Respeite o tempo. Possivelmente eu mudei de opinião.

terça-feira, setembro 04, 2012

A.

– O que o amor faz?
– O amor nos faz crianças, querido poeta. 

Pois, como escreves, somente as crianças podem enxergar a vida com pureza, possuir medo de perder e sentir proteção em um simples ato, como dar a mão.

MEU SEGREDO

“Atravessar a sala de aula para chegar a carteira do menino era o maior desafio de sua vida. O caderno era rabiscado com corações e o nome do amado.
Olhava-se no espelho e sentira-se deslocada do mundo em qual vivera. A menina era romântica e tivera sonhos, escrevera num diário e não era a mais bonita da classe. E, em seus dez anos de vida, o que mais desejara era declarar o amor que ela sentira.
O amor guardado a sete chaves, que vivera ameaçado pelo medo do “não” e pela possibilidade de perdê-lo.”

No meio da aula a memória o traz e, de repente, estou sorrindo. Tenho vontade de estar com ele, abraçá-lo, chamá-lo para tomar sorvete, dar as mãos... Seu sorriso me traz paz. Sua maneira de tratar-me me faz feliz. Seu jeito de menino se tornando homem, me encanta. Sua fé e seu jeito de encarar a vida me trazem coragem. É simples, muito simples. Mas eu sou apenas a sua amiga.
Torcemos pelo mesmo time; temos as mesmas opiniões, mas discutimos às vezes. Ele é sincero comigo, já tentou me dar conselhos e vejo que se eu precisasse de algo, ele estaria ao meu lado. Achamos engraçado o pontinho verde no canto da sala e eu adoro vê-lo sorrir. Sinto que ele não me suporta algumas vezes, mas tudo bem, porque algumas vezes também fico magoada com suas faltas.
Vejo muito de mim nele. Percebo que assim como eu, ele também está perdido. Porém, toda aquela vontade de continuar... ah!... toda aquela vontade de continuar me traz esperança. Por muitas vezes, pedi a Deus que me trouxesse um sopro de vida e, agora, todas as vezes que assisto aqueles olhos brilhando posso enxergar todos os motivos de estar aqui.
Minha escrita anda lenta. Tenho medo de que descubram tudo o que ando guardando aqui... Tenho medo de que descubram como as coisas andam quebradas... É tão estranha a maneira com que a vida me colocou de frente a ele. Seria errado um romance com alguém que deveria ser apenas meu amigo. Alguém que não conhece nem a nossa amizade. Alguém tão lindo que, eu não poderia machucar. Sinto ciúmes, tenho medo de perdê-lo, mas não me sinto no direito de demonstrar o que é que há. – “O que é que há?” – Há, não sei!, alguma espécie de magia. Uma sintonia entre duas almas, dois corpos, duas vidas. Há algo fraterno e bonito, sincero. Algo especial. Tão simples que eu nunca senti.
Não é algo que me tira o chão. É algo que me faz suspirar com doçura. É um carinho leve, um desejo sereno de dar as mãos, uma delicadeza em querer estar ao lado.
A amizade é o sentimento mais leal entre duas pessoas. Já diria o poeta: "é possível haver amizade sem amor, mas não se pode ter amor sem amizade.". 
Todas as noites, eu paro e entrego à Ele o meu segredo. – “Meu Pai, se ele for meu, entregue-o para mim na hora certa.”. Porque se isso for amor, então eu saberei esperar. 
Eu havia prometido a mim mesma que as pessoas deveriam gostar de mim pelo o que eu sou, sem cautelas e sem conquistas. E agora tenho vergonha de parecer boba ou desesperada. Deve ser – o começo exige mesmo essas borboletas no estômago, não é? 
Sei que eu sempre preguei que devemos correr atrás daquilo que nós almejamos. No entanto, o meu maior medo não está na possibilidade de que me esnobe. Eu temo a mim mesma. A maneira com que me conheço e sei que este sentimento pode não ser. Por isso, as mãos Dele são necessárias. Deus precisa curá-lo de mim e precisa protegê-lo das minhas defesas. 
Deus, faça-o feliz, porque ele é lindo. E, se puder, faça-me amá-lo, porque eu gostaria de ser o motivo daquele sorriso. – Ah! Aquele sorriso...

quarta-feira, agosto 22, 2012

F.

