Respeite o tempo. Possivelmente eu mudei de opinião.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

A.


❝Matutei durante muito tempo, tentando descobrir alguma forma de enxergar a alma das pessoas. Foi então, que resolvi pedir a ajuda de um velho amigo, que com anos de experiência e muita sabedoria soube responder-me de forma grandiosa: “Para que tanto pensar? A beleza da alma das pessoas, reflete o brilho dos olhos de cada uma delas.” Bingo. Andava pela rua, olhava nos olhos de cada um, imaginando que, cada um possui uma história diferente. Cada pessoa é única. Que não existe ninguém no mundo igual a ela. Nem com o mesmo nariz. Nem com o mesmo número de marquinhas pelo corpo. Nem sequer, com a alma parecida. Descobri que é pecado dizer que alguém é especial quando pode ser chamado de único. Sem igual. Singular.❞

— R. Vicente

quarta-feira, dezembro 21, 2011

AS PEDRAS E OS MUROS

Concordei. E o que mais eu poderia fazer? Levantei a mão e apontei àquela que estava exposta no meio da praça. “Apedrejem-na! Apedrejem-na!”. Aos poucos, quase sem voz, eu arriscava repeti-los. Mas a minha única vontade era pedir: “Parem! Parem! Do crime que ela cometeu, eu peco todos os dias.”


E agora? O que fazer de minha vida? Eu pequei. Fiz tudo errado. Eu merecera estar ao lado daquela moça e ser apedrejada por meus erros. O perdão parece-me apenas uma palavra sem significado, as pessoas não têm obrigação de dá-lo à mim. Embora, no momento, ninguém enxergue meus vendavais.
Onde irão parar as pegadas dos passos falsos que estamos dando? Olho para trás e não vejo nada... Mas em algum momento alguém perceberá a falta de rastro e irão me perseguir. Paranóia. Paranóia. Eu sei. Ninguém saberá o que matei e o que feri. É só a minha consciência... E terá pagamento maior do que viver com a cobrança de corrigir? Terá julgamento maior do que o da minha própria consciência? Não. Não há. Estou presa no remorso de mim mesma, e o que fazer?, não sei.
Quando o caos chegou, ninguém pôde me salvar de mim. Os muros que criei para esconder os meus pecados não podem segurar o que sou e o que me tornei. E o que me tornei? Estou presa dentro das paredes que construí. Não haverá algum livro que diz sobre as pontes que não fiz? Sim. Há. Sou sozinha. Somos apenas eu e a solidão.
A roupa suja, o café frio, o vaso quebrado e a casa vazia, são chamativos para andar pela cidade. Andar pela cidade faz-me encontrar as pessoas que julgariam minhas colunas eretas. “Sou cabisbaixa”, penso — “não precisam erguer os ombros para mim”. Sinto-me só no meio dessas pessoas e sufocada em minha solidão. Por onde ando? O que perdi? Onde está a minha alma? Eu já não me lembro se tive alguma...
De repente, a multidão. E lá está a mesma pecadora que eu. Os pecados diferentes, sim. Mas o mesmo destino. Os dedos mirando, as pedras, a fogueira, o fim... As correntes em seus braços davam-lhe a certeza de quem não escaparia. E os olhos aflitos pareciam pedir que alguém intercedesse por ela. Eu saberia sentir o que ela estava pensando: “ — Vocês também erram, por favor, dêem-me uma chance.”. Mas eles não dariam.
Apenas se, e só se, alguém atrevesse a intervir por ela. Era uma chance. Porém quem faria? Eu. Eu deveria. Eu gritaria não porque ela gritaria por mim em papéis invertidos, mas porque eu gritaria pelos meus pecados. Os muros que construi para me livrar das pedras não salvariam o meu teto de vidro. Eu teria de mudar aquela história.
Somente eu poderia me salvar. E ela era eu. Era eu, eu futuro. Eu quando minha boca perdesse a costura que fiz e os lábios gritassem que sou pecadora. Na história, foi Jesus, mas Cristo eles escutariam... Eu não. Não sou Ele, não sou Filha D’Ele. Pois quem sou eu para achar que a multidão não deveria julgá-la? Eu era o futuro.
E quem poderia deixar o futuro morrer? As mãos eram minhas e nelas estavam o que estava por vir. Precisara arregaçar as mangas e fazer algo por aquela errante e pela minha consciência. Mas o que fazer? Eles não irão me escutar... Os gritos deixam ensurdecidos os ouvidos dessas pessoas que a julgam. Preciso de algo que possam ver. — O que veriam?

