Respeite o tempo. Possivelmente eu mudei de opinião.

quinta-feira, setembro 25, 2014

BABY, YOU'RE A RICH MAN

"E escrever sobre o quê em uma segunda de manhã? Ah, talvez eu possa discorrer sobre a bagunça. Tudo o que construímos está perdido por aí. Nem as músicas são as mesmas, quem dirá as pessoas! Quem poderia imaginar que o tempo realmente iria passar depressa? As estações são outras, primavera não é mais primavera. O verão é insuportável, ninguém mais vê o outono, e, o inverno... hunff, o inverno atormenta as nossas lembranças."



Ele ainda se senta no mesmo banco da praça quatorze, você sabia? Escuta aquela música esquecida pela tropicália e discorre poemas sobre a velha vida. Ele tem medo. Quando abre os olhos pela manhã, a cama está vazia, a televisão ligada no canal do telejornal e, todas as manhãs, tem a impressão de que a porta está se abrindo. Não está. Ele descobriu o que é a solidão. 

Ele pensa durante todas as refeições, que é quando tem descanso para se lembrar, nas mortes que enfrentou naqueles anos. Carrega o peso da culpa como se pudesse ter feito algo para que fosse diferente. Talvez, oh, talvez ele pudesse. Acho que aquelas pessoas morreriam da mesma forma, mas ele poderia ter se doado mais. Poderia ter feito uma ligação durante a noite, ter ido passar os domingos ao lado deles, ter segurado suas mãos enquanto estavam deitados naquela cama imunda de hospital. Ele poderia ter demonstrado como se sentia. 

O que anda acontecendo com todos nós? Estamos padecendo do medo de amar. Não queremos que, a multidão de pessoas que nos observam, confunda nossos sentimentos com fraqueza. Rapaz, sendo franco, temos medo de sermos chamados de viados. Quebramos tantas barreiras de preconceitos e, no entanto, nós mesmos nos mutilamos. Não acredito que seja apenas a prevenção para que não nos machuquemos, é receio do que as outras pessoas irão pensar. 

Você sabia? Ele pega o ônibus todas as manhãs, dois reais e vinte centavos na passagem, vai até o trabalho sentado naquele assento que está com o estofado rasgado e fica a pensar no que os vizinhos pensariam se ele largasse a faculdade, o emprego sonhado, a namorada tão cheia de graça e inteligência. Se pergunta insistentemente se ele está fazendo o que é certo. Quando o dia chega ao fim, tem a certeza de que fez o que era correto, mas continua descontente. Rapaz, com a sua idade, ninguém deveria manter-se insatisfeito. 

Não quis decepcionar as outras pessoas e decepcionou a si mesmo. Rapaz, eu lhe avisei: tudo nessa vida precisa de um equilíbrio. Não decepcione quem amas, mas não decepcione a si. Enquanto aos seus vizinhos, eles são pessoas que pensam saber tudo sobre você, porém não o conhecem. Não dê tanta importância assim. 

Ele sabia que precisara ter estado mais com eles. Não precisara seguir a profissão que eles tanto sonharam para o seu caminho, só precisara doar-lhes um pouquinho do seu amor. Um beijo na testa, um eu te amo às vezes, um abraço no natal... eles só desejavam o afeto daquela criança que eles cuidaram com tanta dedicação. Eles eram os seus pais. 

Do que adianta a saudade, rapaz? Pai e mãe só vivem uma vez. “Eles morreram”, pensou durante o jantar. “Eu não me despedi”, durante o almoço. “Sonhei com eles, outra vez”, durante o café. O mundo parecia andar ao contrário. Os ponteiros do relógio já não o obedeciam, e, de repente, estaria atrasado para o emprego. 

Aquela vidinha chata. Aquela trava de demonstrar o que sentia. O receio de que os amigos descobrissem que ele era sensível. O amor por uma prostituta e o namoro forjado com uma mocinha de família. Essa foi a vida que ele escolheu, você sabia? 

Ele nega, diz que escolheram por ele, que ele se perdeu. Ah! As drogas não irão justificar as suas ausências depois que tudo acabou. A vida era sua! “Dane-se o que pensam”, enquanto buscara a sua rota de fuga. No entanto tivera receio do que os vizinhos iriam contar para os seus pais. Vinte e tantos anos nas costas, rapazinho, e a mamãe ainda lhe prende pela barra da saia? Não, não estou debochando. Estou tendo pena. 

