Respeite o tempo. Possivelmente eu mudei de opinião.

domingo, janeiro 06, 2013

O TEMPO

Anota: 
A vida é uma ausência.

Querido amigo, 
Eu venho notando as mudanças que o tempo nos proporcionou com os olhos daquela criança que acaba de conhecer o mar. É lindo! Pisar na areia, tocar o mar com os pés, escutar o barulho das ondas, sentir o vento balançar os cabelos... E perceber que aquele momento é único. 
É único o momento em que paramos para pensar na vida e refletimos como está tudo bem. As peças do quebra-cabeça se encaixaram, não é? Faltam algumas, eu sei. Mas eu consigo notar a força que nós adquirimos para arrumar o que nos falta. Eu sei que, no final, o quebra-cabeça formará uma linda imagem.
Eu estou em paz, meu amigo. Eu perdi aquela ansiedade apaixonante pela vida. Apaixonar-se pela vida é o tormento que não nos deixa dormir. A idade nos proporciona esse desapego pelas procuras daquilo que sabemos que não iremos encontrar. E ainda, a idade nos faz entender que mesmo que estejamos com os braços abertos, nem tudo estará em nossas mãos. 
É justamente no ponto que conseguimos compreender que a vida é uma ausência que nós ganhamos a tão sonhada paz. Passei – sim – a vida procurando por felicidade. E descobri que a única coisa que eu precisara fora paz. Porque a felicidade, meu caro amigo, é utopia. Ninguém é feliz em todos os momentos e nós dois sabemos bem disso. Eu venho acreditando que nós somos felizes somente uma hora antes de encontrarmos a morte. Pense bem, uma hora antes de ela nos tocar, já sabemos tudo pelo qual devemos nos orgulhar em nossa vida. Acabou. Hora de festejar. 
Venho pensando em retomar antigos projetos. Você se lembra? Lembra como eu era um sonhador? Sabe... eu me lembro. Eu me lembro dos seus olhos brilhando quando falávamos em sonhar. Eu não consigo me lembrar se você tivera um sonho, me desculpe. Mas não me esqueço da maneira poética com que você costumava falar sobre o futuro. É uma pena que não possamos mais nos comunicar como antes. O tempo altera muita coisa, não é meu amigo? O tempo, muitas vezes, é traiçoeiro. Infelizmente nós vivemos apenas uma vez. E as horas não esperam que nós possamos nos decidir quando iremos ir. Se deixarmos para amanhã, o caminho pode não estar mais lá. 
Eu queria poder acreditar em destino se já não tivesse perdido tantas coisas por pensar que ele traria de volta... Não trouxe. Foi uma escolha minha deixar a vida seguir seu ritmo natural. O curso natural da vida nem sempre poderá nos orgulhar. 
Queria lhe contar que eu não sou mais o mesmo. Ainda tenho e, penso que nunca perderei, a minha ambição. Porém, não me preocupo mais com tantas coisas. O essencial já me parece o bastante. Às vezes a gente quer cuidar de tantas coisas que deixamos o que é bonito passar. Nem tudo nós é permitido, não é? É preciso deixar algumas coisas de lado e nos entregar àquilo que a alma pede. E, é bom limitarmos a alma, para que ela deseje somente o que os braços possam alcançar. Repito: nem tudo estará em nossas mãos.
Também queria lhe lembrar da minha fé. Continua forte. Vivenciei experiências fantásticas que fortaleceram a minha crença de que algo nos protege. Gostaria de partilhar esses momentos, mas já está ficando tarde e amanhã acordo cedo. Lhe escrevo em breve. 

 Com carinho, 
 Chico.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

A.

