Respeite o tempo. Possivelmente eu mudei de opinião.

quarta-feira, outubro 07, 2020

COM TODAS AS RAZÕES PARA SER



As pessoas são cruéis, eu sei. Seus pais cometeram inúmeros enganos e você sente que as pessoas ao seu redor estão quebradas. De certa forma, você se enxerga imerso em tudo isso, mas não profundo o bastante para estagnar o andamento das coisas. É que você não irá resolver todos os problemas do mundo, então desista. 

Eu gosto do jeito que você enxerga a vida. Parece que, aos seus olhos, tudo está flutuando. Na tua visão periférica, existe um encaixe natural de todas as coisas, mas nós bem sabemos que tudo foi se moldando com mais esforço do que com conexão. É que a vida é um emaranhado de movimentos constantes e é incrível como ela nunca termina. 

Você me questiona sobre a morte e eu acho que a morte é só uma vírgula. Morrer não significa parar esse movimento. Tenho total consciência de que o dia em que eu for embora, tudo irá continuar e – em questão de tempo – será como se eu nunca tivesse existido. Você nota? As pessoas ao meu redor, o lar que eu deixarei, a profissão que construí... tudo permanecerá se movendo. 

Então para que serve o medo de partir? Ah! É mais para aprisionar às pessoas do que para prepará-las para a partida... Sabe a história do “declare o seu afeto diariamente, pois tu não conheces a hora em que o outro partirá?”. Pois bem. Não acredito nessa história. 

É que eu não quero ser amada por medo. Quero que gostem de mim simplesmente por gostar. Por isso, não vou embora antes do horário e não vou delongar encontros, tampouco vou limitar o que tenho a expressar. – Serei eu, o tempo todo. – Porque essas jogatinas nunca serão maiores do que conexões mentais. 

Talvez eu tenha me conectado ao que presumi ser você. Porque acreditei que você era livre o suficiente para ser intenso, mas, o dia amanheceu e descobri que você é como todos os outros. E que a música que você toca é mais sobre parecer descolado do que sobre apreciar aquilo que você produz. 

É que para fazer arte é necessário contar uma história. Não tem a ver com lucro ou sucesso. É preciso expor tudo o que se sente, compartilhar toda a tristeza e encontrar algo pelo que se lutar. Você tem que colocar uma finalidade, tal qual fez Criolo quando deu voz às vozes esquecidas. 

Trata-se de uma contradição quando você detesta a pessoa que o seu pai é e, ao mesmo tempo, é como ele. Cometendo os mesmos erros... Eu gostaria de entender: com tantas razões para ser diferente, por quê a necessidade de se comportar da exata forma que você tanto despreza? 

Sei a resposta. Você responderá que não te conheço e tens razão. De você, conheço tanto quanto conheço fórmulas exatas. Às vezes acho que você é uma discografia inteira de uma banda de rock famosa e, outras vezes, você parece mais uma escolha ruim de música intervencionista. E foi eu quem colocou o disco para tocar. 

Mas você está aqui para agradar as outras pessoas, não é? Cumprindo todo o protocolo de ser alguém que você não é. Eu me pergunto: com tantas razões para ser você, em sua mais súbita normalidade de ser o que se é, por que ser alguém que você acha que as pessoas querem que você seja? 

Por que você deveria acumular coisas das quais você não precisa? Por que não demonstrar todas as intenções do seu coração? E por que você permanece em lugares que não escutam a sua voz? 

Ah! A necessidade de aprovação... 

A vida não exige média, rapaz. Quando você menos esperar, tudo aquilo que, agora você tenta impressionar, irá desaparecer e será como se nunca tivesse sido importante para você. Do mesmo jeito que foi com os seus antigos amores: eles eram muito para você até que se foram, como se nunca tivessem acontecido. 

Porque tudo está em constante movimento. Movimentando-se, tudo poderá sofrer alterações. Ao menos é assim que deito a cabeça no travesseiro todas as noites e acredito que vou te esquecer. Pois foi acreditando nas reviravoltas cotidianas que eu te deixei ir. E ironicamente é assim que, mesmo com todas as razões para esquecer, eu continuo te lembrando. 

