei pelo resto de minha vida, tenha certeza disso. Ele era especial. Um homem de visão, com bom gosto, e elegância. Aquele jeito despropositado, sonhador e leve, era confundido e entrava em atrito com o seu jeito maduro, visionário e grande. Seus pensamentos me deixavam boba. Havia ali muitas coisas que eu concordava, pensava, mas não exteriorizava. Daí ele vinha e colocava-se à falar tudo aquilo que eu gostaria de dizer. Encantava-me. Nós tínhamos uma ligação de outra vida. Se eu acreditasse nessas coisas de regressão, eu tenho certeza que, n’outra vida nós fomos almas gêmeas, irmãos, pai e filha, melhores amigos.
Mas deixá-lo ir era preciso. Eu não poderia ficar o resto de minha vida presa na dor de não poder ser o que ele merecia. Também nunca me esforcei para ser mulher certa àquele homem. Fui sempre apenas eu. Solitária. Eu. – E no amor, se a gente não cede, se a gente não se transforma um pouco do amado, se a gente não entra na rotina e não acostuma ali como dois, não da certo. – É preciso que haja um pouco de sacrifício no amor. – É preciso entregar-se ao amor.

Quando levantei a cabeça das escritas e avistei o carro parado do outro lado da rua, eu já soubera, era ele. Mas não era ele. Era outro homem qual eu já havia conhecido há longo tempo e não me lembrava mais, prefiro pensar assim. Saber que ele mudou e eu sou a mesma, causa-me alguma dor.
Então ele cruzara o jardim, vagarosamente, analisando passo por passo e encantado com minhas flores. Todas as vezes que ele atravessara meu jardim, ele fizera a mesma cara de surpresa e ficara maravilhado com as minhas criações, – e esta sempre foi a minha motivação. – O amor teve o poder de motivar até a mim, acredite.
Subiu as escadas, colocou o primeiro pé na varanda, analisou-me com cuidado e disse: “Bella, sou eu”. Como se eu não soubesse, pensei. Levantei-me, fiz questão de ir até ele e dar-lhe um abraço, fazer a anfitriã, dizer aquilo do “quanto tempo, estive com saudades”.
Pois ele se adiantara. E foi só aí que vi o envelope branco em suas mãos. Senti-me uma idiota, porque por um momento eu pensei que era um reencontro, uma volta, um novo começo. Porque eu o analisei atravessando aquele jardim e não notei aquilo em suas mãos. Um convite. Uma droga de um convite, desculpe. Uma merda, de uma merda, de uma droga de um convite.

– Só vim para entregar isto... Vou me casar, Bella.

Fechei os olhos sorrindo. Como quando você fecha os olhos para segurar as lágrimas e sorri para não demonstrar dor, ou ainda, um sorriso de quem não acreditara. E na mesma expressão, tentei falar, mas lágrimas escorreram.

– Ela é linda, – ele continuou. Mas vendo que não era boa idéia, apenas virou as costas e se foi outra vez, e desta vez, para não voltar nunca mais.

E parada em pé, olhando para o chão, eu ficara. Ficara, e a chuva começou a cair do céu. Acho que antes d'ele ir, ele até disse-me algumas coisas, mas eu só escutei até a parte de que ela era linda, e depois fiquei apenas com o barulho da chuva. Acho que para mim não importaria o que ele fosse explicar, o que fosse dizer sobre quão especial ela era. Porque ela, – ela não era eu –. Porque sei lá em qual dia de qual mês fosse, ela entraria numa igreja por um pedido que eu recusei. Porque ela teria na vida dela, para sempre, quem eu mais amei e quem mais me amou. Quem cuidou de mim, quem esteve sempre disposto a me ouvir, me amar e dizer de coração aberto o que sentia por mim. Por mim! Que nunca o merecera.
Porém, eu nunca soube se poderia ter sido de outra maneira. Acho que eu não voltaria atrás, se pudesse. A vida tem que ser assim, e se foi assim, há um motivo para isto. Viram? O problema é quando as pessoas aprendem a perder, e eu já disse: eu aprendi. Agora é tudo compreensível.
A minha dor é a mesma de quem perde e não sabe perder, a diferença é que não tenho vontade de mudar nada. É que o costume e a aceitação causam isto: o não fazer, o não mudar, o que “se dane”. Ficamos parados vendo o movimento, vendo a vida de todos se ajeitarem, sofremos com a nossa vida chata, mas não fazemos nada para mudar isto. E sabe, sofremos. Mas acostumar-se com a perda, é também acostumar-se com a dor.
Deixar o homem de sua vida ir embora, parece uma grande prova de amor. Mas é um fracasso. Esta história de que o destino vai colocá-lo em sua vida outra vez é coisa de filme, livros e música. A vida real é diferente. É preciso força e garra para tudo na vida. É preciso coragem. É preciso doar-se. É preciso suar duro por cada conquista. Nada – exatamente, nada vem fácil na vida.
O “deixar acontecer” é um problema. É deixar de comandar a sua vida. É não poder ordenar sua própria história. É assim que eu vivo desde que perdi meus pais. Deixo ser, deixo estar, deixo que a vida me leve... A ironia disso é que quando escuto as pessoas falarem que o destino ajeitará suas vidas, eu tenho vontade de gritar – sim – gritar: “Amigo! Deus te deu uma vida, não é? Já é gratidão demais lhe dar uma vida... acha mesmo que Ele vai ficar cuidando dela? O que dará certo ou errado só dependerá de você! A vida é sua! O que entra e sai dela é por sua culpa! Destino é coisa de ficção... Acorda! Vive a vida. Vive a vida real. Começa a viver. Vamos viver, vamos viver, vamos viver!”. – Viver é meu maior desejo.
Mas é só desejo. Eu não tenho grandes objetivos. Minha vida é Lei it be. Sou desencanada. Aquela história do “há pessoas que existem, e há quem viva”, eu sou apenas o existir. Eu gosto de apenas existir. Esta tranqüilidade de não precisar sair do lugar para ter o que quero, é boa. Mas – nossa, como sou cheia de “mas”! –. Mas eu não fico em paz.
Não mesmo. Eu sofro bastante.

A dor de quem ama é perder. Perder quem se ama, porque a pessoa não lhe amou é algo fácil. Entretanto, perder quem se ama, porque tu fizeste tudo errado. É fardo que leva para vida inteira. – Porque não se pode cometer o mesmo erro duas vezes. – O certo é que, a próxima vez que o amor bater minha porta, terei que ser além do que posso. O problema, bem, é que não haverá outra história como a minha e de Tomás. Serão só outros amores... E eu, ah!, quem dera tivesse eu nascido com a sorte de encontrar outros amores. Mas foi Tomás. Outro "mas".