Respeite o tempo. Possivelmente eu mudei de opinião.

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

23 dias de 02 meses



"Que as dificuldades que eu experimentar ao longo da jornada não me roubem a capacidade de encanto." 

ANA JÁCOMO

A FLOR DE DAVI

"Então, a voz que desaparecera há meses soou vagarosamente em meus ouvidos: “guarde no seu bolso”. Imediatamente coloquei as mãos no jeans velho que vestiam minhas pernas, nenhum bolso. Apenas o rasgado das linhas e a cor que desbotava. Mas nenhum bolso. Respirei. Fechei os olhos e pensei: Onde eu devo guardar esses segredos? Não são pecados, tampouco me arrependo de tê-los cometidos. Não quero escondê-los e nem aprisioná-los. Quero guardar. São lembranças que abastecem a minha alma e são delas que eu me reinvento todos os dias para levantar e seguir em frente. São esses pequenos segredos que formam o que eu sou. De repente, a voz insistiu: “Tem um bolso, em algum lugar, que guarda amores e saudades. Coisas que nem te lembras mais. Do primeiro passo aos dias de hoje. Um bolso que poderia carregar canetas, mas que carrega memórias.”. – Onde está o meu bolso?, insisti. – Ora, menina! Está em tudo que produz, em tudo o que tocas, nas pessoas que já encontrou. Na arte, no trabalho, numa conversa, num amigo que seguiu o teu conselho, no filho que gerou, em tudo que tu faz, diz e repassa. As coisas que tu produz, como a atitude de pedir desculpas ou agradecer, é o que fica quando nada mais existir."



Aliviada em aceitar as suas perdas, Margarida fez uma trança nos cabelos e resolveu caminhar pela cidade. Avistou as crianças brincando no parque e os jovens ciclistas apostando corrida. Não conseguiu fazer vista grossa ao caos da cidade, ao esgoto a céu aberto e nem ao trânsito que atravessara ruas. Mas, ali, em seus passos curtos, pôde escutar os barulhos silenciosos do desespero. – Ela percebeu, quase sem querer, que todos nós temos horários atrasados, empregos ruins, um resfriado não curado ou uma vontade imensa de sair correndo. E, mesmo que seja segredo, são esses importunos que fazem ser quem somos.

Você não conhece Margarida. Nome de flor, cabelos castanhos, sardas no rosto e olhos doces. Aparentemente uma mulher, aos seus trinta anos, feliz e com sede de vida. Aparentemente. Margarida era esquizofrênica. Escutara vozes, tivera visões e os pensamentos se perdiam em grandes abismos. Foi abandonada pelos pais, amigos, marido e filhos. As pessoas próximas não puderam mais suportar a aflição de vê-la partindo aos poucos e resolveram fugir da dor. Desistiram daquela mulher que perdera a serenidade e vivera aflita. No entanto, Margarida, que já não tivera mais a sã consciência de quem era, parecera não desistir de si própria. Ela confiou nos próprios passos e, ainda que solitários, continuou andando.

Todas as noites, mesmo com o incomodo das vozes, Margarida se ajoelhara e pedira a Deus para lhe mostrar o caminho. Mesmo com os pés cansados e a fraqueza do corpo, Margarida continuara a crer no impossível. Porque a fé é realmente isso: confiar que aquilo que esperamos irá acontecer, mesmo que em nossa frente nenhuma luz exista. – Então, a mais louca das mulheres, se ajoelhara todas as noites, pedindo o zelo de quem a criou.

Certo dia, desapontada com o carteiro que não passara pela rua, ela resolveu escrever cartas e deixar na caixa de correspondências de seus vizinhos. Em realidade, as cartas de Margarida eram bilhetes. Todos com mensagens de esperança. Ao final, ela assinara seus escritos como “Flor” e pedira que, cuidadosamente, alguém pudesse lhe regar.

Alguns vizinhos rasgaram os bilhetes, outros nem sequer abriram, houveram aqueles que leram e não se importaram, mas também houve quem se encheu do anseio de ter esperança. Ao ler a mensagem de fé, contida no bilhete, o jovem Davi resolveu procurar o autor.