E, de longe, vou apreciando os seus erros mais sutis. Torcendo para ser o que nunca seremos. 

sexta-feira, abril 24, 2020

DENTRO DE UM SILÊNCIO HÁ UM GRITO DE SOCORRO

Todos os dias suplicamos para que Deus nos livre de todo o mal. Eu diria que essa é uma via de mão dupla: Ele vem de lá, nós vamos de cá. – Já parou para pensar que, de algum modo, podemos estar semeando o mal dentro de nós? 

A limpeza deve ser feita de dentro para fora. Precisamos aprender a agradecer mais e a reclamar menos. Pois o poder de Deus não se revela em uma vida sem adversidades, mas se descobre em uma vida que as supera. 

Espero que nós possamos esquecer os defeitos das outras pessoas e possamos olhar com carinho uns para os outros. Porque, para que as nossas preces funcionem, e o males sejam evitados, é necessário semear o amor. Amar é sempre uma resposta.


Com o canto do olho, verifiquei o horário, e me questionei se era a hora de me retirar. Não contei quantas vezes o fiz, mas tenho certeza que, em muitas ocasiões da vida, tive que me perguntar se aquele era o momento de partir. – É que a grande questão é identificar quando devemos ir embora.

“Esse coraçãozinho está cansado”, disse a menina sentada ao meu lado. Sorri timidamente, porque bem ali, próxima a mim, estava uma criança tremendamente esperta. Ela sabia os limites do seu coração e eu, tantos anos mais madura, ainda não havia aprendido os meus.

No silêncio que seguiu pensei que aquele tivera sido o alerta que recebi. – O meu coração estava cansado. – Quis acreditar que o cansaço partia do fato de que eu me cobro exageradamente e que a minha rigidez comigo mesma me levaria a completa insanidade. Ah! Eu quis acreditar...

Fechei os olhos e apertei as pálpebras até expulsar todos aqueles sentimentos. “Não tem a ver com aprender os meus limites”, concluí. Acho que estava cansada dos limites de um modo em geral.

Trata-se de um padrão de comportamento. Uma forma correta de se expressar, o jeito ideal para arrumar o cabelo, a postura ereta, a adequada maneira de se aproximar de alguém, as fronteiras dos bons modos e, até mesmo, as regras a serem seguidas para conquistar um coração. – Ora! A única coisa que deveria importar é o que somos por dentro, não é?

Eu estava cansada de uma sociedade inteira e de todas as suas eloquentes normas. “É um mundo doente”, pensei. E quantas pessoas falharam quando, assim como eu, tentaram encontrar a cura para a maldade que o habita?

Não culparia Deus se Ele tivesse esquecido de nós. É que fomos agraciados com um extenso planeta abarrotado de lindas paisagens, bons alimentos e pequenos milagres, mas, os homens dotados de uma cruel soberba, ignoraram as coisas mais bonitas do mundo e engrandeceram a disputa pelo poder.

Levantei da cadeira, que não estava mais tão confortável como antes, e fui até o balcão buscar um café. “Preciso tomar menos café”, adverti a mim mesma e logo percebi que estava perdendo a lucidez. Porque, novamente, eu estava solitária em meus pensamentos enquanto, lá fora, um mundo inteiro acontecia.

Foi quando escutei um grito forte e pressionei os meus lábios para não gritar conjuntamente. Mas sorri quase que sarcasticamente. Porque não era necessário pressionar os lábios. Eu nunca gritaria... Passei uma vida inteira aprendendo a calar os meus gritos de socorro. E esse era mais um limite do qual eu estava cansada.

Não demorou muito para que a minha mãe se aproximasse, colocasse a mão em meu ombro e dissesse que achava que a hora tivesse chego. Eu concordei com a cabeça, mas confesso que não sabia ao certo com o quê estava concordando.

Então o choro de uma criança ecoou pelos corredores. Era como se um milagre tivesse calhado pelas paredes. De longe, escutei alguém afirmar baixinho: “acho que o Pedro chegou”. E o meu coração respirou aquecido.