Palavras, que calem os surdos e escutem os cegos. Eu escreveria palavras.

Voltei correndo sem me preocupar se os passos poderiam me trair. Quem sabe cair, quem sabe pular, quem sabe perder um olho. Dane-se. Eu coloquei toda a velocidade de minhas pernas em prática e atravessei meu muro, minha proteção, quebrei meus cadeados e lá estava o que eu queria: Um espelho e um batom vermelho.
Escrevi sobre o espelho. O batom lembrava-me sangue. E, assim, vermelho era minha cor preferida. Voltei a correr, agora, com rumo à grande praça. Os passos pareciam mais confiantes, poderia agora enxergar o menino brincando com carrinho de maneira na esquina e o velho com sua barraquinha de refrescos...
Cheguei. Passei pela multidão. Esbarra n’um, desculpa aqui, esbarra n’outro, desculpa lá. Parei frente a moça, sorri, virei as costas e avistei os que a julgavam. Alguns me analisavam curiosos, outros não se importavam comigo. Olhei todos, um a um, e subi sobre o banco onde sentavam os casais de namorados todas as quartas-feiras. Refleti o espelho sobre a multidão, que se enxergou num espelho onde estava escrito: “eu também errei”.
Vermelho de sangue, “eu também errei” e a face de cada um lá refletido. Vermelho de sangue, a mensagem perfeita, “eu também errei”. E a multidão se via presa, presa em seu próprio caos, em seus próprios murros. Alguns paravam e refletiam, outros só queriam continuar. Porque esse é o nosso mundo: já não importa o certo e errado, importa o que as pessoas querem. O que [algumas] pessoas desejam. E elas queriam morte. Queriam a moça apedrejada e queimada, e, agora, eu no mesmo fim. E assim se fez.
O mundo apedrejou meus erros, queimou meu corpo, e não libertou minha alma. Não há preço que se pague pelo que se faz. Queimaram os pecados e serão queimados por eles. Porque as almas que não querem paz, vão ao inferno com suas guerras. Então, não há muros ou proteção que guarde o mal da sua própria solidão. Ninguém poderá lhe salvar de si mesmo. Não há como fugir, como parar, nem como deixar. Depois daqui, a alma, existirá.


Dica de música: De Você - Pitty (Anacrônico)

terça-feira, dezembro 20, 2011

U.

SUA MENINA
Arnaldo Antunes



❝Você trata muito mal sua menina.
Um dia ela vai puxar o carro,
De sua barba mal feita, seu catarro.
Um dia ela vai encher o saco.

Você trata muito mal sua princesa,
Um dia ela vai virar a mesa.
Seu olhar só vê o seu umbigo,
Um dia ela vai ficar comigo.

Você olha para ela com desprezo,
Como um déspota destrata uma empregada.
Das grades do orgulho onde está preso,
Você maltrata a sua namorada.

Seu terno engomado, seu perfume,
Seu tédio, seu remédio digestivo.
Seu eterno pesadelo de ciúme,
Um dia desses ela vai te dar motivo.

E ficar comigo,
E ficar comigo.
E ficar comigo sim.

Vai ficar comigo,
Vai ficar comigo.
Vai ficar comigo só.

Você trata muito mal sua pequena,
Um dia ela vai sair de cena.
E o remorso vai te torturar sem pena,
Quando a vir ao meu lado no cinema.

Você trata muito mal o seu amor,
Não rega com carinho a sua flor.
Depois de ver o que você já fez,
Com certeza ela vai sumir de vez.

Vai sumir comigo,
Vai fugir comigo,
Vai sumir comigo sim.

E ficar comigo,
E ficar comigo,
E ficar comigo só.

Só ficar comigo,
Vai ficar comigo,
Vai ficar comigo sim.