Davi era um jovem rapaz de quatorze anos. Não tinha amigos, pois era taxado de “estranho” pelos colegas da escola. Os pais trabalhavam tanto que não conseguiam perceber a tristeza do garoto. Numa quarta-feira, sua mãe voltou do trabalho e encontrou a casa silenciosa, chamou por Davi que não respondeu, e foi direto a cozinha preparar o jantar como fizera todas as noites. Quando o jantar finalmente começara a cheirar bem, sua mãe subiu as escadas, atravessou o corredor e abriu a porta do quarto. Davi estava caído ao chão. Aos quatorze anos o menino se enchera de remédios na tentativa de cessar o vazio.

Após o ocorrido, os pais de Davi não lhe tiravam mais os olhos. Insistiam que o garoto praticasse esportes, fizesse aulas de outros idiomas, frequentasse o grupo de jovens da igreja. Mas, amor, eles não sabiam dar. Há pais e mães que simplesmente não sabem exteriorizar o amor que sentem pelos seus, não sabem dialogar e tampouco passar um tempo. Era o caso dos pais de Davi que não sabiam enxergar como o menino só precisara de uma direção.

Antes de odiar os pais de Davi – ou qualquer outra pessoa –  é importante que você o saiba: Antes do ódio é necessário tentar compreender. Compreender os motivos daquelas pessoas, como foram criadas ou como são as suas rotinas. – Não é que os pais do garoto não o amassem, eles o amam. Mas esses pais que levam cinquenta anos de idade em suas marcas, foram criados em épocas distintas, épocas em que o amor existia mas não era demonstrado.

Quando recebeu o bilhete, Davi quis imediatamente ir atrás de quem lhe escreveu. No final de sua esperança havia a vontade enorme de possuir um amigo e, inocentemente, ele acreditou que alguém o observara e gostaria de fazer amizade.  – Para ele, o bilhete era único e premeditado.  – No entanto, o rapaz se conteve. Esperou outro bilhete por dias e mais dias. Até que, durante o culto, o pastor recitou: “dê o primeiro passo”. E ele foi atrás do seu novo amigo.

O bairro era pequeno mas as buscas duraram meses. Fizera uma lista com os nomes de todas as possíveis pessoas, roubara cartas para comparar as letras, chegara a sair batendo de porta em porta para perguntar: “De quem é este bilhete?”.

Já cansado de investigar a vizinhança, Davi sentou na porta de sua casa e pediu com fé para encontrar o seu amigo. De repente, a esquizofrênica Margarida começou a correr pela rua e gritar desesperadamente por ajuda. Davi, sem saber o que fazer, ligou para a polícia. Quando acalmados os nervos de Margarida, Davi se aproximou e ela implorou: “Me dê um pouco de água”. Subitamente o menino se lembrou da flor e de como gostaria de regá-la. De imediato a questionou sobre o bilhete e Margaria apenas lhe sorriu. Aquele sorriso selou uma amizade.

Margarida e Davi se aproximaram. No começo ele tivera um pouco de receio, mas aos poucos aquela senhora de trinta anos foi lhe ganhando o coração. Ele pensara que, ainda que louca, gostaria que sua mãe fosse tão sua amiga quanto Margarida. E, num gesto de bondade, pediu aos seus pais que pagassem o tratamento da mulher.

Davi zelara para que a amiga tomasse os remédios com pontualidade. De pouquinho em pouquinho, a cada novo dia, Margarida se curara dos tormentos. Era um milagre que acontecia aos poucos. Era tão devagar que as pessoas quase não percebiam a beleza daquela cura. O impossível aconteceu por intermédio de duas pessoas – por meio de uma amizade. 

É claro que os dois frequentaram médicos, mas nenhum conseguiria ir em frente se não fosse a mão estendida do outro. Todos os dias conversavam e, no meio das conversas, pareciam receber recados de Deus. – Eu realmente acredito que Deus está nas pessoas. Em cada gesto, em cada palavra. Ele age por meio delas.

Deus não pode vir diretamente e falar tudo o que precisamos escutar, então aos poucos ele coloca pessoas em nossas vidas que, a cada novo dia, trazem um novo recado d'Ele. Repito: Deus age por meio das pessoas que nos rodeiam. Margarida, já curada e livre das suas costas cansadas, resolveu caminhar pela cidade. Descobriu avistando a impaciência das pessoas que se dirigiam aos seus empregos que, todos nós, temos alguma coisa para contar. Às vezes, nós só precisamos sentar e ouvir.

domingo, fevereiro 08, 2015

08 dias de 02 meses


"O mundo estará cheio do sentimento que você repassar.".