"Então vinha o medo. Não queria aceitar a palavra, empurrava-a para longe do cérebro, mas ela voltava a se impor, e ele estava tão fraco que nem podia lutar. Vinha o medo frio, vinha o medo lento. Primeiro uma carícia brincando nos tornozelos, leve arrepio subindo pelas pernas, arrepiando as coxas. No ventre, solidificava-se feito compressa de carne mole, gelada. No peito, apertava como se quisesse estancar o ritmo do coração, e na garganta implorava para ser transformado em grito. Um grito que quebrasse as paredes, arrebentasse o teto, como um cavalo selvagem. Mas junto vinha também o cansaço recolhido no fundo do corpo, recusando-se a atender o pedido. Enfurecido, o medo escalava o pescoço, fazia estalar a cabeça. Maurício levava as mãos até as orelhas, apertava-as, sentia o liso frio das faces, implorava: não não não. Sem pausa, sem sentido, sem voz, ele implorava como devem implorar os condenados à morte frente ao pelotão de fuzilamento. Sem empenho, porque jamais seria atendido. E, de repente, a dor cessava. Então mergulhava num poço silencioso, esverdeado de musgo, vazio de arestas." 

 Limite Branco, Caio Fernando Abreu

MESES DE SEPARAÇÃO, Sr. SOLITÁRIO

Você precisa me deixar ir. Eu venho me desvencilhando dos lugares, roupas e pessoas; mas você continua o mesmo. Você ainda pensa. Eu posso sentir o seu pensamento me buscando e eu sei o motivo. É a culpa. A culpa de ter tomado o caminho errado, outra vez. A escolha absurda, o afastamento do equilíbrio, a sombra que ocupa o espaço vazio. 
A memória ainda guarda o cheiro do perfume doce, as palavras ainda levam o ritmo da minha leitura, o céu tem as cores que eu descrevi. Você está no mesmo livro, rapaz. O personagem não morreu, porque a história não acabou. Eu não posso pontuar o fim se você não me deixar ir.
Você não pode perguntar sobre mim às pessoas que me são próximas. Você não pode assistir aquele filme que nós gostávamos. Você não pode inventar e viver uma história como se eu ainda estivesse ali. Você não entende? O telefone não vai tocar, os livros não irão perder as palavras, as janelas estão trancadas e as portas destruídas. Não há passagem. Há separação. 
A separação tem que ser real. A dor não é separar-se, a dor é saudade. A saudade não nos pertence mais. Somos duas almas que deveriam escolher a solidão diante do abandono. Porque sim, sim rapaz, nós nos abandonamos. Não houve um “até logo”, nem um “adeus”, muito menos o estimado fim. Houve medo, fuga, urgência, abandono. 
E como é possível duas almas predestinadas ao romantismo resolverem abandonar o amor? Resposta simples. Nós deixamos de fazer bonito aquele amor que era tão real. Nos perdemos. Fizemos um trato com a rivalidade e venceria quem fosse mais cruel. Mas cruel com o quê? Com quem? Com as pessoas que nós deixamos que fizessem parte desse teatro? Ou com nossa própria dor? 
Permitimos que aquelas pessoas se aproximassem, tomassem lugares, descobrissem segredos e sofressem com o nosso mistério. Pessoas como nós, querido Senhor Solitário, deveriam permanecer sós. No entanto, nós procuramos aconchego, encontramos um lar, cercamos nossa casa e construímos uma vidinha simples e doce. E que mal há nisso? Onde está o erro? O erro está na história que eu não pontuei. 
É a separação que a sua alma não deixa que eu viva. Senhor Solitário, me escute, me leia, eu imploro! Deixe-me ir. Estou só há meses nessa espera de que você me esqueça, mas eu não vejo o esquecimento em seus traços. De longe, passo em frente de sua casa todos os dias, nunca o vejo, mas sei que estás lá. Sentado, tentando admitir a solidão daquele buraco negro, até que o passarinho faça parte da cena. 
É lindo escutar o canário cantar, mas a sua alma encontra-se aflita. O canto não acalma se você não permitir-se. O problema é que, para isso, você precisa me deixar... E você não o quer. Você quer que eu permaneça e faça você acreditar que a escuridão daquele buraco negro irá se tornar um arco-íris de cores. Você precisa acreditar nisso. Precisa que o vento traga um sopro de vida aos seus olhos vermelhos. 
Afinal, os meses de separação são bonitos ou inevitáveis? Me pergunto se você os vive ou apenas finge. É que a sinceridade desse encanto não corre junto com a correnteza da sua alma. Ao contrário, ela afunda. – Você está se afogando no seu próprio erro, ao invés de se buscar saúde, são os velhos costumes que aumentam. São novas mentiras para os nossos pais, porém as mentiras escondem os mesmos deslizes. 
Deixe-me ir, Senhor Solitário. Você tem que se desvencilhar dos lugares, roupas e pessoas, mas você – você – continua o mesmo. Como se a separação não existisse e os tempos fossem sempre Natal.