Vai ficar comigo,
Ficar só comigo,
E você vai ficar só.❞

PERSEVERANÇA


Não se pode crer num destino certo quando a vida é cheia de voltas e pequenos detalhes. "Vim à essa vida para chorar" e mesmo assim sorriu? – Como é que é essa história? – Você chora agora, sorri depois, chora de novo, sorri outra vez. E não há nada escrito em linhas certas, tortas ou que alguma cartomante vá prever. Horóscopo, numerologia e espelhos falantes não irão contar o que acontecerá daqui pra frente. Cai na real! Acorda pra vida! Essa coisa do "seja o que for" é para quem tem medo de viver. A vida é determinada de acordo com as suas escolhas. Se você disser "sim, eu vou" você tem que se dar pra isso. Se você disser "não, não posso" você tem que estar ciente do que está perdendo.
Cuidado com as palavras, rapaz. Outrora elas te traem e você ficará numa encruzilhada. Cuidado também com as mentiras. Não só as mentiras que tu contas ou que te contam. Cuida as mentiras que tu faz à si mesmo. Não fique se enganando, tentando ser e sentir outra coisa, fazendo de conta que está bem. Isso causa dor.
Porque se as oportunidades de ontem tivessem sido me dadas hoje, eu as tinha agarrado com braços firmes. Mas foram dadas ontem e ontem não volta. Por isso, e por muito mais – acredite – por muito mais, tens que pensar em tudo que deixas pra lá. Porque as mesmas oportunidades raramente acontecem outra vez. E o mundo é daqueles que se entregam com coragem, que estão fortes na esperança de que irá dar certo, que conservam alegria dentro do coração e fortificam a boa vontade na vida dos seus próximos.
Felicidade completa existe. Mas para isso é preciso estar preparado pros momentos ruins, por isso, coração limpo e fé em Deus. Não adianta procurar ajuda com Deus ou com o melhor amigo quando tudo explode e fica mal. Não. Tens que ir atrás do amor e da confiança nos momentos bons. Porque quando as tempestades chegarem tu estará preparado – e não digo que, preparado sabendo o que irá ser – mas, preparado com esperança e conforto, que são as mãos amigas durante os importunos.
Não venha com esses lamentos porque desconfiam das tuas mudanças e tentativas, foi tu mesmo que destes os motivos para que te reprimam. Pare de se fazer de vítima dos teus próprios erros. A vida tomou o caminho que você escolheu. Ninguém é responsável por isso. Ninguém, além de você.
Pára. Tira uns dias. Tu estás fazendo tudo errado. E não irás precisar de sorte para consertar os erros... Não. A vida não é feita de sorte. Tu irás precisar de perseverança. Nada de desistir no primeiro “não”, nem no segundo, nem no terceiro. Pois, lembre-se, quem fechou as portas foi você.
Conquistar a confiança de alguém com quem se errou muito é o mesmo que tentar colar os pedaços de um espelho quebrado. Podemos nos machucar com os pedaços pontudos, mas não poderemos desistir. Quando todos os pedaços estiverem colados, haverá rachaduras, e, estas poderão se partir com qualquer chacoalhada. Então, se você não for, novamente, um homem que desejou os sete anos de azar... Quem sabe, depois de um tempo, se pode comprar um espelho novo que toma o lugar do que está em pedaços. Pois assim é a vida, rapaz: efêmera e rápida para que aconteçam os desastres, mas demorada e sofrida para que se arrume a bagunça.

Entenda: A vida é só um teste. 
Aprende a andar atento.


— Novembro de 2009

F.