CARTA ANTES DO CASAMENTO

“Quando recebi a proposta, pensei: “tornar o meu livro em um filme?”. Não, não mesmo. Algumas semanas após a renúncia, repensei. Escrever um livro sempre foi um grande sonho, torná-lo um filme foi uma oportunidade. Acredito que a vida seja feita dessas duas coisas: grandes sonhos e oportunidades. E eu seria um idiota se desperdiçasse a segunda.”




"Assisti em filmes, li em livros e escutei em casamentos onde de praxe a noiva ou noivo recita ao parceiro: “Antes de lhe conhecer eu não soubera o que era amor”. Apesar de poético, não posso lhe pronunciar as mesmas palavras. Eu já conhecia o amor quando lhe encontrei. Nós nos deparamos com o amor desde muito cedo: ao nascer, quando as nossas mães nos seguram nos braços, temos o primeiro contato. É certo que não nos recordamos, no entanto naquele dia nós aprendemos a amar.

Sentir é fácil. Centenas de pessoas passaram em minha rua e poucas delas me fizeram sentir. Mas, ah! As que, sem pedir licença ou permissão, por descuido sentaram no banco marrom daquela rua, e, quando as vi, sem qualquer motivo, eu as amei... Por essas pessoas foi fácil sentir. Talvez o acaso nos faça amar ou talvez seja o contato, não sei, sei apenas que é sem causas. De repente, nós sentimos e, descuidando-se, nós amamos.

Saber sobre o amor é fácil. Nós o observamos todos os dias – nas pessoas que sorriem, nas pessoas que praticam boas ações, nas plantas que florescem, nos nossos avós, nos livros e filmes, e entre amigos. Não precisa ser um mestre ou cultuar volumes para saber o que é o amor, e o que nós queremos dele. Também não é necessário dominar línguas, ou estudar o assunto, para termos noção do desamor e das suas consequências e dores.

Perceber o erro é fácil. Os pais que brigam, as famílias que se separam, as plantas que secam, os amigos que passam anos sem encontrar, os enterros silenciosos e solitários. Não é difícil perceber que falta algo. Talvez essas pessoas tenham errado a receita e eu perduro firmemente para conseguir todos os ingredientes e, enfim, nós dois possamos “dar certo”. Fazer o correto torna-se amedrontador quando nós, apesar de sabermos tantas coisas, não podemos prever o futuro. Então, estive pensando... Meu amor, o que é que falta?

Nós sabemos o que é, nós o sentimos, estamos aqui – então, o que é? Estive pensando... pensando... pensando... Por fim, me lembrei do dia em que você me pediu em namoro. Uma súbita alegria me tomou, fui aos céus e voei escutando as suas doces palavras “eu lhe amo, eu lhe amo, eu amo”. E, subitamente, eu estava com os pés no chão, tomada pela realidade da distância. “Namorar à distância é doloroso, complicado, difícil, ruim... Pode não, abre aspas, dar certo, fecha aspas.”. Ao que você respondeu: “Depende de nós.”.

Depende de nós. Nós sabemos o que é, nós o sentimos, estamos aqui e o grande segredo é transformar. O erro daqueles pais que brigam é, apesar de sentir e saber o que é, não transformar. Não praticar. Deixam os dias tortuosos alcançar as suas casas, quando sentam a mesa não há diálogo, transmitem a raiva dos problemas financeiros aos filhos e estão habitualmente colocando a culpa no outro. Não sabem se desculpar e acabou a gentileza. Eles sabem o que é, o sentem, mas não exercitam.

É necessário descobrir o que nós queremos de nossas relações e desvendar o caminho para alcançar. Sabemos o que é, sentimos e precisamos transformar isso. Há caminhos – respeitar, conter a raiva, pedir desculpas por não nos conter, educar os filhos à mesa e demonstrar. Eu quero ter uma família com você, onde os filhos amam os pais e os pais amam os filhos, mas, para isso, não basta saber o que é o amor, ou sentir, é preciso praticar. Para conseguir uma vida feliz ao seu lado eu devo, antes de amar, exercitar o que sei – não apenas do amor – mas de todas as coisas.