sábado, outubro 13, 2012

A.

"O tempo da maturação é importante. Escrever é como fazer pão. O tempo de fermentação é indispensável, pois é ele que faz com que o pão cresça antes de ser levado ao forno. Antes da publicação, a fermentação das palavras. O motivo é um só. As palavras podem ser traiçoeiras. Por isso — preciso — oferecer-lhes descanso." 

Tempo de Esperas, Fábio de Melo 
Obrigada Rita.

NÃO É HORA

"A pergunta era a mesma: “Está na hora?”. Porque voltar ainda carrega o mesmo preço pelo qual eu pago ao continuar. Não estamos valendo nada. Nossos corpos estão nus, desprotegidos, as almas estão abertas. E em minha frente eu posso enxergar o exército se aproximando. Nós somos presas fáceis. Somos as vítimas que ninguém irá defender. Nesse crime não haverão criminosos, porque estamos isolados." 


Sinto necessidade de que me escutem, no entanto ainda não posso falar. As palavras estão guardadas no silêncio que só eu posso ouvir. Os braços que me acolhem poderiam sentir de leve o som das rimas, mas eu ainda gaguejo quando penso em falar de amor. 
E se o amor não for tudo o que eu pensei? Não se trata mais da pessoa perfeita, dos encontros com trilha sonora, dos monstros que ameaçam o final feliz. Não. Talvez se trate de algo muito mais simples. Duas pessoas, duas vidas, duas histórias, nada exatamente os completam, um não precisa do outro, porém os olhos gostam, a pele gosta, a presença é gostosa, é um pouco doce, meio mágico, é simples. 
Eu sei porquanto eu caminhei procurando entendê-lo. Mas decifrá-lo está longe de minha capacidade. Eu não o pertenço, assim como ele está longe de mim. Posso notar suas aflições, mas não posso tocá-las. “Eu quero cuidar de você, menino.” – Eu quero mostrar o lado branco, o meu lado, o lado neutro, um pouco confuso e ainda belo. Quero que venha comigo, quero segurar suas mãos, quero dividir alguns capítulos.
Porque é assim: a gente nasce para dividir alguns capítulos da nossa história com outras pessoas. Tem a parte dos pais, dos irmãos, da escola e dos amigos que ela nos traz, dos amores, do casamento, dos filhos, dos netos, da velhice. A velhice é o capítulo mais sereno. O fim. Os finais felizes são compreendidos quando podemos encerrar o nosso livro. É quando posso olhar para trás e ler todas as palavrinhas que marcaram meu coração. Quando cada importuno faz sentido, porque cada fraqueza fez ser o que eu sou. É a parte bonita. A parte sincera. A parte em que quase tudo está escrito. 
O desafio então é saber fazer com que as palavras de hoje possam levar beleza para o amanhã. Não é difícil fazer sincero o presente. Ah, difíceis somos nós! Nós que não sabemos embrulhar o presente com fitas vermelhas de Natal, que só falamos do passado e do futuro, e esquecemos de construir o sorriso de hoje. Nós que somos frágeis, tão frágeis quanto os corações velhos. Que somos sozinhos mesmo que haja uma multidão lá fora. Que entramos na música e deixamos de tocá-la dentro. Dentro, talvez, seja o segredo: Deixar entrar. 
Ah, rapaz, se você soubesse o quanto as palavras já me traíram... O quanto me causa medo trazê-las de volta. O quanto o silêncio da minha isolação é mais confortável. Se você soubesse... se você ousasse... Se o passo à frente fosse dado me pouparia tanta dor. Porque as coisas não vão bem, mas eu continuo aqui, como sempre fui. Da mesma maneira que sempre me encontrou: forte, transbordando coragem, suspirando esperança e trazendo o medo no olhar. 
O medo paralisa. O medo me deixa calada. O medo é a cigarra que canta lá fora. O silêncio do medo é o que você enxerga todas as noites ao passar pela minha casa. – Sim, eu sei. – Você percorre os mesmos caminhos. 
A velocidade dos seus passos não mudou. A vida seguiu, no entanto a rotina é igual. As mesmas conversas, embora pessoas diferentes. Os mesmos divertimentos, embora outros locais. Os mesmos vícios, embora novas drogas. Somos os mesmos. 
E eu suponho que continuará assim. Porque cada livro segue um ritmo. E os nossos é a mesma bossa-nova de sempre. É o mesmo cigarro no cinzeiro, a mesma janela aberta, o mesmo telefone que não toca. As mesmas lágrimas e a mesma lamentação. 
O que muda, rapaz, é que eu estou mais livre. E o seu amor não é meu.