Tive a impressão de que, os minutos mais demorados da minha vida, se sucederam no período entre escutar a sua chegada e sermos chamados ao berçário. Fui contando cada passo que dei até olhar pela janela e ver a face do maior, e mais bonito, momento de uma pessoa: – o encontro com um anjo.

Eu acredito em anjos. Crianças são anjos! Pessoas são anjos! Eu acredito que, como Deus não está no mesmo plano que nós e, portanto, Ele não pode comunicar-se diretamente, Ele conversa conosco através das pessoas ao nosso redor. É por isso que devemos aprender a escutar...

Continuei em silêncio contemplando a criança no berçário. “Não sei como segurá-lo em meu colo”, pensei. E sorri, mas agora não era mais um sorriso tímido. Era uma gargalhada silenciosa de quem sorrira com os olhos, de quem estava lindamente emocionada.

Receio que pareça insensatez, no entanto, naquela noite eu mudei de mundo. Acho que estava presa em um mundo onde eu era obrigada a construir muros e, a chegada do Pedro, me levou até um mundo onde aprendi a construir pontes. (Aqui, me desculpe se fui repetitiva).

Vocês perceberam? Permaneci sentada durante horas, na sala de espera, desgostosa com a vida. E foi só olhá-lo por alguns segundos que todos os meus medos sumiram... É incrível como amar alguém nos desperta coragem!

Alguns segundos foram o suficiente para que eu me sentisse capaz de ultrapassar todos os limites. Porque, naquele momento, prometi uma trajetória diferente para nós.

"A vida que eu desejo para aquele menininho é especial", pensei. "Quero que ele conheça todas as coisas bonitas que são ignoradas pelas pessoas, em sua maioria. E quero que ele seja forte o suficiente para gritar todos os seus medos", finalizei.

Porque estarei ao lado dele para escutá-lo. É que nitidamente aquele pequenininho ser, que media poucos centímetros, transformou tudo aquilo o que eu sentia. E eu o amei instantaneamente.

Após respirar fundo, como quem estava finalmente pronta para viver, eu quebrei o silêncio e disse: "Bem-vindo ao mundo que eu farei para você, meu sobrinho. A titia estará sempre em Deus por você".

Olhei para os lados e notei uma família feliz, uma família que era minha. Soube naquele instante qual era o momento de ir embora: – quando todos estivessem bem. E eles finalmente estavam.

terça-feira, abril 21, 2020

A TRISTEZA É UM INTERVALO

Tudo o que acontece em nossas vidas tem a intensidade, e a importância, que nós concedemos. Não estamos no controle dos acontecimentos, mas estamos no controle das nossas emoções. – Se você não pode mudar o que aconteceu, tente mudar a forma com que você se sente sobre isso.



É que sou profunda, entende? Eu escuto Caetano, me apego a literatura, vou ao cinema e me conecto a sensibilidade de cada pedaço da arte que contemplei. Faço reflexões sobre a vida e o significado da existência. Estou nesse lugar para sentir e sinto muito. Sinto um bocado!

Respeito a escolha de quem não pretende mergulhar, de quem ignora a imensidão das coisas, de quem é raso. Mas eu estou nesse mundo para ir a fundo. Na mais pura e, ao mesmo tempo, perigosa submersão de descobrir aquilo que está nas entrelinhas e aquilo que não é visível a olho-nu.

Nós precisamos limpar o campo de visão para perceber o que não se enxerga facilmente. Se entregar aos devaneios e pensar sobre isso até esgotar as hipóteses. Pois a vida é um caleidoscópio que nos fornece os mais recreativos efeitos visuais (muitas vezes, não simétricos).

Ah! Trata-se de um emaranhado de oportunidades... Nós temos tanto a experimentar! Do simples ao extravagante, deve-se viver cada um com intensidade. E, em todos os aspectos possíveis, sentir os prazeres da alegria e os dissabores da tristeza.

Ora! Sei que Chico clamou que, quem inventou a tristeza, deve ter a fineza de desinventar. – Mas, sabendo que a tristeza é um intervalo entre duas felicidades, como não conhecer por inteiro a melancolia? – Tem que sentir...

Sentir mesmo, sabe? Chorar um dramalhão no tapete da sala e depois recuar sabendo que foi exagero. É mais sobre expulsar os demônios com brevidade do que sobre vivê-los para sempre.