❝Sinto necessidade de escrever, o quê, não saberia dizer.❞

— Mistério a Bordo, Para Viver um Grande Amor, Vinicius de Moraes

LAST NIGHT


Acordei. O verbo “acordar” possui alguma relação com “mudar de vida”? Deve haver algo, porque vejo pessoas que, um belo dia percebem que está tudo errado e resolvem mudar tudo, depois indagam: “Acordei.”. Mas... não. Eu escutei o barulho do despertador, abri os olhos e levantei da cama. A noite passada pudera ser a melhor noite de minha vida e eu ainda não escutara pássaros durante o caminho que percorro até o trabalho. É que não importa quanto seja bom, aquilo passa e a vida continua. – E, eu, eu não sou como aquelas pessoas que ficam prolongando felicidade e tristeza. Eu pulo alto ou choro muito, mas somente no momento. Não sei ficar revivendo os fatos.
Eu sei apenas criar esperanças. Criar esperança é involuntário. Quando queremos algo é da natureza do ser humano sonhar que vai terminar tudo do jeitinho que nos fará feliz. Então, a gente planeja tudo. Faz barba, cabelo, compra roupa nova, corta relações, troca de carro, arruma a casa, e, no fim, parece que não valeu à pena fazer o que se fez. Embora muitas vezes, saia de um jeito totalmente diferente do esperado e, alegre-se, não poderia ter sido melhor.
Porque a vida não é para ser da maneira que nós queremos que ela seja. Principalmente quando nós estamos falando de duas vidas. Quando duas pessoas se encontram e se apaixonam uma pela outra. Céus! Como à partir daí tudo dá errado! (...)
É impossível saber as reações de outra pessoa. Saber o que ela sente? Não, esquece, você nunca saberá. Também não saberá quando ela mente, o que ela pensa, nem o motivo certo das lágrimas. Só sabe quem sente, quem faz, quem age. Nós só sabemos aquilo que corre por nossas veias e, mesmo assim, ainda nos perdemos no que sentimos. Então – esqueça! Nada de ficar tentando saber o que aconteceu, nada de compreender porque ele errou, nada de entender os motivos, abandonos, choros, raivas, traições. Acabou, aconteceu, já era, continua!
O importante é não ficar parado. A lógica da vida é seguir em frente. Se você senta na cadeira para puxar lembranças e sentir saudade do ex-amor... Bem, você pára, mas o relógio não. É tempo perdido, entendeu? Per-di-do.
Não é fácil impor pontos finais naquilo que se sente, mas quem disse em terminar com isso? Eu falo em não deixar que isso te afete. Porque doer, vai doer. Mas você não poderá – deixar – isso corroendo. Tem que tentar, tem que continuar, tem que ir vivendo na ausência do ser amado e fazer uma nova vida.
É bíblico isso, sabia? Não deixes que a tristeza tome teu coração, a alegria é o combustível da alma. O homem triste, irado, invejoso, magoado e que carrega remorso, tem os dias contados. Tem vida menor do que aquele que não se deixa abater, que está permitindo o perdão, a gratidão, a gentileza e cultiva a alegria em seu interior. – Não reviver os fatos é o conselho.
Nada é definitivo, nada é permanente, nada é para sempre. Nós somos frágeis como o tempo. Nosso corpo acaba, por que os momentos não acabariam? – Não se prenda na dor, rapaz.
Vai preenchendo a vida de boa vontade. Trabalha, estuda, escuta música e faz amor. Vive! Cuida para não magoar o teu próximo, aprende à não martirizar os acontecimentos, não deixa a tristeza ser maior que os seus motivos para sorrir.
É isso que eu penso enquanto espero o metrô chegar até a estação. “Eu deveria falar isso para as pessoas, mas não sou boa nisso.”. É então que eu pego a caneta e vou anotando, assim como músico faz música durante a palestra, e escreve na nota de um real o dó, ré, mi para não esquecer a melodia. Vou guardando minhas resenhas num caderno, não crio nenhum plano para essas palavras, às vezes só espero que alguém leia e que aquilo ajude. Às vezes, só espero que o que escrevo possa me ajudar.
Porque sou eu quem mais precisa de ajuda. E sou eu que busco nas palavras o meu apoio. É então que me fecho e não quero conversar com ninguém, só preciso de uma caneta e um papel, e contar o que eu sei.
O que eu sei é que o telefone está tocando, e, sabe quem está do outro lado da linha? Quem fez da minha noite passada a melhor de todas. Meu coração acelera, minha voz cala, meu corpo sente arrepios e – sim – só existe uma coisa que pode me fazer parar de escrever: a voz de quem eu amo.

segunda-feira, dezembro 19, 2011

DEIXÁ-LO


Meu coração pede socorro com a voz fraca de quem cansou. Eu não entendo mais as voltas que se deram. Eu não sei onde tudo termina. E não sei o motivo do teu silêncio. Se me conheces, se já me amou, se valeu por algum minuto... – Por que não pára e me conta a verdade? Por favor, fala a verdade pra quem te amou.

Preciso dizer que eu não quero, mas é melhor que tu te vás. Porque tu já me machucaste demais. Meu coração não é mais batidas aceleradas. Ele é a esperança de alguma batida que venha em ritmo de gratidão. Ele é o caos que já terminou, a comida que já esfriou, ele é a solidão de quatro paredes. Tu estás fazendo tudo errado, outra vez. E eu falo como se não soubesse que assim seria. Eu soubera. Tu não mudarás. Tu irás ser sempre o mesmo. Eu é que preciso deixá-lo. Deixar de querê-lo, deixar de senti-lo, deixar de amá-lo. Eu quis tanto que tudo desse certo. Eu quis e fingi tanto para as outras pessoas que eu não me importaria. Eu quis ser forte. Eu quis não ter que escrever estas palavras. Quis virar livro de auto ajuda, fazer histórias de amor, me enganar por aí, escrever e fugir das geladeiras da vida. Eu quis, queria, quero amor.