Pena, eu lhe disse por muitas vezes, é o pior sentimento que podemos sentir pelo outro. Ninguém precisa ter pena de você, ninguém vai lhe amar por pena. Serão poucas as pessoas que irão lhe estender a mão com compaixão quando estiveres caído. Você – rapaz – não causa pena em ninguém. Foram as suas trajetórias em rodovias escuras que lhe trouxeram até aqui. 

Jogue fora os seus remédios, desarme as suas barreiras, estude Matemática e não Direito, compre chinelos, trabalhe de bermudas, ande devagar, não pegue ônibus, vá de bicicleta. – Visite o túmulo dos seus pais. Não cometa o erro de amá-los menos do que eles merecem. – Não dê menos amor as pessoas que ainda estão aqui. Ligue. Mande cartas. Não espere por natais que acontecem uma vez por ano, mas passe domingos que ocorrem com mais frequência. Se desligue das pessoas que não irão te levar a algum lugar. Cerque a sua vida de coisas boas. Trabalhe no que lhe der vontade, ame seu trabalho, trabalhe seu amor. – Rapaz, você sabia que eu ainda sento no mesmo banco da praça quatorze?

segunda-feira, setembro 22, 2014

22 de 09


"Você sai e não explica, 
Onde vai e a gente fica,
Sem saber se vai voltar. 
(...) 

 Diz que é pra tomar cuidado, 
Sou um desajustado, 
E o que bem lhe agrada, meu bem.

"Mas fica, 
Mas fica, meu amor. 
Quem sabe um dia, 
Por descuido ou poesia, 
Você goste de ficar..."

FICA, CHICO BUARQUE

EU NASCI ASSIM

“Mesmo que não fosse dona de vários pares de sapatos, era grata por ter um par para calçar os pés. E, mais, era grata por ter pés para andar descalça.” 



Não terminou os estudos e nem falara mais de um idioma. A mãe só tivera dinheiro para as prestações do carro, casa e supermercado. O pai falecera há doze anos. Filha única, metida a revolucionária. Sentara no bar e criticara a política do país. Não vestira saias, não usara maquiagem, não cruzara as pernas para se sentar. Pouco lhe importara agradar ou não aos demais. Irreverente, cabeça dura, não soubera cozinhar e as gírias das suas orações me confundiam. O que eu vira naquela mulher? 

Temia ter que dar satisfações, pegara o carro e andara sozinha pela madrugada, parecia não ter medo de nada, mas tivera. Tivera medo de se envolver, de não ser amada como a mãe não foi, de ser “assim” para sempre. Tivera sede de mudanças, queria renovar-se a todo instante, não permanecia com as mesmas opiniões por muito tempo. Nunca vi em seus olhos a vontade de ser melhor do que as outras pessoas, apenas a vontade de ser melhor do que ela mesma. Talvez fosse isso – a voz cansada, o brilho nos olhos, o mistério de ser quem era. 

Ao mesmo tempo que era debochada, envergonhava-se em me fitar na multidão. Quando os olhos se encontravam, ficara vermelha, atrapalhava-se, perdia-se no acanho de demonstrar seus instintos. Não conheci ainda alguém que a tenha desvendado melhor do que eu, e, muitas vezes, ela não se revelou. O que queria aquela mulher? 

Parecia não se importar com o resto do mundo. Ali, sentada em seu silêncio, observara a festa e as pessoas como alguém que não compreendia. Mas o que me deixara intrigado, era que ela não tivera vontade em compreender. Era como se no mundo dela não houvesse lugar para muitas pessoas, não existiam endereços e aposto em poucas lembranças. Quem tentara entrar, perdera pedaços no caminho; quem não tentara, ficara a desejar suas esquisitices. 