Porque, se você não se permitir a tristeza, guardará consigo o sentimento que a despertou. E vai viver e reviver por tempos... Então, entregue-se.

Não precisa sentir de uma única forma. Há a possibilidade de se trancar no quarto e contemplar o silêncio, mas também podemos sair e escutar música. Você escolhe a melhor maneira de fazer isso doer dentro de você.

Você escolhe se é por uma hora, por um dia ou por uma semana. Se dê ao privilégio de consumir isso pelo tempo que for necessário. Encare como uma limpeza. E, por favor, não feche o coração.

O coração tem que estar aberto para perceber que, apesar dos acontecimentos inexplicáveis da vida, ainda há flores na borda da estrada, ainda há cheiro de chuva e café quente esperando por nós. Você nota o funcionamento disso tudo? São as pequenas coisas, rapaz. Sempre foram as pequenas coisas que importaram.

São os pequenos gestos que demonstram amor e, num amontoado de pequenas coisas, temos a imensidão de um sentimento transformador. – Afinal, estamos aqui para isso, não é? Por amor. Para amar.

É... É que sou profunda. Não vim ao mundo para fechar a conta daquilo que está pré-estabelecido. Estou aqui para trocar os fatores, experimentar o barulho e absorver o que for bonito. Tenho a sensação de que vou tocar a alma, esquecendo a matéria e mergulhando nas possibilidades de sentir. Sentindo.

Repito: Estou nesse lugar para sentir e sinto muito por quem não sente. Me desculpo com a vida por quem é raso. Pois viver demanda da mais intrínseca profundidade. E, até que se prove o contrário, se vive uma única vez.

terça-feira, abril 14, 2020

DECLARO A [MINHA] CULPA


É errado crer que mereço o seu amor? Mais que isso, estou errando ao acreditar que você merece o meu? Eu gostaria de me sentar confortavelmente em uma cadeira, fechar os olhos e me deixar sonhar... Me apetece deixar esse sentimento em liberdade, soltá-lo na frequência em que o meu coração se permitir e respirar profunda e lindamente a oportunidade de amar.

Eu não estou confortável, porque eu despertei esse sentimento sem a sua permissão. Fui eu que abri as portas do meu coração para que você pudesse entrar. Você entrou, coube – em estado perfeito – no espaço que lhe destinei e permaneceu acolhido durante meses. Mas você nunca perguntou, nunca quis estar ali e nunca pretendeu ficar.

Em completa solidão eu cultivei o que inventei. De longe, observei cada detalhe do seu corpo, respeitei a sua pele e respirei o cheiro de cada um dos seus passos. Eu admirei o que você era e a sua trajetória. Carinhosamente aceitei que a sua família recebesse o meu afeto. E, em estado de urgência, acreditei que conhecia cada pedaço do seu coração.

Preciso confessar que a responsabilidade é minha. Eu quis te amar. Eu cuidei para que isso acontecesse, mesmo sabendo que você nunca combinaria com as minhas crenças ou com aquilo que pretendo preservar. Vagarosamente eu supliquei para que esse amor se concretizasse dentro de mim, porque eu estava em completo desespero.

Não me julgue equivocadamente. Eu não esperava a companhia de alguém. Eu esperava sentir... Há tantos anos que esses sentimentos estavam adormecidos que, por algum tempo, acreditei que eu não fosse mais capaz. – Por isso, sou grata pela sua chegada.

Você chegou repentinamente e me encantou sem aparentes esforços. Então, mesmo que por um breve momento, eu libertei o meu coração para sentir tudo o que ele pudesse. E me surpreendi com a capacidade dos meus sentimentos. Ah! Se você soubesse o que lhe desejo...

Às vezes sinto que deveria gritar para que você me escute. E para que escute o mundo ao seu redor. – Entretanto, isso não seria trapacear? – Racionalmente sei que não posso intervir em seu caminho, porque você não emite nenhum sinal de que espera que eu lhe peça para parar. E não posso ser egoísta, pois sinto que não consigo ser.

