Respeite o tempo. Possivelmente eu mudei de opinião.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

16 de 365

“Foi aí que decidi que precisava fazer alguma coisa. Precisava decidir o que ia fazer e o que ia ser. Estava de pé ali, esperando que alguém fizesse alguma coisa, até perceber que a pessoa que eu estava esperando era eu mesmo.” 

O azarão, Markus Zusak

AS MUDANÇAS


 Anota:
 Você costuma parar para pensar como será daqui a dez anos?
É possível largar tudo sem saber como estaremos ao voltar?

Querido amigo,
fico feliz em saber que está tudo bem com a sua família. Adorei receber fotos dos seus lindos filhos. Junto desta carta mando recordações dos laços que também construí. É bonito ter pessoas que nascem do nosso amor, não é mesmo? Creio que seja uma das razões pelas quais a vida ainda vale a pena.
Às vezes eu me faço promessas estranhas. Prometi que não escreveria mais quando estivesse emocionado. Ah! Que tolice! A emoção é o que nos move, não é? Se o coração não bater um pouquinho mais forte parece que não há a vontade necessária para seguir em frente. É que quando abri o envelope e vi suas fotos, resolvi olhar nossas fotografias de quando éramos jovens. Sabe, sinto falta do entusiasmo que correra em minhas veias quando tivera a idade dos nossos. Queria um dia voltar a correr como antes. É mágica a velocidade de nossas pernas quando temos 19 anos. Às vezes, observo as crianças que estamos educando hoje e me pergunto "como elas podem ficar mais de seis horas sentadas, gastando sua energia, com uma máquina que chamam de computador?". Os jovens não se esticam, não leem, não param para refletir. São tolos e egoístas, criam felicidades falsas e nem ao menos sabem o que é ser alegre. Meu neto recentemente foi internado em uma clínica de reabilitação... Bom, não quero tocar neste assunto. Me dói saber que a educação que dei aos seus pais não foi repassada. Enfim, parece que quando nós éramos jovens, a vida era mais simples, mas era mais bonita.
Desde que a minha amada se fora, penso em ir embora. Mas ir embora requer muita coragem. A tecnologia é a grande responsável por meus medos. Imagino deixar esta casa de paredes verdes, com gramado, árvores e janelas marrons, permanecer fora por dez anos e, ao voltar, encontrar pessoas morando em baixo do solo porque os cientistas descobriram que era mais saudável ou fora a última moda. É amedrontador saber que as coisas mudam muito rápido e que nós não percebemos a mudança. O que nós dois estamos fazendo, trocar cartas, é um exemplo de caretice. Sabe o que eles fazem agora? Trocam torpedos pelo celular. Há um mês o namorado de minha caçula terminou o namoro por uma SMS. Incompreensível. Somos medrosos e, agora, nos escondemos e vivemos conforme a tecnologia. Você costuma parar para pensar como será daqui a dez anos? Os carros? Como serão? É possível largar tudo sem saber como estaremos ao voltar? A tecnologia altera os objetos, meu amigo. E, infelizmente, ela altera as pessoas também.
É por isso que cultivar os detalhes pequenos é importante. A compaixão, o nascer do sol, a corrida no final da tarde, o futebol com os amigos, um bom livro, a boa música, uma boa conversa, pessoas que velam a pena... Tudo o que nos fizer entender o porquê de ainda estarmos aqui. E, a fé. Volto à ela, porque acreditar é o que nos resta. É o que nos exemplifica e nos faz esperar com mais calma por aquele dia.
Sabe, eu vejo o maldito dia se aproximar. Catarina costumara dizer que algumas pessoas já sabem que irão embora mais cedo. Eu sempre soube que o Parkinson iria me roubar as coisas que eu mais adorara. Por isto a urgência, as noites em claro, a bebedeira, o cigarro, o desespero que só me tornou mais fraco, mais tolo. Todas as vezes que uma parte do meu corpo começara a tremer e eu perdera o controle, me sentira vulnerável. Escrever durante um ano foi praticamente impossível. Tenho certeza que quando ler este parágrafo saberá que não estou mentindo. Se lembra que eu sempre tremera? Eu, meu amigo, o escritor. Antes mesmo de fazer os exames, eu já soubera. Quando eu e Catarina estávamos a sós eu costumara a dizer: "Estou tremendo". E ela sempre respondera: "Eu também". Eu tentara avisá-la de que eu previra a morte, mas ela já havia entendido muito antes. Como disse, ela costumara dizer que algumas pessoas já sabem que irão embora mais cedo.
Tremer, às vezes, não é tão ruim. Eu não preciso mais me esforçar para escovar os dentes. É só ficar sem tomar o remédio... Quando minha amada ainda era viva, a parte trêmula, também me era útil. Bem, nem sempre por causa dos remédios. Mas a velhice nos toma isto também.
Não há nada demais em envelhecer. Eu preferira estar certo e ter ido antes, mas há uma longa trajetória a ser percorrida. Eu tivera que acompanhar as mudanças. Tivera que estar aqui para escutar o choro de meus netos ao nascer. E tivera que aconselhar meu filho quando ele perdera minha nora. Não foi fácil para Elias entender a morte.
Ah! A morte! Falaremos disso em nossa próxima correspondência. Saudosas vibrações durante o novo ano e um conselho: compartilhe suas alegrias.