Quem era aquela mulher inconstante, desapaixonada, que os olhos mantinham-se avermelhados e o sorriso era tão divertido? Ah! Zézim! Ela era tão bonita! Não porque pesara 53 kg, cabelos longos e pele limpa. Não. Era bonita porque era. Porque não tinha a forma das outras, porque não queria ser igual, porque rejeitara meus afetos e se parecia tanto comigo! (Suspiros). Porque o abraço apertado era tão confortável! Tão imenso! Tão doce! E eu o queria... Eu queria aquele abraço só para mim...

Por tantas vezes tive a ilusão de que ela também o queria, mas não, Zézim. Ela não tivera donos, meu amigo. Era do mundo, do mundo dela. Do jeito dela. Com aquelas esquisitices e ideias mirabolantes, ela era a mulher que me roubou encantos e foi embora sem se despedir. Num ateliê de sonhos e com duas passagens em mãos, ela me deixou por momentos de alegria. 

Então, eu me pergunto, quem é que troca um amor por momentos? Como alguém pode ser tão cruel e largar tudo para viajar, sem deixar notícias? Sem cartões-postais? Sem nem ao menos uma mensagem na caixa postal... 

Zézim, eu já sei. Vais me dizer: “acorda, rapaz bobo! Ela não te amara”. As pessoas simplesmente não se interessam tanto às vezes, não é? Elas não têm a intenção de nos conquistar, não almejam casar-se e ter filhos, querem, sei lá, viver uma vida sem esperas. Elas não calculam o mal que nos causam. Não foi intencional, certo? Foi sem querer que ela me machucou. Fui eu, na realidade, que me deixei levar. Que acreditei em palavras que não eram promessas, que criei realidades, que sonhei tão alto... 

Mas, Zézim, quando é que vai chegar a pessoa que vai tirá-la daqui de dentro? Preciso esquecê-la, preciso deixá-la para lá e percorrer novos trajetos. Quero viver, amigo. Quero ser livre desses sentimentos ruins e manter-me leve. Quero ser ela. Quero ser aquela mulher que todos desejam, sem conhecê-la e que, nem eu, que convivi por vinte anos, a conheci. 

Quero voltar a ter quinze anos, Zézim. Quero rejeitar essa cobrança com espelhos e quero deixar meu amor ir, sem lágrimas. Quero ser forte como falam que aquela mulher é. – Zézim, eu quero sê-la. – E quero que, ao completar meu desejo, ela tenha orgulho de mim. Eu sei, Zézim... Eu sei... Sou menino bobo. Quem se importa com quem partiu o seu coração? É que, não sei, meu amigo. Eu acredito que um dia, cara-a-cara, ela resolva ficar. Por descuido ou poesia, ela talvez permaneça.

quinta-feira, setembro 18, 2014

18 de 09

45 lições que a vida ensinou 
Para compreensão da publicação anterior.

Escrito por Regina Brett, publicada na coluna do The Plain Dealer, Cleveland, Ohio, na celebração de seu 90º aniversário. 

"1. A vida não é justa, mas ainda é boa. 
2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno . 
3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém. 
4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato. 
5. Pague mensalmente seus cartões de crédito. 
6. Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar. 
7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho. 
8. Pode ficar bravo com Deus. Ele suporta isso. 
9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário. 
10. Quanto a chocolate, é inútil resistir. 
11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente. 
12. É bom deixar suas crianças verem que você chora. 
13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles. 
14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.
15. Tudo pode mudar num piscar de olhos Mas não se preocupe; Deus nunca pisca. 
16. Respire fundo. Isso acalma a mente. 
17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.
18. Qualquer coisa que não o matar o tornará realmente mais forte. 
19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais. 
20. Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um não como resposta. 
21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.
22. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo.
23. Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.
24. O órgão sexual mais importante é o cérebro. 
25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você.. 
26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras 'Em cinco anos, isto importará?' 
27. Sempre escolha a vida. 
28. Perdoe tudo de todo mundo. 
29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta. 
30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo.. 
31. Não importa quão boa ou ruim é uma situação, ela mudará. 
32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso. 
33. Acredite em milagres. 
34. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez. 
35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite-a ao máximo agora. 
36. Envelhecer ganha da alternativa -- morrer jovem. 
37. Suas crianças têm apenas uma infância. 
38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou. 
39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares. 
40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta. 
41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa. 
42. O melhor ainda está por vir.
43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça. 
44. Produza! 
45. A vida não está amarrada com um laço, mas ainda é um presente.”