Necessito deixar que você seja incrivelmente feliz e que essa felicidade seja devotada a quem você desejar por perto. É que eu estarei longe... Tão distante que talvez você se esqueça do meu perfume, se esqueça do batom que eu escolhi e se esqueça que me conheceu. Provavelmente você nunca mais se lembrará – e eu aceito essa condição.

Aceito te amar sozinha, aceito te amar em afastamento e aceito te amar pelo tempo em que o meu corpo impor que devo. Pois não lhe falta razão ao delegar a responsabilidade sobre mim. É assertivo ao declarar que a culpa desse amor é inteiramente minha.

E como a culpa poderia ser sua? Você perambulou por tantos lugares e por tanto tempo, mas nunca se dignou a conhecer o amor. – És espiritualmente imaturo. – Assim como uma criança que, fora da escola, desconhece a necessidade de ser alfabetizada, você permanece em completa ignorância do que é o amor e de tudo o que o amor poderia transformar em sua vida.

Lamento não permanecer para lhe explicar as voltas que o coração pode percorrer. É que, tudo o que experimentei, me fez acreditar que o amor não nos concede tempo. Ninguém possui tempo para viver o que não é recíproco. E, se não há reciprocidade, o ideal é não insistir e se afastar.

Então, em tom de confissão, eu declaro o meu amor e a culpa pela criação desse sentimento. Mas não posso me desculpar por acreditar que você é capaz de amar, mesmo que não o faça nesse momento. Pois não. Não é errado ter fé em alguém. E tenho tanta fé em você que acredito, fielmente, que – ainda nessa vida – você será a vida de alguém. Que sorte a dela!

domingo, junho 09, 2019

E SE VOCÊ PRECISAR VOLTAR?

A memória é lindamente perigosa. Por um lado, temos convicção das lembranças e, por outro, não sabemos o que ocorreu de fato. Parece que o corpo humano não é tão brilhante como nós imaginávamos. Na verdade, vivemos a mercê de uma incógnita: – O que é real? Ou: – Até que ponto isso é real?




Às vezes me deparo tentando recordar como você era. A sua voz, o seu perfume, as nossas conversas, a forma como nos amávamos... Eu estranhamente não me lembro desses detalhes. Na realidade, a memória que me restou é falha em quase tudo quando se trata de você. E, ainda assim, você é você para mim.

É que, embora a memória não retrate com fidelidade todos os nossos momentos, eu não posso te retirar da minha história. Você existiu por um período. E me assombrou por vários períodos. A história de uma década de vida está conectada ao que você foi para mim: – amor: Do mais sutil ao mais agressivo. Mas, mesmo com os pesares, foi amor.

E, desse amor, encontrei as coisas que mais me encantam e as que mais me assustam. Do amor encontrei música, dança, leituras doces, fé e criação. Mas também encontrei o sofrimento, a traição, o medo, o ciúme e o pesar. Foram tantos encontros! E desencontros... Tão diferente do amor que nós almejávamos, não é mesmo?

Nós esperávamos uma história de amor extraordinária. E o que encontramos? Apenas uma história sobre duas pessoas que se amaram. Mas essa é a vida, não é? Um emaranhado de histórias em ordem desajeitada e não linear. São as linhas tortas que tanto falam por aí... 

É que fizeram com que acreditássemos que tudo está ao nosso alcance e que podemos controlar todas as coisas ao nosso redor. Mas, aos poucos, nós descobrimos que a vida é uma eterna tentativa de se equilibrar em uma corda bamba. Com seus fatores externos que estão longe do nosso controle...

[Se concentrar na corda] e [aceitar que não podemos controlar os fatores externos] seriam os segredos do equilibrista? 

Ora, não sei!

De fato, nem todas as coisas estão em nossas mãos, ao passo que devemos nos concentrar em resolver o que está dentro da nossa capacidade de modificação. E, partindo do princípio de que a corda é o caminho que nós trilhamos durante a vida, prestar atenção nela, visando manter o equilíbrio, é primordial.

Mas...