terça-feira, setembro 04, 2012

A.

– O que o amor faz?
– O amor nos faz crianças, querido poeta. 

Pois, como escreves, somente as crianças podem enxergar a vida com pureza, possuir medo de perder e sentir proteção em um simples ato, como dar a mão.

MEU SEGREDO

“Atravessar a sala de aula para chegar a carteira do menino era o maior desafio de sua vida. O caderno era rabiscado com corações e o nome do amado.
Olhava-se no espelho e sentira-se deslocada do mundo em qual vivera. A menina era romântica e tivera sonhos, escrevera num diário e não era a mais bonita da classe. E, em seus dez anos de vida, o que mais desejara era declarar o amor que ela sentira.
O amor guardado a sete chaves, que vivera ameaçado pelo medo do “não” e pela possibilidade de perdê-lo.”

No meio da aula a memória o traz e, de repente, estou sorrindo. Tenho vontade de estar com ele, abraçá-lo, chamá-lo para tomar sorvete, dar as mãos... Seu sorriso me traz paz. Sua maneira de tratar-me me faz feliz. Seu jeito de menino se tornando homem, me encanta. Sua fé e seu jeito de encarar a vida me trazem coragem. É simples, muito simples. Mas eu sou apenas a sua amiga.
Torcemos pelo mesmo time; temos as mesmas opiniões, mas discutimos às vezes. Ele é sincero comigo, já tentou me dar conselhos e vejo que se eu precisasse de algo, ele estaria ao meu lado. Achamos engraçado o pontinho verde no canto da sala e eu adoro vê-lo sorrir. Sinto que ele não me suporta algumas vezes, mas tudo bem, porque algumas vezes também fico magoada com suas faltas.
Vejo muito de mim nele. Percebo que assim como eu, ele também está perdido. Porém, toda aquela vontade de continuar... ah!... toda aquela vontade de continuar me traz esperança. Por muitas vezes, pedi a Deus que me trouxesse um sopro de vida e, agora, todas as vezes que assisto aqueles olhos brilhando posso enxergar todos os motivos de estar aqui.
Minha escrita anda lenta. Tenho medo de que descubram tudo o que ando guardando aqui... Tenho medo de que descubram como as coisas andam quebradas... É tão estranha a maneira com que a vida me colocou de frente a ele. Seria errado um romance com alguém que deveria ser apenas meu amigo. Alguém que não conhece nem a nossa amizade. Alguém tão lindo que, eu não poderia machucar. Sinto ciúmes, tenho medo de perdê-lo, mas não me sinto no direito de demonstrar o que é que há. – “O que é que há?” – Há, não sei!, alguma espécie de magia. Uma sintonia entre duas almas, dois corpos, duas vidas. Há algo fraterno e bonito, sincero. Algo especial. Tão simples que eu nunca senti.
Não é algo que me tira o chão. É algo que me faz suspirar com doçura. É um carinho leve, um desejo sereno de dar as mãos, uma delicadeza em querer estar ao lado.
A amizade é o sentimento mais leal entre duas pessoas. Já diria o poeta: "é possível haver amizade sem amor, mas não se pode ter amor sem amizade.". 
Todas as noites, eu paro e entrego à Ele o meu segredo. – “Meu Pai, se ele for meu, entregue-o para mim na hora certa.”. Porque se isso for amor, então eu saberei esperar. 
Eu havia prometido a mim mesma que as pessoas deveriam gostar de mim pelo o que eu sou, sem cautelas e sem conquistas. E agora tenho vergonha de parecer boba ou desesperada. Deve ser – o começo exige mesmo essas borboletas no estômago, não é? 
Sei que eu sempre preguei que devemos correr atrás daquilo que nós almejamos. No entanto, o meu maior medo não está na possibilidade de que me esnobe. Eu temo a mim mesma. A maneira com que me conheço e sei que este sentimento pode não ser. Por isso, as mãos Dele são necessárias. Deus precisa curá-lo de mim e precisa protegê-lo das minhas defesas. 
Deus, faça-o feliz, porque ele é lindo. E, se puder, faça-me amá-lo, porque eu gostaria de ser o motivo daquele sorriso. – Ah! Aquele sorriso...

quarta-feira, agosto 22, 2012

F.

"Existem momentos da vida que 
precisamos literalmente fazer uma 
limpeza dos antigos conceitos e abrir 
caminho para novas aquisições. 
Se olhe, 
Refaça,desfarça.. 
Rabisque, critique-se 
Desembrulhe, desconstrua... 
Mergulhe, respireeeee 
Vamos! 
Experimente 
Abra caminho, lance ponte... 
Eis a transformação necessária 
Que deveria ser constante ao ser que 
somos, mutantes."

— Joana Darc Araujo

17ª CARTA

"Tempo de esperas."