EU PREFIRO SER...

“Fitou-me cuidadosamente e proferiu: “Rapaz, rapaz. Mente vazia é oficina da tentação. O homem que não trabalha, não se cria, continua sendo menino. O tempo livre quando nos é muito, nos atormenta em ciúmes, em vaidades, em luxúrias. É necessário muito caráter e força para resistir as tentações quando não ocupamos a nossa mente. Ocupa-se. Trabalhe muito. Trabalhe até sentir-se cansado. Nós, os velhos, sabemos que a mente que se mantém ocupada, padece com maior lentidão.”.”. 



Uma das mais brilhantes coisas que já li, foram as 45 lições escritas por Regina Brett, publicada na coluna do The Plain Dealer, na celebração do seu 90º aniversário. É claro que foram as 45 enumerações que ela viveu, e muito provavelmente, quando atingir esta idade, faça uma lista diferente. No entanto, o que me fascina em suas preleções é um item polêmico: “pode ficar bravo com Deus. Ele supera isso”. Sim! Você pode! Você pode às vezes desconfiar da sua crença, seja lá como Deus for verdadeiramente em imagem e maneiras, Ele aguenta e entende. 

O ser humano entende uma parcela da vida quando aceita que não é especial. Todos estamos sujeitos ao sofrimento e são justamente essas fases de difícil superação que nos faz sermos quem somos. Temos que passar essa etapa de perder tudo, inclusive a fé, para nos reerguermos. Temos que desafiar ao máximo a nossa força para podermos compreender que, sim, tudo passará. São poucas as frases mais inteligentes do que “nada é para sempre”. Porque nada, nem o nosso corpo, dura intacto e perfeito durante toda a vida, e, um dia, ele perde o que chamamos de vida. 

Quando tudo desaba, nós caímos na tentação de nos questionarmos: “Por que isso aconteceu comigo?”. Por quê, se eu sempre fui tão honesto, se não faço mal a ninguém, se vou a igreja todos os domingos pela manhã? Não há motivos. Temos que aprender a aceitar a maneira com que as nossas vidas caminham. Se procurarmos por aí, há uma imensidão de pessoas que também perderam filhos, casas, sofreram enfermidades, e, continuam sendo pessoas boas, integras e que não eram merecedoras de tanto sofrimento. Repito: Não somos especiais, todos estamos sujeitos aos acontecimentos trágicos e só entenderemos uma parcela da vida quando aceitarmos isso e conseguirmos continuar [sobre]vivendo. 

Meu pai, homem de tremenda e admirável força, que me criou para tomar decisões importantes e sentar à mesa dos negócios para intermediar qualquer trabalho como uma grande negociação, disse-me, certa vez, que nós devemos impor um prazo para a nossa recuperação após uma queda. 48 horas. “Tu tens 48 horas para sofrer, depois disso tens que respirar fundo, levantar a cabeça e se reconstruir. São 48 horas porque tu és jovens, para mim, me dou oito.”. 

 Foi meu pai que me ensinou a não remoer o passado, a não ficar me perguntando os motivos, mas a aprender como o tempo é urgente. Não existe destinos, não haverá “deixa ser o que for”, quando nos dermos conta, a vida já foi, as pessoas já foram, e, nós, continuamos aqui. Não se pode esperar que o tempo arrume a bagunça e coloque as coisas no lugar, somos nós que comandamos a nossa vida. A única coisa que podemos fazer é tomar uma atitude nesse momento para que aquela pessoa fique, aquele trabalho dê certo, aquele livro seja lido. 

Nem a Bíblia nos promete destinos, quem dirá livros de auto ajuda. Ah! A Sagrada Bíblia! O livro mais importante já escrito, você acreditando nele, ou, mesmo tendo fé de que foi a invenção para controlar toda a humanidade, para nos colocar medo. Encontro pessoas por aí que se dizem ateus e nunca abriram o livro sagrado. Se não conheces, como não acreditas? É talvez a maior ignorância do ser humano não acreditar em algo, mesmo que as crenças sejam distintas, é importante ter fé para sobreviver. 