"Existem momentos da vida que 
precisamos literalmente fazer uma 
limpeza dos antigos conceitos e abrir 
caminho para novas aquisições. 
Se olhe, 
Refaça,desfarça.. 
Rabisque, critique-se 
Desembrulhe, desconstrua... 
Mergulhe, respireeeee 
Vamos! 
Experimente 
Abra caminho, lance ponte... 
Eis a transformação necessária 
Que deveria ser constante ao ser que 
somos, mutantes."

— Joana Darc Araujo

17ª CARTA

"Tempo de esperas."

Agosto de 2012, Piracicaba/SP 

Querida Clarissa, 
o relógio na parede aponta duas horas e quinze minutos. A noite é silenciosa e solitária. E por minha conta. Eu poderia estar com ela agora, mas estou aqui – deitado na cama e tentando dormir. Me conheces, Clarissa. Sabe sobre minhas confusões. E, novamente, estou aqui preso sobre a decisão da loucura ou do costume. 
Meu erro é o mesmo de sempre: me envolver com as pessoas erradas. Gosto de estar com ela, mas o jeito da outra me encanta. Estou dividido. Com uma é sexo. Sexo mesmo! A coisa mais louca que já vivi com uma mulher. Com a outra é doçura. É gostarmos de coisas em comum, e, discordarmos de outras. O físico de uma me enlouquece, a sinceridade e a sonoridade da voz da outra me acalma. É torturante! Porque são amigas... 
Porque uma tem meu corpo e a outra ganhou meu coração. Porque uma sabe a hora que chego e a outra nem imagina que gostaria de estar ao seu lado. E machuca. Machuca porque estando com ela vivo a vida da outra. E tenho que esconder como chama a minha atenção quando aqueles olhos brilham como as estrelas desta noite. Tenho que disfarçar minha fragilidade, porque as pessoas dessa cidade conhecem apenas a minha força, o meu delírio, a minha imprudência. 
Não sabem que aqui dentro ainda mora o menino que pegava a bicicleta e pedalava até a casa da avó para escutar as histórias mais fantásticas de minha vida. Não sabem que sinto mais do que ajo e que penso mais do que falo. Não sabem dos meus maiores segredos e não poderiam imaginar como é fácil me derrubar. –  Não podem saber da tempestade que cai dentro de mim: sou dela, mas queria ser da outra. 
Por isso não respondi aquela mensagem. Rejeitei a noite prazerosa que sei que teria com aquela mulher e estou aqui imaginando o sorriso da outra... Ah, como é doce! Como é linda! Tem tudo o que eu sempre procurei para ter ao meu lado: é simples e cheia de fé. 
Não entendo. Por que duas amigas? Talvez seja a vida me pregando a velha peça do: “aprenda, não é possível obter tudo”. Seria mais fácil se pudéssemos largar os velhos hábitos, conter o ciúme, não nos confundirmos como propriedades e deixarmos livres as pessoas que nos são belas. Porém, é fato, não é humano aquele que não ferve a veia de ciúme. Não é leal aquele que não está com a mão aberta. E não ama aquele que trai. 
É por isso que me contenho. É por isso que devo me afastar dela e da outra. Não posso ferir aquilo que eu poderia amar. Não posso ser egoísta quando aprendi da pior forma que o amor é prêmio dos merecedores. E para merecer é preciso de algo que, quando entendido o significado, é desafiador conseguir sê-lo. Para merecer o amor é preciso ser gentil. 
A generosidade e o sacrifício andam juntos neste caminho. É preciso ser generoso com quem se ama e é preciso sacrificar-se para ser verdadeiro. Amor exige lealdade, princípios, força e fé. Amor não é aquilo que as revistas e televisões expõem. Amor é o objetivo pelo qual vivemos. E sem ele a vida é triste, insone, cinza. A vida sem amor passa em preto e branco. 
Clarissa, eu lhe perdi pelos meus desatinos. Carregarei esta culpa para sempre. Porém, saiba, não lhe perdi porque desisti de ti, eu lhe perdi porque desisti de mim mesmo. Não posso mais desistir de mim. É tempo de espera. Faz-se tempo de espera por aquilo que é bonito e não por aquilo que é passageiro. – “Me espera.”.