Nós passamos a vida escrevendo sobre os segredos da vivência. E com que propriedade o fazemos? Nós não vivemos a vida, por inteiro, para saber se estamos fazendo o correto. Tenha certeza: – até mesmo os mais bem-aventurados, deitam a cabeça no travesseiro, durante a noite, e possuem as suas dúvidas. Como eu poderia desvendar esse mistério e saciar a sua curiosidade sobre o certo e o errado?

As palavras que escrevo não trazem nenhuma sabedoria, meu amigo. São devaneios de quem anda por essas ruas sem qualquer intenção de continuar nesse caminho. Talvez tenha sido isso o que o seu amor me trouxe de mais bonito: a despretensiosa caminhada, de quem deixou tantas coisas para trás, e que – mesmo tendo perdido tanto – continua caminhando, sabendo que, a qualquer momento, é possível mudar a direção.

É... 

Parece que a memória é lindamente perigosa. Não me recordo de cada passo que dei para chegar até aqui, no entanto, caso precise voltar, saberei qual é o caminho.

Norte...
Sul...
Leste...
Oeste..

Eu perdi o medo.

quarta-feira, maio 22, 2019

TODAS AS COISAS BONITAS DESSA VIDA



Eu tentei escrever sobre todas as coisas bonitas dessa vida, mas concluí que talvez eu não tenha presenciado tantas belezas assim. Ou talvez eu só não tenha tido a oportunidade de enxergar as doçuras que eu gostaria de ter visto. O problema é justamente este, meu velho amigo. Sou eu. Eu que quis demais... Eu que esperei demais... Eu que limitei as belezas dessa vida.

Então eu voltei a escrever sobre as tristezas que nós enfrentamos ao longo das nossas jornadas. E, incrivelmente, eu passei a defendê-las. Eu, que nunca acreditei em destinos, me vi presa a ideia de que a vida é como ela é. Que as situações se ordenam quando elas devem se ordenar. E, que pequenos fragmentos de história, se tornam a história da humanidade, como se essa fosse a única verdade a ser encarada.

Mas o que sei sobre encarar as realidades que estão a nossa frente? Pois talvez eu saiba bem pouco sobre isso. Afinal, cá estou presa numa inquietação silenciosa. Transpassando cômodos como um fantasma. Numa total paralisia cotidiana onde tudo o que restou foi calmaria. Eu desejei desaparecer e eu desapareci. Mas, quando tudo aconteceu, desaparecer não soou tão bem quanto eu imaginei que soaria.

A arte que me restou foram as palavras e, elas me deixaram, depois que eu as traí. Eu deveria usá-las para escrever aquilo que sei ou aquilo que eu gostaria de saber, mas passei a usá-las para a defesa daquilo que não acredito, ensejando que as palavras fugissem de mim. Eu defendi o indefensível, e o preço foi perder a sensibilidade.

Ora, meu amigo. Eu estou cansada de morar nesse lar de fantasmas. Como retornar a inquietação não silenciosa, barulhenta, gritante? Gostaria de voltar a ser aquela menininha chata, mas genuinamente corajosa, e que tinha sonhos. No entanto, perder-se é, muitas vezes, irreversível. E eu já me perdi tantas vezes...

Naqueles braços... Naqueles lugares.... Naquilo que experimentei.... Naquilo que deixei para trás... Eu me perdi em cada esquina estranha que cruzei. E, às vezes, sinto que cruzarei mais esquinas apenas para me perder ainda mais. Talvez o meu destino seja este: Não me encontrar.

E desaparecer é o caminho.

domingo, outubro 15, 2017

15 dias de 10 meses



"(...)
Eu quero ver um dia
Nascer sorrindo 
E toda a gente 
Sorrir com o dia 
Com alegria 
Do sol do mar 
Criança brincando 
Mulher a cantar 

Eu quero ver um dia 
Todos trabalhar 
E ao fim do dia 
Ter onde voltar 
E ter amor.
Eu quero ver a paz 
Tristeza nunca mais 
Eu quero tanto um dia 
O pobre ver sem frio 
E o rico com coração.

Eu quero ver um dia 
Numa só canção 
O pobre e rico 
Andando mão e mão 
Que nada falte 
Que nada sobre 
O pão do rico 
E o pão do pobre."