Agosto de 2012, Piracicaba/SP 

Querida Clarissa, 
o relógio na parede aponta duas horas e quinze minutos. A noite é silenciosa e solitária. E por minha conta. Eu poderia estar com ela agora, mas estou aqui – deitado na cama e tentando dormir. Me conheces, Clarissa. Sabe sobre minhas confusões. E, novamente, estou aqui preso sobre a decisão da loucura ou do costume. 
Meu erro é o mesmo de sempre: me envolver com as pessoas erradas. Gosto de estar com ela, mas o jeito da outra me encanta. Estou dividido. Com uma é sexo. Sexo mesmo! A coisa mais louca que já vivi com uma mulher. Com a outra é doçura. É gostarmos de coisas em comum, e, discordarmos de outras. O físico de uma me enlouquece, a sinceridade e a sonoridade da voz da outra me acalma. É torturante! Porque são amigas... 
Porque uma tem meu corpo e a outra ganhou meu coração. Porque uma sabe a hora que chego e a outra nem imagina que gostaria de estar ao seu lado. E machuca. Machuca porque estando com ela vivo a vida da outra. E tenho que esconder como chama a minha atenção quando aqueles olhos brilham como as estrelas desta noite. Tenho que disfarçar minha fragilidade, porque as pessoas dessa cidade conhecem apenas a minha força, o meu delírio, a minha imprudência. 
Não sabem que aqui dentro ainda mora o menino que pegava a bicicleta e pedalava até a casa da avó para escutar as histórias mais fantásticas de minha vida. Não sabem que sinto mais do que ajo e que penso mais do que falo. Não sabem dos meus maiores segredos e não poderiam imaginar como é fácil me derrubar. –  Não podem saber da tempestade que cai dentro de mim: sou dela, mas queria ser da outra. 
Por isso não respondi aquela mensagem. Rejeitei a noite prazerosa que sei que teria com aquela mulher e estou aqui imaginando o sorriso da outra... Ah, como é doce! Como é linda! Tem tudo o que eu sempre procurei para ter ao meu lado: é simples e cheia de fé. 
Não entendo. Por que duas amigas? Talvez seja a vida me pregando a velha peça do: “aprenda, não é possível obter tudo”. Seria mais fácil se pudéssemos largar os velhos hábitos, conter o ciúme, não nos confundirmos como propriedades e deixarmos livres as pessoas que nos são belas. Porém, é fato, não é humano aquele que não ferve a veia de ciúme. Não é leal aquele que não está com a mão aberta. E não ama aquele que trai. 