É importante acreditar que o que eu faço hoje é reflexo do amanhã. São esses ditados, essas balelas que todos falam, que devem ser analisadas. Por exemplo, “eu não me arrependo de nada”. Se não te arrependes, então tu nunca erras? O não errar é um grande erro. Todos erramos. E apenas quando há o arrependimento é que há o aprendizado. O erro é válido, meu amigo. Arrepender-se é mais. 

Me arrependo de não ter aproveitado mais aquele amigo que hoje faz tanta falta, de ter sido tão dura com as pessoas e comigo mesma, de me preocupar severamente se iria decepcionar aos outros e, assim, decepcionar a mim mesma. São com esses tapas na cara que estou aprendendo a ser mais leve, a domar minhas vontades e a fazê-las, a respeitar ao outro e a mim. Porque o egoísmo demasiado é horrível, mas a falta dele é intolerável. – Sem esperas, sem destinos, errando... amando... sobreviva! 

Porque, talvez, aquela velha opinião não fosse tão errada assim... 

sexta-feira, agosto 29, 2014

A2


"(...) Tenho períodos de produzir intensamente e tenho períodos-hiatos em que a vida fica intolerável." 

D'AQUI DE DENTRO

“Se nos jogássemos naquela poça-de-lama e fizéssemos todos os rituais de beleza que o mundo implorara, ainda assim estaríamos sujos de barro. O que quero dizer, é que, apesar das roupas caras e sotaque inglês, no fundo, todos nós estamos sujos. Todos estamos fora daquilo que realmente queremos. Estamos à mercê dos padrões que anseiam e eu não tenho orgulho dessa vida.” 

Foto: instagram.com/elizabethmessina

Vomitou um discurso sobre aquela moça que me deu a sensação de que eu estava sendo agredida. “Ela não passa de uma vagabunda!” e me olhara esperando a minha concordância. Não. Eu não concordara. Eu não aceitara a ideia de que aquelas pessoas sentadas naquela mesa que custara mais de um salário de uma família brasileira, poderiam estar julgando uma pessoa porque ela fizera sexo.

Mergulhei na minha raiva, respirei fundo e soltei meu desabafo sem esperar que eles me entendessem: “Talvez ela possua um coração melhor do que o de vocês.”. Ele me cutucou por debaixo da mesa, e disse: “Querida, não seja tão hostil.”. Hostil provavelmente fosse a palavra que melhor descrevesse aquele momento.

Eu apenas continuei: “Talvez ela apenas não se preocupe com os padrões estabelecidos por uma sociedade bíblica do que é certo ou errado. Talvez, no final de cada dia, ela doe mais amor e solidariedade do que as pessoas que frequentam a igreja devotamente. Talvez seja mais honesta do que o marido, pai de família, que vem ao bordel trair sua esposa e depois aponta o dedo para julgar à mulher que lhe deu prazer. Talvez nós sejamos uma população de hipócritas e ela não queira fazer parte disso. Acho apenas que ela tem uma vida mais real do que a nossa.”. Levantei, peguei meu casaco e deixei o restaurante. Não me recordo se eles comentaram algo ou, talvez, eu não tenha prestado tanta atenção assim. 

Minutos após fechar a porta de minha casa, a campainha tocou. Era José. Atônito, tocara a campainha sem parar. Eu estava repleta e consumida pela raiva. Não poderia crer na ideia de que ele era tão mesquinho. Abri a porta na prontidão de lhe dar uns tabefes, mas, de repente, eu lhe vi. Vi seus olhos de menino que não entendia nada sobre a vida. Me lembrei de que aquela altura eu já estaria apaixonada. Deixei os “nãos” de lado e o abracei. Resolvi que se eu consegui amá-lo, conseguiria mostrar a ele que a vida era muito mais que um prato de lagosta a beira-mar. 

O primeiro ensinamento que pude compartilhar com o meu amado José foi o perdão. Quem se cria na rua, mesmo que tenha família o esperando para o jantar no fim do dia, aprende que o perdão é fundamental. Não só porque estamos sujeitos ao erro e a ter que nos desculpar constantemente, mas também pois perdoar nos causa paz. Tira um peso das costas que não temos a necessidade de carregar. Perdoar José, pelas crenças que obteve em sua família de classe A, foi um dos maiores desafios que eu enfrentei. No entanto, foi tão rápido quanto ferver água. 