Com os olhos de 19 anos,
Chico.

terça-feira, janeiro 08, 2013

08 de 365

“E pela primeira vez desde que cheguei em casa, estou completamente feliz. É estranho. Lar. Como pude desejá-la por tanto tempo, só para voltar e descobrir que se foi. Estar aqui, em minha casa técnica, e descobrir que lar é um lugar diferente. Mas isso não está certo, também.
Tenho saudades de Paris, mas não é meu lar. É mais como que… sinto falta disso. Este calor através do telefone. É possível que lar seja uma pessoa e não um lugar? Bridgette costumava ser o lar para mim. Talvez St. Clair seja meu novo lar.
Eu reflito sobre isso enquanto nossas vozes se cansam e paramos de falar. Simplesmente fazemos companhia um para o outro. Minha respiração. Sua respiração. Minha respiração. Sua respiração. Nunca poderia dizer-lhe isto, mas é verdade.
Isto é lar. Nós dois.” 

Anna e o Beijo Francês, Stephanie Perkins

A FÉ


 Anota:
A vida é um presságio

Querido amigo,
peço-lhe desculpas por minha falta de educação em minha última carta. Deveria ter sido mais atencioso com a sua vida. Como vão as crianças? Acredito que se tornaram jovens lindos! Annabeth se formou em Artes, não é? Ah, uma moça tão bela não poderia ter feito outra coisa!
É intrigante montar os rostos de seus filhos em minha mente. Caio, por exemplo, eu imagino que tenha o teu sorriso, mas os olhos só poderiam ser verdes como os de Julietta. Julietta ainda cozinha tão bem como antes? Lembro do sonho de sua amada de montar um restaurante. Conheci a Itália recentemente e imagino que ela aprovaria o tempero daquela terra romântica.
Em minha última correspondência eu comentei que a minha fé havia passado por experiências fantásticas. Foi justamente na Itália que tudo começou. Conheci um jovem casal que me fez relembrar nosso tempo de juventude onde o único objetivo era viver para fazer amor. O rapaz, chamado Rafael, era cheio de bravura e perspicácia. A moça, chamada Antônia, era bela como a lua e doce como um morango.
Era bonito ver a maneira com que se adoravam. Alias, depois que os conheci, passei a admirar a palavra "bonito". Deve ter prestado atenção que já a usei pela segunda vez desde que iniciamos nossas correspondências. É que a moça tinha tanta fé naqueles olhos que aquela esperança me cativou. Ela explicara com a voz de quem ensina que, "fazer bonito" era um ato próprio de quem amara.
Certa vez, Antônia me dissera que só quem já amou, poderia ter fé. Ela costumara usar a palavra "fé" de maneira cuidadosa. Acho que era porque quando ela falava de fé, ela também queria falar sobre Deus. E mesmo que pareçam a mesma coisa, eu comecei a notar que são duas palavras de significados diferentes.
Rafael sofrera de uma doença fatal. Os médicos já haviam o alertado de que ele não reagiria aos tratamentos. Foi justamente por isso que ele resolveu não contar nada a Antônia sobre sua situação. Fico me perguntando se há como contar à quem nós amamos que nós iremos morrer. Bem, se há um jeito de contar, Rafael não tivera descoberto.
Porém é impossível esconder algo que nos atormenta de quem possui o nosso coração, não é mesmo? Namoravam há um ano e dois meses quando Antônia descobriu que seu companheiro provavelmente não iria acompanhá-la até o final de sua trajetória. Você pode imaginar a aflição que aqueles lindos olhos de Antônia levaram ao ver os exames de Rafael. O fato é que o rapaz, com sua culpa, fez a moça viver uma mentira.
