Respeite o tempo. Possivelmente eu mudei de opinião.

quinta-feira, setembro 12, 2013

11/2013

Depois de meses sem publicar algo no blog,
e depois de tantas promessas de retomá-lo...
Uma publicação.

"Ele é tudo o que eu sempre quis. Um rapaz novo, 34 anos, educado, inteligente, gentil, aparentemente honesto e cavalheiro. O homem ideal para me acompanhar, para estar ao meu lado. Mas ninguém fica com o que sempre quis. É preciso impressionar o que nós sempre desejamos. Nos invetamos, mentimos, fingimos ser aquilo que não somos para ter o nosso "homem certo". E deixamos de lado o essencial: gostar daquilo. A gente gosta é de quem não foi feito para nós, ou melhor, de quem a gente não planejou. Gostamos da pessoa que nos conhece da maneira que nós somos só pelo fato de não tentarmos conquistá-la. A conquista é primordial, sim senhor. Mas o amor não a necessita. O amor acontece quando somos nós mesmos e o outro também. Sem máscaras, sem impressionismos, sem fantasias. Só por ser. Natural, verdadeiro, instigante e doloroso. Porque dói sermos honestos. É simples e bonito, acredite. – O copo está vazio? Deixe-o vazio até que se complete de nada. De nada." 

 A.M.D.M.

LIVRAI DO MAL AQUELES QUE BUSCAM O BEM

Deus não castiga os errados, Senhor. Deus apenas não interfere no mal daquele que o plantou. A oração explica: “livrai-nos do mal, amém”. Deus não livra o mal daqueles que buscaram os caminhos fáceis. – Senhor, todos nós estamos sujeitos aos desvios, aos acidentes, às tragédias, à perder, mas aqueles que vivem em paz, Deus livra, Deus interdita, Deus age.

Volto a escrever que a vida que Deus nos deu é nossa, não dele. Não seria justo Deus nos colocar nesta terra e mandar no nosso caminho. Não há destinos. Não há histórias escritas. Somos nós que plantamos as sementes e colhemos os frutos. O poder da mudança está em nossas mãos. O perdão, a solidariedade, o amor foram feitos para que nós usássemos, e não Deus. Deus não precisa de palavras mágicas.

Mas o que é Deus? Deus não é aquela figura enorme que nós devemos ter medo. Deus é a mãe que trabalha todos os dias para sustentar os filhos, Deus é a comida que o pai leva à mesa, Deus é o rapaz que visita os enfermos toda a semana, Deus é a filha que cuida dos pais envelhecidos e doentes. Deus são os atos de bondade, Senhor. Deus é o milagre. 

Mas como acreditar em algo que não existe? Senhor, eu respeito a sua inteligência. Respeito os caminhos que já percorreu. Respeito todos os estudos, conceitos, explicações. Mas não respeito a sua falta de fé. O mundo, Senhor. Precisa de pessoas que acreditam em algo e, por isso, são generosas. O mundo não precisa de pessoas arrogantes que negam a existência de um criador. A humanidade seria melhor se todos tivessem fé, se agissem com amor, se tivessem compaixão pelo próximo, se vivessem em paz. 

Você pode negar que Deus existe, você só não pode viver com isso para sempre. Há sempre um momento que todos nós precisamos da fé daqueles que acreditam. Há períodos de tristeza que qualquer pessoa procuraria Deus, mesmo sem crença. Porque quem não tem fé, não pode amar. E quem não pode amar, pode perder pessoas. E eu, – que acredito em tudo – , não acredito que exista alguém preparado para perder. 

Repito: Todos nós estamos sujeitos às tragédias, mas Deus livra aqueles que são bons. Deus não castiga os errados, Deus abençoa quem tem amor no coração. O Deus que eles acreditam está dentro de você. Busque-o.

sábado, março 16, 2013

75 de 365

"Depois de tantas buscas, encontros, desencontros, acho que a minha mais sincera intenção é me sentir confortável, o máximo que eu puder, estando na minha própria pele. É me sentir confortável, mesmo acessando, vez ou outra, lugares da memória que eu adoraria que fossem inacessíveis, tristezas que não cicatrizaram, padrões que eu ainda não soube transformar, embora continue me empenhando para conseguir." 

 Ana Cláudia Saldanha Jácomo, 1990

O AMOR

 Anota:
 O amor é o agradecimento.