Não éramos namorados. Não estávamos noivos, nem eu fora sua amante. José era um jovem de família rica que se formou em medicina e que me conheceu em um balcão de bar, dormimos na primeira noite. Muitas moças daquela época teriam esperado um mês ou dois para conhecer a sua casa, mas eu estava curiosa para saber se ele era ou não o homem da minha vida. Era. E eu soube disso naquela mesma ocasião, enquanto ele dormira no seu travesseiro de penas e eu o observara calmamente. 

Nós nos víamos repetidamente, todos os dias, a nossa rotina era estarmos juntos. Não era bem uma história de amor tradicional. Ele era um rapaz bonzinho que precisara ser sacudido. Eu era uma menina criada na religião do “coma com a boca fechada, agradeça e peça desculpas”, que levara a vida com certa malícia e diversão. Não andávamos de mãos-dadas e nem costumávamos sair juntos, nas raras ocasiões que tentamos trazer um para o mundo do outro, dava sempre tudo muito errado. Não éramos para ser, mas éramos. Então, ele vivera a vida dele, eu a minha e, no fim da noite, a campainha sempre tocara. 

Aos poucos, todas as boas-maneiras de José foram substituídas pela realidade com que eu conduzira meus passos. Ele não visitara mais seus amigos fresquinhos, tinha na cabeceira da cama os livros que eu indicara, sorria e ria, gargalhava, dos meus desajustes e piadas, adorava quando eu aparecia de surpresa no seu consultório e fazíamos da sua mesa cheia de instrumentos, que eu não sei para quê os médicos utilizam, o nosso ninho. Nós não tínhamos regras. E isso era adorável. 

Quando aceitamos que o outro pode nos transformar e mergulhamos de cabeça na piscina de água fria, sem que antes nos preocupemos em medir a temperatura, não é só amor. É um dos mais saudosos milagres que Deus pode nos conceder: estar ali, sem horários agendados ou planos para o futuro, com alguém que nos faz ser melhor

Sem limites invisíveis, não sentiremos vontade de ultrapassá-los. Nós só almejados estar ali. Ali. Ali naquele trabalho, ali naquela mesa escrevendo algo, ali naquele telefone vendendo a mercadoria, ali naquela sala atendendo o cliente, ali ao lado daquela companhia. Nós trabalhamos, aos pouquinhos, as nossas vontades e fazemos delas o nosso aconchego. 

O nosso lar recebe o nosso jeito e, lá fora, os outros jeitos não nos dizem nada. A grande barreira da vida é construir nosso lar sem influências do que os outros querem ver. Às vezes eu não vá utilizar muito aquela escada e uma casa de um só andar seja muito mais confortável. Sem dramas. Sejamos simples. Quero que José entre sem alarmes e acredite que aqui dentro pode ser um lugar mais bonito.

domingo, agosto 24, 2014

A1

“Acho que você tem que enfiar a cara na lama, de vez em quando, acho que você tem que saber o que é uma prisão, o que é um hospital. Acho que você tem que saber o que é ficar sem comer por quatro ou cinco dias. Acho que viver com mulheres loucas faz bem para a espinha. Acho que você pode escrever com satisfação e liberdade depois de passar pelo aperto. Só digo isso porque todos os poetas que conheci têm sido uns frouxos, uns parasitas. Não tinham nada pra escrever, exceto sua egoísta falta de persistência.”

  Charles Bukowski

INSISTIR EM MIM

"Tolerando todo o exibicionismo exagerado daquele cara, ela engoliu seco as palavras que havia ensaiado em frente ao espelho e entendeu que ali não era o seu lugar. Às vezes nós só precisamos entender que não nos encaixamos ao mundo de quem nos interessamos, pedir outra bebida e voltar para casa."



Precisamos de velocidade nos pés para correr e lutar por um amor. Ah! Quanta beleza existe numa guerra quando ela é traçada pela vontade de estar ao lado de alguém! Mas até que ponto a batalha é válida? Será que todas as vezes que lutamos por alguém, nós não estamos, na verdade, insistindo? 