MARCHA PARA UM DIA DE SOL
Chico Buarque

OS DIAS QUENTES CHEGARAM

A caminhada solitária dos destinos parece-me tão desigual. Enquanto uns nascem em berços de ouro, outros sequer berços têm. Os pequenos homens não têm consciência da imensidão que é a sua morada. “Um mundo inteiro”, pensei. Um mundo extraordinário!




Mais um verão chegara com o nascer do sol. Há alguns dias já era possível notar os sinais de sua chegada e a sensação ainda era a mesma: grandioso! O verão é um período grandioso!

Sensação de coração quentinho e abraço apertado. Parece que a nova estação devolve todas as cores que foram levadas pelo inverno e torna os sorrisos mais fáceis, como um passe de mágica. Respirei fundo. O ar que imergia em meus pulmões era leve outra vez e tive certeza: é verão.

Peguei o elevador e lembrei que ninguém deve entrar em elevadores no primeiro dia de verão: - as pessoas reclamam. Cada andar ultrapassado é uma nova reclamação até que finalmente elas reclamam dos dias quentes, como se elas esperassem temperaturas negativas no início da estação. Por sorte, era verão e eu estava de bom humor.

Eu havia acordado mais cedo e por isso resolvi ir para o trabalho caminhando, o que fez com que eu olhasse repetitivamente para os meus pés e sorrisse: eu estava usando sandálias de cores alegres. Fui despertando sorrisos, daqueles sorrisos de fechar os olhinhos, até que meus olhos fitaram um senhor deitado perto do coletor de lixos. Os sorrisos terminaram e eu entendi que o que era verão para mim, continuara a ser inverno para ele.

Enquanto eu vestira roupas divertidas, aquele senhor vestira um moletom velho e sujo de cores frígidas. O seu olhar era triste e, de longe, era possível notar que o seu coração estava gélido, como se os dias quentes não tivessem o aquecido. Eram mundos tão distintos e que ocupavam uma mesma rua. Me aproximei e perguntei se ele precisara de algo, pergunta a qual não obtive respostas.

Continuei andando até o trabalho e, naquele dia, nenhuma história pareceu interessante o bastante para escrevê-la, porque eu estava ocupada com a história daquele senhor. No final do dia, voltei pelo mesmo caminho, mas não o encontrei. Eu nunca o encontrei novamente. Estação após estação, o senhor nunca mais cruzara o meu caminho.

Os encontros e desencontros da vida são bonitos e causam espanto. Mesmo num curto espaço de tempo, aquele senhor me confrontou e eu compreendi que uma das sensações mais desafiadoras que a vida nos impõe, é se sentir merecedor.

Você pode se sentir merecedor de toda a sua trajetória? Então, por que eu carrego a sensação de que algumas pessoas merecem mais do que nós?

Uma criança não pode ser menos merecedora de um prato de comida do que um governante que ocupa um cargo poderoso. Não é merecimento quando o tema é fome ou miséria. Nem sempre a vida se trata de mérito.

Os pequenos homens que ocupam este mundo imenso resolveram desenhar linhas invisíveis dividindo-o em pedaços, os quais eles nomearam de “países”. Guerras foram traçadas, culturas foram exterminadas, almas que mereciam destinos lindos terminaram sua vivência sem nem ao menos a terem vivido, sem nem ao menos conhecerem o verão.

Todas as coisas boas que não mereço e, mesmo assim, as recebo, devem ser compartilhadas. Resta-me a gratidão por mais uma estação e o desejo de compartilhar os meus verões com as pessoas ao meu redor. Por isso, meu doce amigo, eu gostaria de lhe questionar: O que você tem feito com os presentes que o destino lhe concedeu?

Não seja o destinatário final do seu presente.

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terça-feira, julho 25, 2017

25 dias de 07 meses


"(...)
Are you ready for this action 
Does it give you satisfaction 
Are you hip to what I'm sayin' 
If you are then let's start swayin' 
The answer better be yes, yes
That pleases me."

DO I MOVE YOU
Nina Simone

TROUXE A ALIANÇA?