Rafael e Antônia falavam línguas totalmente diferentes, metaforicamente é claro. Mas não importara, não para eles. O amor parecia bastar. Bastou para que Antônia o perdoasse e o ajudasse a enfrentar sua enfermidade. O amor é a multiplicação do perdão, não é mesmo? Certa vez, o poeta escreveu "diga-me quem mais perdoou nesta vida e eu lhe direi quem tu mais amou". Antônia esqueceu sua dor para salvar a vida de quem ela tanto amara. Preste atenção: ela não o curou da doença, ela salvou a vida.
Salvar a vida de alguém é estender o braço quando o caminho a seguir é árduo. É assim que amamos as pessoas: salvando vidas. Foi salvando a nossa vida que Jesus Cristo nos deu amor. É deixar o peso da existência e compreender a parte bonita de estarmos aqui. Rafael teve que esquecer que sua existência iria acabar mais cedo para se permitir viver a beleza de um grande amor.
Pude acompanhar de perto a doença de meu jovem amigo e o companheirismo de sua doce namorada. Quando Rafael se foi, Antônia se mudou para o Brasil. No dia do velório, o corpo no caixão parecia sorrir. Foi quando entendi que a felicidade só seria cumprida quando a vida estivesse cumprida também.
Sabe, se não houvesse fé naqueles dois, não teriam atravessado o caminho. É preciso muita coragem para levar adiante um amor que não será como os outros. Não tiveram tempo de casar, ter filhos e possuir casa. Nunca vi Rafael e Antônia se preocuparem se iriam terminar a faculdade, se conquistariam o emprego dos sonhos e se o dinheiro pagaria a prestação do carro. O fato de entenderem que aqui é apenas um presságio foi o que os deu força para não ter medo do que vem depois.
A vida é um presságio, amigo. Não há tempo para esperas. É por isso que todo o amor do mundo deve ser dado hoje. Se não viemos aqui para cumprir a tarefa de amar, por que parece que Rafael não viveu o suficiente?
Espero que esteja lendo com pausas esta carta. Quero que se apegue às seguintes palavras: fé, Deus, amor. Hoje eu sei que embora significados diferentes, estão juntas. Só conhece a Deus quem já amou. Quem não teve a capacidade de amar, não poderia ter fé e nem poderia reconhecer quem o criou.
Eu venho percebendo que Deus não quer que sigamos regras. Para Ele tanto faz se vamos guardar o domingo ou não, desde que saibamos que Ele nos criou. O que importa se é chamado de Deus ou Alá? Os trajes das moças ou os chapéus dos rapazes. O que importa? Não é isso que Ele quer de nós. O que é preciso é ter fé.
É saber que há uma força, independente de como você crê nela, que nos rege. É permitido ter a sua religião, como é permitido não a ter. Repito: O que é preciso é ter fé. A fé que nos traz o amor. O amor que é a meta de estarmos aqui.
Porque a fé significa esperança. Dela poderemos construir coragem, mover montanhas, construir prédios, separar o mar vermelho. E o amor é bonito. É com ele que nós dividimos a vida e é com amor que poderemos nos salvar.
Bom, acho que eu já escrevi demais hoje. Queria novamente demonstrar a saudade que tenho de poder conversar com você, meu amigo. Frente a frente seria mais fácil você entender a minha fé. Desejo uma boa semana e boas histórias.

Com esperança,
Chico.

domingo, janeiro 06, 2013

06 de 365


SÓ VOU GOSTAR DE QUEM GOSTA DE MIM
Rossini Pinto

"De hoje em diante,
Eu vou modificar,
O meu modo de vida.
Naquele instante,
Em que você partiu,
Destruiu nosso amor.
Agora não vou mais chorar,
Cansei de esperar,
De esperar, enfim.
E prá começar,
Eu só vou gostar,
De quem gosta de mim...

Não quero com isso,
Dizer que o amor,
Não é bom sentimento.
A vida é tão bela,
Quando a gente ama,
E tem um amor...
Por isso é que eu vou mudar,
Não quero ficar,
Chorando até o fim.
E prá não chorar,
Eu só vou gostar,
De quem gosta de mim...

Eu bem sei,
Eu já procurei,
Não encontrei meu bem.
A vida é assim,
Eu falo por mim,
Pois eu vivo sem ninguém...