Embora já não seja qualquer tipo de amor. Eu sinto falta de todos os tipos de amores. Eu ando sozinha... Sozinha de casa, sozinha de amigos, sozinha de namorado, sozinha de mim. Sozinha de mim é o pior de todos. Eu ando – sozinha – de mim. Onde estou não sei. Onde vou não sei. O que quero é muito. O que não quero acontece. Vida, vida, vida – pra onde é que tu me levas? Por que é que não me carregas? Por que é que ainda estou aqui?

Eu preciso ir embora daqui e ninguém mais enxerga o quanto tudo não deu certo. É meio lógico o meu desconforto. E ninguém se preocupa com a minha falta de voz. Querem me empurrar pra um lugar que vai terminar com a minha fé. E o que eu faço? Eu tenho medo de qualquer tentativa de enfrente, em frente, tente ou prossiga. Eu abomino as mortes que virão. E, se perguntarem, por que eu pareço triste, a resposta é fácil: Ela sabe que precisa ir embora.

sábado, dezembro 10, 2011

E.


❝ (...) na história de amor, que é a história do mundo. Ela o olhara com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles.❞

— Separação, em Para Viver um Grande Amor, Vinicius de Moraes

MEUS EXAGEROS, MOÇO...


Chegou correndo e deu a cara na porta fechada, trancada, sete chaves, duas trancas e um cadeado. – Pra quê tudo isso?, se perguntou. Tomou dois passos para trás e fitou as janelas, foi até elas, as tocou, tentou encontrar algo que pudesse abri-las. Nada. Nenhuma brecha, nenhum caminho, nenhuma maneira. – Pra quê tudo isso?, insistiu.

– Ah, para não lhe deixar voltar, moço. Tive que trancar todas as portas e janelas, manter seguro o meu coraçãozinho, fazer minha moradia e, quando possível, prometo ir embora. – Talvez ainda não seja hoje, mas irá me esquecer. Talvez não se dê conta disso, mas você não me ama mais. – Eu percebo na sua ausência o quanto seu amor já não é meu. E ainda na sua ausência, sei o quanto desejo que o meu amor não lhe pertença mais. Então, repito, eu tive que trancar todas as portas e janelas. Manter apertadinho e doce o meu coração, me proteger dos teus erros e ficar quietinha esperando alguém que encontre a chave. Porque eu joguei fora a chave, moço... Está jogada em algum terreno, perto de algumas flores, em baixo de alguma árvore de frutas vermelhas. Onde alguém vai passar pela árvore, ver o fruto caindo, ir correndo até o fruto e achar a chave. Ah, moço, a chave... Eu quis tanto e tanto que você tivesse-a guardado. Mas você não quis e eu não tenho mais forças para cuidar do nosso quase-amor. Eu não tenho mais fé em você, nem sei mais quem você é, por onde andas, com quem andas, como vai ser, o que você quer. Não sei. Você sumiu e eu não tenho mais vontade de lhe procurar. Você foi dando pequenos passos e andou quilômetros longe. Hoje eu tô aqui, sempre sentada, sempre de canetas em mãos, mas sempre cansada. Cansada desses mimimis de nós dois, cansada dessa história que a gente fez, cansada desse “nunca vai poder ser”. Eu não quero mais, moço. Não quero mais brincar com isso. Nem continuar tentando, nem fazer de conta que um dia vai, nem ser sua. Nada. Eu não quero mais nada de você, moço. E embora o peito ainda dê algumas pitadinhas de dores cruéis, eu coloco mais sal na comida, encho um copo d’água e sobrevivo. Sem drama. Moço, quando ficou todo aquele tempo longe de mim, a única coisa que me ensinou foi: – eu posso viver sem ele. Eu posso sorrir mais sem ele, eu posso viver mais sem ele, eu posso dar de costas para os lamentos e jogar na sorte um outro alguém. Eu posso me doar por aí, eu posso amar outros lugares, eu posso escrever sem vontade e sem motivo. Eu posso, dane-se o resto, eu posso. – Se eu quero? – Ah, moço. Querer estar longe, eu ainda não quero não... Mas eu devo querer. Então, repito, tive que trancar todas as portas e janelas, jogar a chave fora, tapar os ouvidos, e esperar que a fruta caia, alguém encontre o segredo e venha correndo. Porque eu posso, moço. Eu aprendi o silêncio da casa que protege e a segurança do deixar pra lá.