Com amor, 
Danillo.

quarta-feira, agosto 08, 2012

C.

"Sempre fui mulher para encorajar e aceitar as minhas vontades. Se quero, quero. Se não quero, não quero. Posso parecer confusa, às vezes. Mas continuo aquele meio-termo: mulher ou menina? A verdade é que sou à moda antiga. À moda antiga lapidada nos tempos de hoje. Acredito que o homem tem que tomar a frente da relação, porque quando a mulher toma a atitude perde-se a imagem do homem e fica tudo menos encantador. Mas, conforme a urgência dos tempos atuais, não sei dizer não às minhas vontades. É assim: se ele não vem, não vou; se ele vem, eu aceito e aceito sempre, para sempre. - Vou citar Tati Bernardi: "Se o homem realmente gosta, ele vai até o inferno por você. Ele vai sim, e ainda abraça o capeta se for preciso. Sabe por quê? Porque homens são previsíveis, se eles querem eles querem, se não querem, não querem. A raça dos homens não é complexa igual a nós mulheres, que sempre temos dúvidas, que sempre analisamos, pensamos, colocamos mil problemas e tal. Homem é tudo igual. Eu sei é clichê, mas é a mais pura verdade. Quando o cara quer, não tem distância, problemas, família, trabalho, tempo, futebol, estudo, mãe, unha encravada, barba por fazer, celular sem bateria, chuva, temporal, falta de dinheiro que o impeça de estar com você. É simples. É a realidade.". Eu funciono assim, racional. Mas, no fundo, é medo. É romantismo. É uma espera frustante de ser surpreendida. Por isso, rapaz. É fácil: surpreenda-me." 

 — A.M.D.M.

4ª CARTA

Julho de 2012, Piracicaba/SP.

Querida Clarissa, 
entrei no curso como havia lhe escrito na última carta. Precisei escrever sobre isto, porque hoje, após duas semanas de curso, estava conversando com Willian – um colega – e enquanto marcávamos para assistir o jogo da quarta-feira me deu um branco, sabe? Aqueles momentos que a gente para e fica pensando, foge do lugar, voa longe... É que lembrei que estou conhecendo pessoas novas. 
É um processo longo essa coisa de continuar a vida, não é? Acho que estou passando pelos últimos capítulos deste livro, logo chega a hora de começar um novo. Conheci pessoas totalmente diferentes de mim e acho que isso foi a melhor coisa que me aconteceu. Eu sei que é estranho, mas estou empolgado. E empolgação é algo que não combina comigo. 
Troquei de emprego, resolvi ir atrás de fazer o que eu gosto. O curso é ótimo. Continuo com a faculdade, porque não é hora de desistir. “Desistir” é palavra desconhecida de meu dicionário daqui pra frente. Comecei a fumar, confesso. Mas tu me conheces, sabe o quanto sou ansioso, e o quanto preciso de algo para quebrar meus conflitos. O cigarro vem descarregando as energias e não pretendo parar tão cedo.
Ando conversando pouco com a família que deixei na velha cidade. Ainda não é tempo de amarrar os laços novamente. A casinha que aluguei está ficando do meu jeito e, por enquanto, não tenho vizinhos; o que é ótimo, porque posso colocar minhas músicas no meu volume durante a madrugada; e o que é ruim, porque pela primeira vez gostaria de ter vizinhos. Ah, claro, “durante a madrugada” não perdi a insônia. Nem sei se isso é algo que “se perde”, porém não irei continuar com os remédios para o sono. 
Comecei a ler um livro maravilhoso segunda-feira, chama-se “As cinzas que se tornaram fogo”. Tenho certeza que gostaria de ler este livro. Fala sobre um rapaz que teve que re-começar a vida. Re-começar assim mesmo, com hífen separando porque ele na verdade nunca havia começado nada. Sei lá, o livro mudou minha ideia sobre o “começar”. A gente só começa aquilo que termina. Se não termina, não existiu. Pode descartar. 
Bom, no momento não tenho muito a escrever. Peguei o papel com uma felicidade desigual e pensei: “Preciso contar à Clarissa o quanto minha vida está sendo vida.”. Porque, sim. Sim, Clarissa. Você estava certa. Eu não tivera vida antes. Eu brincara com ela. 
E como você mesma me ensinou, a tristeza é o único sentimento que nos faz escrever palavras belas. A magia do amor, a alegria e a paz, não nos trazem a mesma reflexão. Talvez seja isto: Eu ando bem, meu amor. Eu ando tão bem que escrevo tão pouco. 