(...)
E prá começar,
Eu só vou gostar,
De quem gosta de mim."


O TEMPO

Anota: 
A vida é uma ausência.

Querido amigo, 
Eu venho notando as mudanças que o tempo nos proporcionou com os olhos daquela criança que acaba de conhecer o mar. É lindo! Pisar na areia, tocar o mar com os pés, escutar o barulho das ondas, sentir o vento balançar os cabelos... E perceber que aquele momento é único. 
É único o momento em que paramos para pensar na vida e refletimos como está tudo bem. As peças do quebra-cabeça se encaixaram, não é? Faltam algumas, eu sei. Mas eu consigo notar a força que nós adquirimos para arrumar o que nos falta. Eu sei que, no final, o quebra-cabeça formará uma linda imagem.
Eu estou em paz, meu amigo. Eu perdi aquela ansiedade apaixonante pela vida. Apaixonar-se pela vida é o tormento que não nos deixa dormir. A idade nos proporciona esse desapego pelas procuras daquilo que sabemos que não iremos encontrar. E ainda, a idade nos faz entender que mesmo que estejamos com os braços abertos, nem tudo estará em nossas mãos. 
É justamente no ponto que conseguimos compreender que a vida é uma ausência que nós ganhamos a tão sonhada paz. Passei – sim – a vida procurando por felicidade. E descobri que a única coisa que eu precisara fora paz. Porque a felicidade, meu caro amigo, é utopia. Ninguém é feliz em todos os momentos e nós dois sabemos bem disso. Eu venho acreditando que nós somos felizes somente uma hora antes de encontrarmos a morte. Pense bem, uma hora antes de ela nos tocar, já sabemos tudo pelo qual devemos nos orgulhar em nossa vida. Acabou. Hora de festejar. 
Venho pensando em retomar antigos projetos. Você se lembra? Lembra como eu era um sonhador? Sabe... eu me lembro. Eu me lembro dos seus olhos brilhando quando falávamos em sonhar. Eu não consigo me lembrar se você tivera um sonho, me desculpe. Mas não me esqueço da maneira poética com que você costumava falar sobre o futuro. É uma pena que não possamos mais nos comunicar como antes. O tempo altera muita coisa, não é meu amigo? O tempo, muitas vezes, é traiçoeiro. Infelizmente nós vivemos apenas uma vez. E as horas não esperam que nós possamos nos decidir quando iremos ir. Se deixarmos para amanhã, o caminho pode não estar mais lá. 
Eu queria poder acreditar em destino se já não tivesse perdido tantas coisas por pensar que ele traria de volta... Não trouxe. Foi uma escolha minha deixar a vida seguir seu ritmo natural. O curso natural da vida nem sempre poderá nos orgulhar. 
Queria lhe contar que eu não sou mais o mesmo. Ainda tenho e, penso que nunca perderei, a minha ambição. Porém, não me preocupo mais com tantas coisas. O essencial já me parece o bastante. Às vezes a gente quer cuidar de tantas coisas que deixamos o que é bonito passar. Nem tudo nós é permitido, não é? É preciso deixar algumas coisas de lado e nos entregar àquilo que a alma pede. E, é bom limitarmos a alma, para que ela deseje somente o que os braços possam alcançar. Repito: nem tudo estará em nossas mãos.
Também queria lhe lembrar da minha fé. Continua forte. Vivenciei experiências fantásticas que fortaleceram a minha crença de que algo nos protege. Gostaria de partilhar esses momentos, mas já está ficando tarde e amanhã acordo cedo. Lhe escrevo em breve. 

 Com carinho, 
 Chico.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

A.

"Então vinha o medo. Não queria aceitar a palavra, empurrava-a para longe do cérebro, mas ela voltava a se impor, e ele estava tão fraco que nem podia lutar. Vinha o medo frio, vinha o medo lento. Primeiro uma carícia brincando nos tornozelos, leve arrepio subindo pelas pernas, arrepiando as coxas. No ventre, solidificava-se feito compressa de carne mole, gelada. No peito, apertava como se quisesse estancar o ritmo do coração, e na garganta implorava para ser transformado em grito. Um grito que quebrasse as paredes, arrebentasse o teto, como um cavalo selvagem. Mas junto vinha também o cansaço recolhido no fundo do corpo, recusando-se a atender o pedido. Enfurecido, o medo escalava o pescoço, fazia estalar a cabeça. Maurício levava as mãos até as orelhas, apertava-as, sentia o liso frio das faces, implorava: não não não. Sem pausa, sem sentido, sem voz, ele implorava como devem implorar os condenados à morte frente ao pelotão de fuzilamento. Sem empenho, porque jamais seria atendido. E, de repente, a dor cessava. Então mergulhava num poço silencioso, esverdeado de musgo, vazio de arestas." 