Repensei: não depende de nós, depende de mim. Eu sei o que eu quero para nós e vou caminhar até isso, assim, de forma espontânea, você e todas as coisas serão transformadas pelas minhas atitudes. E vice-versa. – As nossas ações serão repassadas, isto é, continuadas. Modificando o que há ao nosso redor. – Eu transformo um pouquinho, você transforma um pouquinho e vai dar certo. Amor – já é desde abril, a partir de hoje será casamento. Então... meu amor... podemos começar de mãos dadas?”

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

02 dias de 02 meses


"(...) Ain't no people on the old dirt road,
No more weather on the old dirt road...

 Keep on keeping on.
Keep on keeping on. 
So long, so long... 
Bye bye."

A VIDA CONTINUA

"Com as mãos cheirando à alho e as maçãs do rosto úmidas pelo rastro das lágrimas, a moça se perguntara incansavelmente: “Para onde irá o amor quando há a separação?”. Ah, menina! Deve haver algum lugar onde o amor é preso. Uma caixinha ou uma gaveta. Algo mágico que o faz desaparecer, sem mapas misteriosos ou dicas em tabuleiros. Aqui, ali e em todos os lugares, há de existir algum lugar para onde vai o amor quando os corpos se separam.".




Vez ou outra, encontramos estampado em um outdoor ou destacado em um livro: “a vida continua”, e, apesar da indicação, às vezes somos pegos de surpresa – a vida não se interrompeu, ela prosseguiu. “Eu sobrevivi!” – é uma frase reconfortante e dela vem a crença de que a partir de agora tudo será bom. Talvez o que ninguém nos explicou é que a vida continua, no entanto o vazio dentro do peito persiste. Ele desaparece, volta, some, ressurge... Ele nos revela: Estamos vivos, mas não tão vivos assim. 

A maioria das pessoas acredita que estar vivo é acordar todas as manhãs, ir para o trabalho, voltar para a casa, cumprir as nossas metas. Nos fizeram acreditar que se nós tentássemos, hora ou outra, nos acostumaríamos e isso seria o mais perto da tão estimada vida perfeita. Então um ponto importante: você vive ou se acostuma? Nós nos sentimos confortáveis com os nossos empregos, a escolhida faculdade e o parceiro inteligente, porém ao encostarmos a cabeça no travesseiro, é impossível fugir do vazio no peito que nós evitamos durante o dia. 

Nós continuamos as nossas vidas evitando discutir as nossas insatisfações. Perdemos um amor e continuamos vivendo, e continuamos amando. Não há um intervalo para deixar de amar ou resolver os nossos problemas. Aquele sonho que não realizamos? O tempo passou, mas o sonho não se desfez, ele agora faz parte das coisas que nós evitamos pensar. – A vida continua e nessa da vida continuar, se não lutarmos pelas nossas paixões, nós nos tornarmos um mar sem ondas. Funciona como um coma – nós continuamos respirando, através de aparelhos, sobretudo, imóveis. 

É possível estarmos cheios de esperança e, ainda assim, parados. Ter paixões escondidas, arrependimentos que nos sufocam, grandes saudades e tristezas, mas não fazermos nada a respeito. Deixar nas mãos do tempo e esperar que a ferida cure é um risco que corremos, às vezes necessário, noutras vezes, irremediável. – Muitas pessoas já nos disseram que nós não podemos ter tudo o que desejamos, mas eu acredito que nós podemos fazer algo por tudo o que desejamos. – Não se trata de conseguir, trata-se de tentar. São as tentativas que fazem nos sentir mais vivos! 

Eu tenho prestado demasiada atenção em pessoas que viveram quarenta, cinquenta, sessenta anos e, em suas faces, carregam a expressão do inacabado, do não vivido. Há um senhor que me confessou nunca ter realizado o tão sonhado “rolê pela Europa”. Entusiasmada com a gíria, eu o questionei: “E por que não o fez?” ao que ele me respondeu: “Eu me acostumei”. Esse senhor cursou mestrado, tem esposa, quatro filhos e completou: “Por sorte eu tive uma trajetória alegre”. – Se tivermos sorte... 