Há uma imensidão de diferenças entre as palavras "lutar" e "insistir" quando a matéria tratada é o amor. Lutar é entrar numa guerra onde os dois lados estão dispostos a ganhar algo, mesmo que muitas vezes os objetivos sejam contraditórios. Insistir é persistir numa batalha que já terminou e que, provavelmente, nós já perdemos. 

O grande problema daqueles que sofrem por um amor é que eles costumam insistir. Acreditam demasiadamente na ideia de que o companheiro é único. Fecham os olhos para novas oportunidades e se prendem ao egoísmo de não aceitar a derrota. Não é o amor que machuca, é o orgulho ferido. 

Acredito que, em todas as áreas de nossa vida, o orgulho é prejudicial. Temos que aceitar a perda, no entanto, não precisamos desistir de todo o resto. É preciso levantar a cabeça e recomeçar. O luto da perda já foi incrivelmente calculado pelo homem pelo lapso de apenas sete dias, depois disso, é necessário esquecer e continuar.

Eu, porém, não respeito os sete dias de luto. Eu me espelho no tempo que não para, e, não paro. Visto outra roupa, peço um Cosmopolitan e observo os lados. Porque nós acreditamos que olhar para frente é o segredo, mas são os lados que guardam as surpresas. 

Vivemos anos e anos de nossas vidas e poderemos viver mais anos e anos, mesmo que longe da pessoa amada. Apesar de poético, nós não iremos amar uma única vez nessa vida. Nós devemos colocar na balança "o que queremos" contra "o que nos faz bem". Será que é necessário engolir a seco o que nos faz mal para termos apenas o que queremos? O preço da insistência é confundir o que nos faz bem com o que está nos matando.

O ser humano costuma aceitar o amor que acha que merece, porém ele sempre aceita menos. Devemos nos olhar a fundo e enxergar todas as nossas qualidades para notarmos que merecemos e aguentamos batalhas maiores. Precisamos ter fé.

Fé de que existem bilhões de pessoas no mundo, fé de que hoje não é o último dia de nossas vidas, fé de que nós iremos superar esse período mesmo que estejamos sós, fé de que encontraremos alguém que não precisaremos insistir, e, talvez, nem lutar. É preciso ter fé no que, agora, parece impossível.

Que a nossa batalha seja para encontrar a fé em nós mesmos e que possamos abandonar a crença de que sozinhos seremos fracos, porque se tem algo que eu aprendi nesses anos de solidão, é que só poderemos saber o tamanho da nossa força se não tivermos onde nos apoiar. E, ainda assim, todo esse tempo, eu me apoiei em minha esperança.

quinta-feira, julho 03, 2014

JULHO, I

"Deve ser porque sou do tipo que mete a cara. Que mergulha, se afoga, se fere e se recompõe – mas não deixa de ser quem é nem por um minuto. Porque prefere ser julgada a ter que se omitir. É por isso que eu gosto de quem se mostra inteiro e permite que eu faça o mesmo. Não me surpreende, também, que este adorado adjetivo – que não saiu da minha cabeça por dias, não sossegou até ser despejado no papel – seja considerado uma patologia, seja empregado pejorativamente. Seja confundido, comumente, com tagarelice. Dane-se, eu amo mesmo assim – aliás, tudo o que amo nesta vida tem um quê de loucura e esquisitice. Sem tentar, nem por um minuto, ser técnica – até por que a minha posição não me exige isto – arrisco dizer que os verborrágicos são diferentes dos tagarelas, e diferentes pra melhor, por assim dizer: não me refiro ao que fala sem parar, sem filtro e sem bom senso. Não. O verborrágico fala muito e fala o necessário. Fala o que sente, o que pensa, o que o outro precisa ouvir. Fala com os instintos e com o coração. O verborrágico ao qual me refiro é aquele que não tem medo de se cuspir pela boca. De dar vazão à alma através dos verbos. É o que te abraça com dezenas de sílabas. É quem não tem medo de se traduzir. É o que se dá ao luxo de se mostrar em um mundo em que cada palavra pesa contra você. Que me perdoem os monossilábicos, mas eu gosto é de quem se expressa."

Nathalí Macedo em "A verborragia e o meu apreço por pessoas que se mostram por inteiro", Entenda Os Homens