Com amor, 
Danillo.

terça-feira, julho 31, 2012

B.

“Algumas pessoas não sabem o que dizem. O Beija flor não é um pássaro comum. Sua frequência cardíaca é de 120 batidas por minuto. Suas asas batem 80 vezes por segundo. Se você segurasse um beija flor e impedisse ele de bater as suas asas ele morreria em menos de 10 segundos. Ele definitivamente não é um passaro qualquer! E isso é um verdadeiro milagre! Uma vez observaram através de uma câmera lenta o bater das asas de um beija flor, sabe o que eles viram? As extremidades das asas se movem fazendo o numero 8 no ar; Sabe do que o numero 8 é simbolo matemático? Infinito!” 

 — O Curioso Caso de Benjamin Button, adaptação do romance de 1920 de F. Scott Fitzgerald

1ª CARTA

"Nossa vida está organizada de acordo com a nossa casa. Minha vida anda bem, desde que não abram as gavetas."

Junho de 2012, São Paulo/SP.

Querida Clarissa, 
vários acontecimentos marcaram minha vida após a sua partida. Sei que tenho grande culpa por seus passos percorrerem outro caminho neste momento, caminho paralelo ao meu trajeto. Porém, de algo eu sei que não tenho culpa. Não posso sentir-me culpado por ainda lhe amar. – Gostaria de dividir minha vida com você novamente e sei que isto seria impossível, então resolvi escrever esta carta. 
Ontem recebi um dia de folga no trabalho. Poderia ter saído, encontrado novas pessoas, distrair a cabeça... Mas, assim como acontece em minha vida há meses, permaneci em casa. Resolvi limpar a casa que estava uma bagunça. E, durante a arrumação lembrei-me da vez em que tu me disseste que a nossa vida está organizada de acordo com a nossa casa. Analisei a situação e percebi que isto é verdade. Quando minha vida está bem, tenho vontade de deixar tudo no lugar por aqui. Mas, quando as coisas vão mal, minha casa tem que representar o lixo que os dias andam sendo. – Porém, no momento, a casa está arrumada, desde que não se abram as gavetas. Deve ser isto: minha vida está organizada por fora, mas por dentro... Por dentro a bagunça espera a hora de ser lembrada. Você sabe. Eu necessito de um tempo só meu para conseguir coragem de mexer na minha bagunça. 
Bem, as coisas mudaram por aqui. O Pedro está namorando e, antes que você se engane, não está namorando a Débora. Conheceu uma menina e se apaixonou. A menina é linda, se chama Alice e é formada em Artes Plásticas. Sempre que posso vou até a casa de Pedro trocar uma ideia com ela. A garotinha leva jeito pra vida, tem olhos fixados no futuro e seus desenhos representam a vida de uma maneira que, pessoas como nós sabemos que é vida, mas outras pessoas entenderiam apenas como um simples desenho. 
João se tornará pai daqui um mês. No começo, achei essa história esquisita, confesso. Mas hoje penso que toda criança é uma benção e deixo que Deus abençoe o que virá. 