“A vida continua” são três palavras que consolam quando tudo parece se perder. Porquanto há ressalvas: a vida continua, mas temos que tomar o cuidado para que ela seja bonita. Não conte com a sorte para continuar. Viva! Certifique-se de que viver seja pontuado com uma exclamação. – Às vezes um simples “oi” basta. “Oi, vida!”.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

18 dias de 12 meses

"O que desejo é libertar todas as minhas fraquezas, 
chorar até que acabe o fôlego, 
dormir até que os dias melhorem, 
afogar-me em toda a piedade gratuita, 
pedir todo o carinho e os abraços que me faltam, 
tornar-me a vítima que tenho todo o direito de assumir. 
Mas desejar nem sempre é poder, ou permitir, 
então engulo o desânimo e a dor 
e sigo a encarar, todos os dias, 
todas as pessoas que sempre 
só perceberão o que te falta, 
sem tempo para entender 
as dificuldades 
do que 
te cabe. 
Assim sigo,
independente 
de como me sinto, 
arrastando os 
dias como posso, 
regatando sonhos, 
tentando acreditar 
que as coisas boas vão sim 
perdurar, enquanto durar 
este pequeno intervalo, 
criado por novos anos 
que tão logo acabam, 
e que aprendemos 
a chamar de vida." 

 SOBRE A RESILIÊNCIA E A VONTADE DE ABANDONÁ-LA, POR LARISSA CARAMEL EM  OBIVIUS

SER MAIS QUE NAMORO, SER RELAÇÃO, SER AMOR

"Olhou e perguntou: “hei, você namoraria alguém que não fuma cigarros como você?”. Pensei em milhares de coisas que eu poderia explicar para aquela moça, contudo resolvi me conter. O tempo ensina melhor. Espero que ela aproveite a vida aprendendo com as oportunidades que o tempo nos traz. A fitei sem demonstrar muita atenção e respondi: “Essa diferença é a menor questão que encontrarás para ter uma relação”."




Os namoros e as relações se diferem. O namoro é a fase da paixão, de conhecer o outro, da insegurança e da inconsequência. A relação é a fase em que o amor entra na história, quando já há o conhecimento sobre o outro, quando há a confiança, o respeito mútuo, a aceitação do que o outro é –sobre as suas qualidades e os seus defeitos – e, sobretudo, quando é possível a convivência. O namoro constrói uma relação e quando, estreitas as relações, pouquíssimos eventos poderão encerrá-las. 

O amor só existe quando cessada a fase da paixão. E há no amor uma beleza incomparável! Tenho encontrado muitos namoros por aí, mas que esbarram em se tornar relações. Os namorados não conseguem resolver os seus conflitos. Não conseguem ultrapassar a fase de levar o ressentimento para a casa, de acumular mágoas e, então, numa discussãozinha qualquer, desabafar, jorrar tudo para fora. A grande dificuldade em um namoro se tornar uma relação é justamente o acumulo das mágoas. Eles não conversam sobre o que aconteceu hoje ou o que estão sentindo, não são completamente honestos e não se sentem confortáveis em ser, não há a confiança que é estabelecida em uma amizade. 

É preciso que o seu companheiro seja mais do que gostar de sexo, ele também tem que ser o seu amigo. A amizade estabelecida em uma relação trata do companheirismo, da aceitação e do respeito. Quando amigos, as pessoas se ajudam, se comunicam, se aceitam – e quando falo em aceitação, falo em aceitar não só as qualidades, mas também os defeitos. E, quando amigos, as pessoas se respeitam. Respeitam o tempo, os outros amigos, os dias ruins e respeitam os silêncios. 

Respeitar os silêncios é o desafio da convivência e este é a base de um relacionamento. Tolerar a convivência é aceitação dos dias em que o companheiro passou por um grande problema em seu trabalho, chega cansado em casa, desejando o silêncio. Ter a nitidez e a confiança de que aquele silêncio não é contra você, é saber respeitar o espaço do outro. A paixão não possibilita isso, contudo o amor necessita dessa tolerância para se tornar o que ele é. 

As pessoas acreditam que irão construir uma relação de longos anos com a pessoa que o faz sentir-se como se tivesse quinze anos. Não! Isso é namoro. Relação se constrói com a pessoa que lhe faz sentir-se maduro. A paixão tem a ver com os desafios, a intolerância, o ciúme absoluto. O amor trata das coisas bonitas e serenas, da maturidade, da amizade e da paz. 

Assim, aqui encontramos um ponto importante: Para nos tornarmos relação é preciso somente do outro? Não. A relação, o amor, começam por você. De você. 