– Pra quê tudo isso?

Ah, porque “os poucos” sempre foram teus.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

MAS SE VOCÊ NÃO ESTÁ LÁ...


Vi sua partida assim como vejo a água que cai da torneira direto para o ralo. Sem volta. A sensação era de uma nevasca intensa dentro de mim. O corpo perdia o calor, os olhos perdiam a visão, as lágrimas ocupavam seu espaço no rosto, o nariz respirava por obrigação, a cabeça titubeava e a mente parecia vagar. Ele nunca entenderia que cada passo que dava em frente era a minha vida que ele levara. Sem ele, eu estaria morta. Morta de sonhos, morta de esperança, morta de amor, morta de vontade de continuar. Morte de quem morre e pára de existir. Morte de quem não escuta mais os latidos dos cães, nem o barulho que faz o vento quando as árvores tocam o telhado. Morta de quem ainda respira, mas – Deus nos perdoe – preferira não respirar.
O mundo sem ele não tivera graça. Os sonhos que se fazem em meio a solidão são sonhos sem vida. A rotina acalma tudo, inclusive a vaidade. O sol que nasce parece não ter beleza, o sol que vai embora traz a lembrança de quem nos deixou. Cada estrela que brilha no céu conta alguma história; a minha estrela – neste momento – parou de brilhar.
As pessoas queriam me dar conselhos. Eu sentia na voz de algumas delas um leve toque de quem implora por algo. Imploravam para que eu o esquecesse, o deixasse, seguisse a vida que era minha. E eu nunca entendera como elas teimavam em repetir que aquela era a – minha – vida, mas insistiam em se intrometer nela. Minha vida, ah, que bobagem!
A vida não nos pertence. Ela acontece, você querendo que ela aconteça ou não. A vida toma caminhos, coloca pessoas, tira pessoas, fecha portas, abre portas, e nada é da maneira que você sonha. Sempre falta algo, sempre sai algo diferente do planejado, pode até ser melhor às vezes, mas nunca é como você espera.
Eu ouvira os dizeres das pessoas com a educação de quem não quer brigas, mas jogara fora as palavras como quem não quisera escutar. Qualquer palavra era em vão. Eu teria um único desejo naqueles momentos: entrar em baixo das cobertas e dormir para sempre.
Porque acreditei, fielmente, que para sempre ele estaria ali. E quando fosse embora iria ir dizendo: a gente se encontra daqui a pouco. No entanto, ele tomou o caminho, bateu a porta, pegou o carro e não voltou mais. Amar é um sentimento definitivo. Não se pode sair amando todo mundo. Quando se promete amor, com apenas três palavras, você promete uma vida em entrelinhas. Você dissipa a parte ruim da vida daquela pessoa e ela passa a sorrir apenas com a sua chegada.
Não importa o que aconteceu há um quarto de hora, o que importa é o que poderá acontecer nos próximos segundos. A decisão era deixá-lo triste após me aborrecer com a sua falta. E, deixei-o. Então, como não se pode prever e a vida anda com os passos dela. A chuva estava forte, o carro deslizou, saiu da pista, e... Não haveria o pedido de desculpas que eu esperara de sua boca, nem a minha última declaração de amor. De repente, o tempo se torna pouco. Menos de vinte e quatro horas para se despedir de um corpo que não tinha a vida pela qual me apaixonei. O mundo parecia ser preto e branco e nada me convencia de que aquilo não era só um pesadelo.
Eu fiquei tentando acordar daquele sonho ruim durante alguns anos. Eu só percebi que não era um pesadelo quando se completavam dez anos e a foto do tumulo começou a desaparecer.
Morrer é, com certeza, a pior forma de deixar alguém.
Eu assumi um luto que não tem previsão de fim. Sei que muitas pessoas esperam o final desta carta com um “eu aprendi que...”, mas a única coisa que aprendi foi a dor da tua ida, foi a espera da minha vez, foi a esperança vã do teu contato.
O fim é a parte da história que sempre me despertou tormentas. Os finais felizes não me surpreendem, os finais tristes não me animam, e os finais incompletos representam a vida. O fim não definitivo é o que me faz crer que não acabou aqui. Tem mais por vir... Tem que ter. – Porque eu ainda me lembro que você disse que quando eu estivesse mais calma, nós iríamos conversar.
Depois dessa vida, só há vida, se tiver você.