Andei me aproximando mais de Deus. É claro, nada de igreja todo final de semana. Mas dediquei alguns minutos dos finais de meus dias para agradecer a continuação. Antes eu acreditara que nós tínhamos que agradecer as coisas boas, hoje eu entendo que nós devemos agradecer pela capacidade de permanecer firme, de desejar continuar, de – mesmo que doa – poder esperar que as coisas melhorem para nós. E acho que era isso que você tentara me dizer e eu, sem muita paciência, não prestara atenção. 
Andei deixando muitos amigos para trás. Talvez porque não fossem meus amigos ou eu não fosse amigo deles. Comecei a colocar nos dedos quem poderia me por para frente e quem poderia me deixar para baixo. Resolvi cortar os dois. Amigos tem que estar do lado, nem atrás nem na frente, mas caminhar ao lado. 
Há pessoas que estão ao nosso redor, mas nos causam inveja. Não dá pra ser amigo de alguém assim. Amigos tem que nos despertar o desejo de querer o melhor para o próximo, não de querermos ser melhores que eles. Talvez você ache naturalista demais este pensamento, mas vai notar que bons amigos não nos fazem sentir sentimentos ruins como inveja, soberba, tristeza ou rancor. 
Algumas músicas e livros eu também excluí de meus dias. Parei de procurar por aquilo que me trouxera inteligência e comecei a procurar aquilo que poderia me trazer sabedoria. Sabedoria tem a ver com preenchimento de alma. Então, hoje, procuro ler e escutar aquilo que me causa satisfação. É preciso que algo realmente me toque para que me desperte. É preciso que algo me traga novas visões, mas é preciso principalmente que aperfeiçoe aquilo que já é meu. 
Descobri novos lugares nesta mesma cidade. Nada de bares, boates ou afins. Fui atrás de natureza. Encontrei paisagens lindas e resolvi comprar uma câmera digital. Muitas vezes, tirei fotos pensando em como você gostaria de vê-las, Clarissa. Mas hoje tiro fotos imaginando como eu não gostaria de esquecer que estive ali. 
Ando muito eu, eu com eu mesmo. E eu tenho parado para escutar um pouco da vida. Acho que é isto que eu sempre precisei. Parar. Entender o que a vida tem para me dar e, sobretudo, entender o que eu tenho que ganhar dela. Mas ganhar com esforço, você sabe. Você me entende, Clarissa. Você entende que eu compreendi o valor das coisas e dos dias. Você entende... 
Clarissa, lhe escrevo em breve. Saiba que eu sinto falta daquelas noites em que ficávamos deitados na cama conversando sobre o que poderia ser e o que deveríamos fazer para ser. – Cuide-se. 

Com amor, 
Danillo.

domingo, julho 29, 2012

A.

"Coragem, às vezes, é desapego. É parar de se esticar, em vão, para trazer a linha de volta. É permitir que voe sem que nos leve junto. É aceitar que a esperança há muito se desprendeu do sonho. É aceitar doer inteiro até florir de novo. É abençoar o amor, aquele lá, que a gente não alcança mais." 

 — Ana Jácomo

PARA 1ª CARTA

“Ainda criança sonhamos a vida da maneira mais inevitável possível. Quando nos tornamos adultos, temos a certeza de todas as impossibilidades. Mas desistir seria abandonar os olhos de esperança que nos pertenceram há anos atrás. – Continuar andando é a maneira de encontrar um novo caminho.” 