Me questiono demasiadas vezes sobre onde está a dificuldade do futebol de quarta-feira, da noite do pôquer com os amigos ou da “amiguinha”? Onde está o problema com a roupa curta, a noite entre amigas e o cabelo por fazer ou a falta de maquiagem? O problema é a não aceitação, a não confiança, a falta de cumplicidade, a parábola em ser relação. A questão é a cobrança sufocante de querer que o outro seja o que você pensa que você precisa. Você não pode cobrar isso de outra pessoa. Se você deseja amar alguém, precisa aprender a aceitar o que o outro é, e somente assim, se sentirá confortável ao lado daquela pessoa. 

Os ingredientes de uma relação são poucos e, quando praticados, percebemos que são fáceis: companheirismo, respeito e amor. Ah! Se os namorados soubessem o quão é bom ter intimidade o suficiente para ser amigo do seu companheiro! Talvez o mundo estivesse livre de tantas separações... – Alias, o mundo hoje é quem cobra mais. – Cobra tanto que será preciso três planetas para ser suficiente às pessoas que ele vem construindo – uma humanidade cada vez mais competitiva, que finge ser tolerante em suas leis, e, de amor, pouco se pratica. A junção da paz e do amor, embora blasé, ainda é a solução para a humanidade. 

Não há a necessidade de buscar a pessoa mais bonita da cidade, é preciso encontrar um amigo. E, permitindo esta amizade, tenha a certeza: este amigo será a pessoa mais bela, para você. E, no final, é o que importa – você e a pessoa amada, nada mais.  – Olha, moça, os cigarros podem ser apagados, e, ainda assim, aquele namoro não se tornar uma relação. 

domingo, dezembro 14, 2014

14 dias de 12 meses

"O ser humano é dotado de vontade. E pode usá-la para escolher entre o bem e o mal. Se só pode fazer o bem, ou só pode fazer o mal, é uma laranja mecânica – significa que tem aparência de um organismo adorável, com cor e suco, mas que na realidade é um brinquedo mecânico para ser manipulado por Deus ou pelo Diabo ou (que o está substituindo cada vez mais) o todo-poderoso Estado – é tão inumano ser totalmente bom quanto totalmente mau. O importante é a escolha moral. O mal tem que existir junto com o bem, de modo que a escolha moral possa existir.”

LARANJA MECÂNICA, ANTHONY BURGESS

MULHER DESVARIADA

"No final da cerimônia, o pastor gritou o meu nome, fui até ele e me perguntou: “Por que é que chegaste atrasada em todos os cultos?”. Eu pensei duramente durante dez segundos em lhe mentir, mas me recordei que seria uma espécie de pecado tentar enganar o servo do Senhor e lhe fui honesta: “Sabe, senhor pastor, eu penso que os cultos são demorados e tenho demasiada preguiça, então me atraso para que termine mais depressa. Sei, sei, sei, o senhor não precisa dizer! Estou errada! Mas a Ritinha disse que, poderia ser pior, eu poderia ser como aquelas pessoas que não frequentam a nossa igreja. Eu poderia não vir, no entanto, mesmo atrasada, estou aqui todos os sábados.”. O pastor me fitou severamente e respondeu: “É como aquele funcionário que quer aumentar o seu salário mas apenas enrola durante o serviço. Vai todos os dias trabalhar, contudo não produz nada. É trapaça.”."

(Ilustração de Molly Crabapple.)


Causava-me medo tentar decifrar o que existia dentro da cabeça de Inácio e, ainda assim, sou repleta da certeza de que lá, o mundo era mais interessante. Quieto, Inácio parecia não existir. E, por não existir, todos o queriam por perto. Pela inteligência exposta sem receios, a irreverência que chateara alguns e a doçura que aparecera quando menos se esperara, Inácio era bem vindo em todos os lugares. Ele era um bom homem. 

Ao longo de seus quarenta e dois anos, Inácio conhecera Caterina. Caterina fora uma moça inteligente, bonita e doida. Desvariada! À ela não se apeteceria horários, nem regras, muito menos formulas ou zodíaco. Caterina fizera os seus próprios princípios e se sentira desafiada por todos que a subestimavam. A moça era uma competidora por natureza. Não aceitara “nãos”, adorara desaforos e, poderia lhe causar tristeza, mas ela apenas se apaixonara pelos que não se apaixonavam. 