 Limite Branco, Caio Fernando Abreu

MESES DE SEPARAÇÃO, Sr. SOLITÁRIO

Você precisa me deixar ir. Eu venho me desvencilhando dos lugares, roupas e pessoas; mas você continua o mesmo. Você ainda pensa. Eu posso sentir o seu pensamento me buscando e eu sei o motivo. É a culpa. A culpa de ter tomado o caminho errado, outra vez. A escolha absurda, o afastamento do equilíbrio, a sombra que ocupa o espaço vazio. 
A memória ainda guarda o cheiro do perfume doce, as palavras ainda levam o ritmo da minha leitura, o céu tem as cores que eu descrevi. Você está no mesmo livro, rapaz. O personagem não morreu, porque a história não acabou. Eu não posso pontuar o fim se você não me deixar ir.
Você não pode perguntar sobre mim às pessoas que me são próximas. Você não pode assistir aquele filme que nós gostávamos. Você não pode inventar e viver uma história como se eu ainda estivesse ali. Você não entende? O telefone não vai tocar, os livros não irão perder as palavras, as janelas estão trancadas e as portas destruídas. Não há passagem. Há separação. 
A separação tem que ser real. A dor não é separar-se, a dor é saudade. A saudade não nos pertence mais. Somos duas almas que deveriam escolher a solidão diante do abandono. Porque sim, sim rapaz, nós nos abandonamos. Não houve um “até logo”, nem um “adeus”, muito menos o estimado fim. Houve medo, fuga, urgência, abandono. 
E como é possível duas almas predestinadas ao romantismo resolverem abandonar o amor? Resposta simples. Nós deixamos de fazer bonito aquele amor que era tão real. Nos perdemos. Fizemos um trato com a rivalidade e venceria quem fosse mais cruel. Mas cruel com o quê? Com quem? Com as pessoas que nós deixamos que fizessem parte desse teatro? Ou com nossa própria dor? 
Permitimos que aquelas pessoas se aproximassem, tomassem lugares, descobrissem segredos e sofressem com o nosso mistério. Pessoas como nós, querido Senhor Solitário, deveriam permanecer sós. No entanto, nós procuramos aconchego, encontramos um lar, cercamos nossa casa e construímos uma vidinha simples e doce. E que mal há nisso? Onde está o erro? O erro está na história que eu não pontuei. 
É a separação que a sua alma não deixa que eu viva. Senhor Solitário, me escute, me leia, eu imploro! Deixe-me ir. Estou só há meses nessa espera de que você me esqueça, mas eu não vejo o esquecimento em seus traços. De longe, passo em frente de sua casa todos os dias, nunca o vejo, mas sei que estás lá. Sentado, tentando admitir a solidão daquele buraco negro, até que o passarinho faça parte da cena. 
É lindo escutar o canário cantar, mas a sua alma encontra-se aflita. O canto não acalma se você não permitir-se. O problema é que, para isso, você precisa me deixar... E você não o quer. Você quer que eu permaneça e faça você acreditar que a escuridão daquele buraco negro irá se tornar um arco-íris de cores. Você precisa acreditar nisso. Precisa que o vento traga um sopro de vida aos seus olhos vermelhos. 
Afinal, os meses de separação são bonitos ou inevitáveis? Me pergunto se você os vive ou apenas finge. É que a sinceridade desse encanto não corre junto com a correnteza da sua alma. Ao contrário, ela afunda. – Você está se afogando no seu próprio erro, ao invés de se buscar saúde, são os velhos costumes que aumentam. São novas mentiras para os nossos pais, porém as mentiras escondem os mesmos deslizes. 
Deixe-me ir, Senhor Solitário. Você tem que se desvencilhar dos lugares, roupas e pessoas, mas você – você – continua o mesmo. Como se a separação não existisse e os tempos fossem sempre Natal.

sábado, outubro 13, 2012

A.