É por isso que me contenho. É por isso que devo me afastar dela e da outra. Não posso ferir aquilo que eu poderia amar. Não posso ser egoísta quando aprendi da pior forma que o amor é prêmio dos merecedores. E para merecer é preciso de algo que, quando entendido o significado, é desafiador conseguir sê-lo. Para merecer o amor é preciso ser gentil. 
A generosidade e o sacrifício andam juntos neste caminho. É preciso ser generoso com quem se ama e é preciso sacrificar-se para ser verdadeiro. Amor exige lealdade, princípios, força e fé. Amor não é aquilo que as revistas e televisões expõem. Amor é o objetivo pelo qual vivemos. E sem ele a vida é triste, insone, cinza. A vida sem amor passa em preto e branco. 
Clarissa, eu lhe perdi pelos meus desatinos. Carregarei esta culpa para sempre. Porém, saiba, não lhe perdi porque desisti de ti, eu lhe perdi porque desisti de mim mesmo. Não posso mais desistir de mim. É tempo de espera. Faz-se tempo de espera por aquilo que é bonito e não por aquilo que é passageiro. – “Me espera.”.

Com amor, 
Danillo.

quarta-feira, agosto 08, 2012

C.

"Sempre fui mulher para encorajar e aceitar as minhas vontades. Se quero, quero. Se não quero, não quero. Posso parecer confusa, às vezes. Mas continuo aquele meio-termo: mulher ou menina? A verdade é que sou à moda antiga. À moda antiga lapidada nos tempos de hoje. Acredito que o homem tem que tomar a frente da relação, porque quando a mulher toma a atitude perde-se a imagem do homem e fica tudo menos encantador. Mas, conforme a urgência dos tempos atuais, não sei dizer não às minhas vontades. É assim: se ele não vem, não vou; se ele vem, eu aceito e aceito sempre, para sempre. - Vou citar Tati Bernardi: "Se o homem realmente gosta, ele vai até o inferno por você. Ele vai sim, e ainda abraça o capeta se for preciso. Sabe por quê? Porque homens são previsíveis, se eles querem eles querem, se não querem, não querem. A raça dos homens não é complexa igual a nós mulheres, que sempre temos dúvidas, que sempre analisamos, pensamos, colocamos mil problemas e tal. Homem é tudo igual. Eu sei é clichê, mas é a mais pura verdade. Quando o cara quer, não tem distância, problemas, família, trabalho, tempo, futebol, estudo, mãe, unha encravada, barba por fazer, celular sem bateria, chuva, temporal, falta de dinheiro que o impeça de estar com você. É simples. É a realidade.". Eu funciono assim, racional. Mas, no fundo, é medo. É romantismo. É uma espera frustante de ser surpreendida. Por isso, rapaz. É fácil: surpreenda-me." 

 — A.M.D.M.