Foi ao quieto e intrigante Inácio que Caterina entregou a sua última gota de amor. A gota d’água. À ele, ela entregou toda a sua devoção, todos os seus desvarios e o seu corpo, em carne e alma. Caterina doou ao amargo Inácio, aquilo que apenas as pessoas de corações corajosos podem doar: princípios. Talvez fosse isso que fizesse Inácio ficar ao redor de Caterina quando todos já haviam ido embora, aquilo que ele nunca recebera dos pais, lhe era entregue por uma mulher doida. 

Inácio, apesar de todas as aventuras e todos os lugares que conheceu, era um homem antiquado. Ele não aceitara o fato de que, quando ninguém o enxergara, se sentia apaixonado pela doida Caterina. Ela falara sobre sexo num tempo onde ainda era opressão, abordara os outros homens com carinho e sem remorsos, não era mocinha de pernas-cruzadas e bons costumes, então, o que é que aquela mulher haveria de ter que era tão atraente? 

A consideração. Apesar da falta de modos, o coração daquela mulher era lindo! Enquanto Inácio se divertira com mil e uma mulheres, Caterina parecia esperar Inácio. Ela entendera que Inácio não firmaria com ela um compromisso de fidelidade, no entanto ela sempre acreditou no homem ser-humano. Para Caterina, há homens e mulheres quais são apenas homens e mulheres. Contudo, ela acreditara que tanto os homens, quanto as mulheres, poderiam se tornar seres humanos. Poderiam se encher da humanidade simples e bonita. 

À aquela mulher, não importara as regras e as boas maneiras de uma sociedade: drogas proibidas, sexo como libertinagem, más-línguas e dez mandamentos. Não... Para aquela doida, o que importara era a bondade das pessoas. Os seus princípios eram a fé, o respeito, a compaixão e a consideração. Princípios que resumiam o que, para ela, era amor. 

A consideração equivale ao homem que anda pelas ruas, quando uma senhora tropeça, derruba suas compras e ele a ajuda a se levantar, e a resgatar as suas compras jogadas ao chão. O amor equivale ao homem que a ajuda a se levantar, pega as compras e acompanha aquela senhora até a sua casa. 

Consideração é algo minúsculo que todo o homem e toda a mulher necessita ter para se tornar um ser que é humano. Quando Inácio atacara as mulheres, e as amigas, que rodeavam Caterina, ele não tinha consideração para com ela. Ele não era um homem com alma humana, ele era apenas um homem, que às vezes se revelara bom e, noutras vezes, era quieto. Quieto ao ponto de se tornar omisso. Um erro grave à ser cometido por uma pessoa é a omissão. Enxergar algo, e não exteriorizar, é como perder uma oportunidade. 

Ser omisso equivale ao homem que anda pelas ruas, quando uma senhora tropeça, derruba suas compras, e, então, ele não a ajuda a se levantar. Ser medíocre equivale ao homem que não a ajuda a se levantar, passa por ela de cabeça erguida e ainda pisa em suas compras. Acredite – há homens com tamanha crueldade. Acredite – Caterina ainda preferira caminhar sozinha do que estar ao lado de pessoas não-humanas ou medíocres. 

Mas, Inácio, como já dito, era um bom homem, embora não humano. Ele perseguira as injustiças em seus discursos e, por descuido, não percebera que era um homem injusto. Não notara a falta de consideração que ele praticara com Caterina. Talvez este seja outro erro: ser leviano, se descuidar, não se importar tanto assim...

Aos que não se importam, a vida passa depressa e sem flores durante o caminho. Aos que se descuidam, perdem oportunidades valiosas de fazer a vida ser bonita. Aos levianos, que tentam enganar a vida e a eles mesmos, é como um tormento – tudo lhes é fardo, é pesado, é injustiça – mas, em realidade, são eles mesmos que dramatizam a vida. 

Caterina soubera o caminho que Inácio tentara trilhar – o caminho tortuoso. Ao deitar, todas as noites, ela se desculpara com o seu deus por não conseguir fazer Inácio enxergar os encantos da vida. No entanto, acho que a própria Caterina não se desculpara. Inácio fora um desafio perdido, um homem que ela não conseguira encantar, alguém que não se jogou aos seus pés. Mas, porquanto, uma qualidade daquela mulher doida – ela soubera desistir. Fechou o livro e iniciou uma nova leitura.