"O tempo da maturação é importante. Escrever é como fazer pão. O tempo de fermentação é indispensável, pois é ele que faz com que o pão cresça antes de ser levado ao forno. Antes da publicação, a fermentação das palavras. O motivo é um só. As palavras podem ser traiçoeiras. Por isso — preciso — oferecer-lhes descanso." 

Tempo de Esperas, Fábio de Melo 
Obrigada Rita.

NÃO É HORA

"A pergunta era a mesma: “Está na hora?”. Porque voltar ainda carrega o mesmo preço pelo qual eu pago ao continuar. Não estamos valendo nada. Nossos corpos estão nus, desprotegidos, as almas estão abertas. E em minha frente eu posso enxergar o exército se aproximando. Nós somos presas fáceis. Somos as vítimas que ninguém irá defender. Nesse crime não haverão criminosos, porque estamos isolados." 


Sinto necessidade de que me escutem, no entanto ainda não posso falar. As palavras estão guardadas no silêncio que só eu posso ouvir. Os braços que me acolhem poderiam sentir de leve o som das rimas, mas eu ainda gaguejo quando penso em falar de amor. 
E se o amor não for tudo o que eu pensei? Não se trata mais da pessoa perfeita, dos encontros com trilha sonora, dos monstros que ameaçam o final feliz. Não. Talvez se trate de algo muito mais simples. Duas pessoas, duas vidas, duas histórias, nada exatamente os completam, um não precisa do outro, porém os olhos gostam, a pele gosta, a presença é gostosa, é um pouco doce, meio mágico, é simples. 
Eu sei porquanto eu caminhei procurando entendê-lo. Mas decifrá-lo está longe de minha capacidade. Eu não o pertenço, assim como ele está longe de mim. Posso notar suas aflições, mas não posso tocá-las. “Eu quero cuidar de você, menino.” – Eu quero mostrar o lado branco, o meu lado, o lado neutro, um pouco confuso e ainda belo. Quero que venha comigo, quero segurar suas mãos, quero dividir alguns capítulos.
Porque é assim: a gente nasce para dividir alguns capítulos da nossa história com outras pessoas. Tem a parte dos pais, dos irmãos, da escola e dos amigos que ela nos traz, dos amores, do casamento, dos filhos, dos netos, da velhice. A velhice é o capítulo mais sereno. O fim. Os finais felizes são compreendidos quando podemos encerrar o nosso livro. É quando posso olhar para trás e ler todas as palavrinhas que marcaram meu coração. Quando cada importuno faz sentido, porque cada fraqueza fez ser o que eu sou. É a parte bonita. A parte sincera. A parte em que quase tudo está escrito. 
O desafio então é saber fazer com que as palavras de hoje possam levar beleza para o amanhã. Não é difícil fazer sincero o presente. Ah, difíceis somos nós! Nós que não sabemos embrulhar o presente com fitas vermelhas de Natal, que só falamos do passado e do futuro, e esquecemos de construir o sorriso de hoje. Nós que somos frágeis, tão frágeis quanto os corações velhos. Que somos sozinhos mesmo que haja uma multidão lá fora. Que entramos na música e deixamos de tocá-la dentro. Dentro, talvez, seja o segredo: Deixar entrar. 
Ah, rapaz, se você soubesse o quanto as palavras já me traíram... O quanto me causa medo trazê-las de volta. O quanto o silêncio da minha isolação é mais confortável. Se você soubesse... se você ousasse... Se o passo à frente fosse dado me pouparia tanta dor. Porque as coisas não vão bem, mas eu continuo aqui, como sempre fui. Da mesma maneira que sempre me encontrou: forte, transbordando coragem, suspirando esperança e trazendo o medo no olhar. 
O medo paralisa. O medo me deixa calada. O medo é a cigarra que canta lá fora. O silêncio do medo é o que você enxerga todas as noites ao passar pela minha casa. – Sim, eu sei. – Você percorre os mesmos caminhos. 
A velocidade dos seus passos não mudou. A vida seguiu, no entanto a rotina é igual. As mesmas conversas, embora pessoas diferentes. Os mesmos divertimentos, embora outros locais. Os mesmos vícios, embora novas drogas. Somos os mesmos. 
E eu suponho que continuará assim. Porque cada livro segue um ritmo. E os nossos é a mesma bossa-nova de sempre. É o mesmo cigarro no cinzeiro, a mesma janela aberta, o mesmo telefone que não toca. As mesmas lágrimas e a mesma lamentação. 
O que muda, rapaz, é que eu estou mais livre. E o seu amor não é meu.