Sexta-feira. Chegou em casa, apontou a mão para acender a lâmpada, click, click, a lâmpada não acendeu. “Acho que queimou”. Percebeu o mal-cheiro que viera da geladeira. “Nada disso. Cortaram a energia, outra vez”. Cansado, não pagara as contas. Trabalhara todos os dias e no final do mês nunca sobrara dinheiro. – É, rapaz, não é fácil começar a vida. – Tornar-se independente não é somente um degrau para se subir, é uma escada inteira. 
Deitou no sofá, pensou nas contáveis coisas que poderia fazer durante o final de semana. Nenhuma boa opção. Pensou em ligar para Pedro, mas soubera que o amigo estaria ocupado com a namorada. Rafael viajara. Madalena trabalhara até tarde e se preparara para o concurso do mês que vem. Todos continuaram suas vidas e ele ainda era o mesmo. 
O fato de estar só não o incomodara, nunca o incomodou. Sempre preferiu a solidão, o lugar tranqüilo, a boa música quando se pode ouvi-la sem ser interrompido. O que o atormentara são os sonhos que ele não conseguiu alcançar. – Mas “não conseguir” era uma expressão forte demais para ele. Não conseguir sugere tentativa e ele nunca sequer saiu do lugar. – A vidinha confortável pode causar costume, como também pode causar espanto. 
A escuridão da casa trouxe-lhe as lembranças do passado. As estradas, os desvios, a placa de ida, a placa de volta, a espera do ônibus amarelo, a faculdade, o carrinho de churros que ficara parado na esquina... As vontades e as vezes em que foi contrariado. Os “nãos” e as portas fechadas. As aflições e os perigos, e, até os perigos que na hora pareciam amigáveis. – A escuridão de uma casa é o buraco negro que pode trazer as revelações mais profundas, sinceras e inesperáveis. 
“Eu nunca tive um sonho”. E era verdade. O que ele tivera eram miseras alucinações, desejo de grávida, sonhos emprestados dos personagens favoritos das séries de televisão. Nunca tivera coragem de arriscar sua própria vontade. Vivera das vontades alheias e isto nunca havia lhe perturbado. Era fácil brincar de vida quando no final da noite tivera o gosto do álcool e da mulher amada em sua boca. 
Mas, agora, antes de dormir ele pensara nas oportunidades que ele nem sequer notou que eram oportunidades. Pensara nas derrotas e nos motivos de cada lágrima. Soubera sua culpa e sua inocência. Poderia justificar cada erro, mas era tarde demais para receber o seu próprio perdão. 
Pegou o celular no bolso e conferiu os contados da agenda. O nome dela permanecera ali. Pensou em ligar para escutar a voz compreensiva dela dizendo: “Eu lhe entendo”. Ela o entendera. E ela não rejeitaria ouvir seus martírios, mas já não era hora de procurá-la. Provavelmente ela seguira a vida dela e o medo de obter a certeza de que ela nunca mais irá fazer parte de sua vida era dispensável para o momento. 
Tirou os sapatos, pegou papel e caneta e resolvera escrever. – Embora ainda não possam descrever exatamente o que sentimos, as palavras tem a capacidade de nos mostrar uma saída. – “Cheguei em casa, descobri que a energia foi cortada...”, não, isso não. Amassou o papel, jogou no lixo, começou outro rascunho. “O que é um sonho? Sonho pode ser aquele de padaria, de criança, pertencente a noite ou...”, não, também não. Outro papel no lixo, mais uma tentativa. “Querida Clarissa, vários acontecimentos marcaram minha vida após a sua partida. Sei que tenho grande culpa por seus passos percorrerem outro caminho neste momento, caminho paralelo ao meu trajeto. Porém, de algo eu sei que não tenho culpa. Não posso sentir-me culpado por ainda lhe amar. Gostaria de dividir minha vida com você novamente e sei que isto seria impossível, então resolvi escrever esta carta...”. 
Era uma saída. Tomou a decisão de escrever à Clarissa todos os dias, mesmo que a carta levasse apenas quatro linhas ou que ele nunca a enviasse. Ele escreveria. E guardaria todas as cartas em envelopes na primeira gaveta da escrivaninha de seu quarto. 
Terminou a carta pensando se a vida poderia ainda colocá-lo de frente a Clarissa para que pudesse entregá-la pessoalmente. Soubera que sim. Histórias inacabadas são ciclos e tornam-se labirintos da vida onde andamos, andamos e chegamos sempre ao mesmo lugar. 
O problema é que nós falamos da dor como se com ela não se possa viver. Ao contrário, com a dor ou sem ela, os dias passam. Só o que pode tornar a vida diferente é o amor. Pois só ele nos dá ânimo de pagar as contas, mudar o caminho, escrever novas histórias e traçar um objetivo confiante. – Tomou banho, deitou, dormiu. Amanhã será um novo dia. E haverá uma nova carta.