O amor cativou as nossas vidas durante anos. Vivenciamos experiências de ingênua doçura e enfrentamos o ardor do cotidiano. Nós construímos uma relação forte o bastante para derrubar todas as barreiras que as tempestades do dia-a-dia trouxeram. Enamorados, amados. Nós fizemos bonito o nosso amor.



Quantas pessoas podem encher a boca e dizer que viveram um amor extraordinário? Um amor daqueles amores que têm trilha sonora, filme favorito e troca de segredos. Casais que enchem taças de vinho, colocam uma boa música para tocar e dançam enquanto aguardam a comida que eles cozinharam. Namorados que dividem boas gargalhadas e companheiros que compartilham as tristezas diárias dessa vida tão urgente. Quantas? Quantas pessoas podem encher as suas bocas e garantir uma relação assim?

Companheiros que compreendem as fraquezas do outro e tentam encorajá-lo sem, contudo, passar-lhe a mão sobre a cabeça. Ah! A doce e fria arte de contar a verdade! Eis aqui um desafio aos enamorados: sentar e confidenciar tudo o que se passa dentro de nós. Apontar que o outro está errando sobre o seu projeto profissional, desabafar que se chateou quando o outro esqueceu de telefonar, suportar a raiva do outro e contar aquilo que você sabe que ele não gostará de escutar. Relacionamentos maduros exigem o derradeiro diálogo da franqueza.

Diálogos, aliás, eu tenho insistido que é uma das formas mais consistentes de se manter um relacionamento saudável. Conversar, conversar e conversar. Os casais precisam trocar informações sobre o dia que passaram, os acontecimentos no trabalho e os seus planos para o futuro. Querido leitor, anote: se você quer manter um relacionamento harmonioso com o seu bem-amado, vocês precisarão conversar.

E não só conversar, é necessário declarar-se! Declarem-se! Recitem poemas, mandem flores, ofereçam músicas, façam surpresas, dediquem-se a alegrar a vida de seus companheiros. Exteriorizar o que sentimos é fundamental para que o outro se sinta amado. Nesse ponto, gostaria de lembrar algo: existem muitos relacionamentos por aí que não são bonitos. Mornos e sem afeto tornaram-se vítimas do comodismo. Por isso, faça bonito o seu amor. Faça bonito!

Lute por aquele amor que ainda lhe arranca suspiros. Mereça-o como nenhum outro mereceu. E o cultive.

Falo isso porque as pessoas, muitas delas, após conquistarem o que tanto almejaram, param por ali. O amor vai se esvairando... perde-se no cotidiano... aconchega-se na rotina... e todo o romantismo torna-se história para contar aos netos.

Por falar em netos, aproximando-se do assunto que tanto atormenta os jovens, gostaria de lhe perguntar sobre o futuro. Há um momento, um desses momentos em que nós passamos dias a refletir, em que os enamorados se questionam. Tem uma fase da relação que nós já atravessamos o namoro e nos conhecemos infinitamente bem, faltando apenas o próximo passo.

"Não podemos voltar atrás e não podemos continuar como estamos. Nós não nos apresentaremos como namorados para sempre". Eles começam a pensar em filhos, adotam um animal de estimação, planejam comprar um terreno e construir uma casinha... A hora de escolher viver o resto da vida com o seu bem-amado ou respirar fundo e seguir sem ele.

Porque, depois de um tempo, a maturidade faz com que as pessoas necessitem de mais do que apenas uma relação. Nós almejamos dividir cada espacinho de nossas vidas com o outro, agora e para sempre, e queremos a promessa do outro de que isso irá acontecer. Mais que isso, nós queremos as alianças.

Casamento, seja ele assinado em cartório ou não, é um ato de extrema seriedade. Conta bancária conjunta, construir família, andar de mãos dadas e ir ao supermercado juntos... Por toda a nossa vida. – Por isso, meu amor, espero que você deite a sua cabeça sobre o seu travesseiro que ainda tem o meu perfume e respire. Você tem certeza que eu sou a mulher que você escolheu para passar o resto dos seus dias?

O amor, meu rapaz, nem sempre é o suficiente.

Pois já fazem tantos anos...
Tantas primaveras...
Tantos sabores e dissabores...

Chegou a hora de perguntar: Você aceita se casar comigo?