Querido amigo, 
que ainda sofro a falta dela é fato de pura verdade e sem exageros. Perder o amor é como perder a vida. A saudade é o ponto final do amor. Somente quando o amor não pode mais ser vivido é que a saudade entra em cena. A única contradição é que a saudade nunca é um ponto final, é sempre uma reticência. 
Eu entendo que aquele que nos criou quer de nós poucas coisas. A continuidade do amor é uma delas. Continuar o amor é terminar as mágoas, é correr o risco, é não apagar a simpatia pela vida. Ainda que o término tenha sido doloroso, é de caráter bom aquele que consegue deixar o bem-estar do amor prevalecer. O amor exige que o fim não celebre o ódio e a amargura. 
Catarina me deixou faz tanto tempo que tenho que lhe confessar algo: hoje, não posso mais vê-la em minha vida. É como se não houvesse mais espaço para ela, não porque não a amo mais, mas porque a continuação após sua morte me trouxe benefícios. É claro que eu gostaria que ela pudesse ver o que me tornei, pois tenho a certeza de que iria se orgulhar do homem que sou. No entanto, sei que muito do meu processo de transformação é devido a sua partida. 
Não que a sua ida não tenha me causado dor. Pelo contrário, a maior tristeza de minha vida foi perder minha bem amada. Mas a superação, a persistência em prosseguir e a maturidade como consequência, foi-me um presente. Um homem sabe o quanto é bonito estar vivo após um naufrágio. Eu, que sempre duvidei do destino, às vezes acredito que era o meu destino passar por tudo que passei. 
É então que entendo o amor não como a parte física, e, sim, como a parte espiritual. A parte que fica, mesmo que tudo se vá. A parte que persiste mesmo que não haja motivos. A parte inacabável que já teve um fim. O sentimento mais poderoso que um homem pode possuir. Algo que, muitas vezes, é assustador. E, sobretudo, tem beleza inigualável. O amor é para sempre. 
E o “sempre” é tão perigoso! Mas veja bem, – tu –, meu amigo, consegues ver a tua vida sem os amores que amou? Sei bem que já tiveste umas três ou quatro namoradas... Consegues te imaginar sem elas? É que mesmo que não tenham sido amor, aquele amor, elas fizeram parte de ti. Elas levam um cantinho do teu coração. Elas lhe construíram e lapidaram. Foi o amor delas que fez cada partezinha do seu corpo, do seu mundo, da sua história. Porque é o amor que nos faz. – E ainda que não façam mais parte do teu cotidiano, elas fazem parte do teu amor. 
Por isso é que é impossível deixar de amar. O “desamor” não existe. O tempo se vai, a vida se altera, nós nos tornamos outras pessoas, mas aquele amor é para sempre. Ele vive naquele pedaço da nossa história que nós deixamos para trás. É presente na saudade do tempo em que éramos jovens e sem preocupações. É eterno. É lembrado nos reencontros e suspiros da lembrança. Não acaba; porque se acaba, não era amor.
Amor, qualquer tipo de amor. É para sempre. O amor de minha falecida mãe, de meu falecido pai, de minha falecida nora, de meus filhos, de meus netos e, o amor de minha vida, minha eterna Catarina. Não possui fim. Faz parte da trajetória do meu ser. Ocupa as arestas do meu coração. E me enche de saudades. 
É... Catarina... sim, Catarina. Que tantos nomes já levou! Que está presente nas mais doces palavras de minha literatura. Que me escuta em seu silêncio eterno e que tem de mim o que ninguém mais terá: aquele tempo de amor. Amor ingênuo e juvenil, bonito, cheio de fé, que me garantiu inúmeros parágrafos de versos coloridos e que me trouxe o perfume das flores com olhos cheios d’água. É Catarina de Chico, dos velhos tempos, da velha guarda, daquela bossa nova. É Catarina, de Chico, de amor. 
Ah! Meu velho amigo! Já paraste para pensar quantas histórias o amor já criou? Inúmeras, meu caro. Inúmeras! Histórias lindas, algumas de certa tristeza, mas todas com o mesmo objetivo: enviar amor. Enviar amor é tão generoso. Os poetas, músicos, compositores, cantores, atores e todos aqueles envolvidos nesta arte de interpretar, sabem bem o que é enviar amor. 
Enviar amor na música, na palavra, na melodia, num olhar. Sabia que há pessoas que se alimentam disso? Desse amor que é enviado? É sim, meu amigo. Certa vez, conheci uma senhora, em um hospital, que se alimentara do amor que era enviado à ela por meio das histórias que lera. Não teve filhos, nem marido, poucos amigos, mais muito amor. Amor nas linhas daquelas palavras. Amor forte e esperançoso. 
Também há aqueles que se alimentam do amor da fé, do criador, da vida. E aqueles que se alimentam do amor enamorado de poder ter alguém com quem compartilhar os domingos. Benditos sejam aqueles que podem ter com quem dividir a cama nos dias chuvosos. Pois bem sabemos o quão é difícil nos aquecermos com o cobertor e não com o calor da pessoa amada. 
E, finalmente, o amor é o agradecimento. Sou profundamente grato por todo o amor que Catarina me enviou e por todo o amor que ela permitiu que eu a enviasse. A gratidão é fundamental diante do amor. Só podemos amar aqueles que nós podemos agradecer algo. Eu agradeço Catarina por toda a minha vida. E agradeço também aos meus pais, filhos e amigos. 
Agradeço a você, meu amigo, por me deixar enviar amor diante dessas correspondências. Agradeço por sua amizade. E agradeço pelo seu amor. Obrigado. Obrigado por ocupar uma aresta de meu coração. 
Peço apenas que você possa agradecer a todos que preenchem o vosso coração de maneira singela e ainda bonita. E que toda esta gratidão se torne o objetivo de todo o processo: a paz. Porque amor, meu amigo, é sentir-se em paz. 

Com muito amor, 
Chico.

segunda-feira, março 11, 2013

70 de 365

"Aquele que conhece os outros é sábio, 
Aquele que conhece a si mesmo é iluminado. 
Aquele que vence os outros é forte, 
Aquele que vence a si mesmo é poderoso. 
Aquele que conhece a alegria é rico, 
Aquele que conserva o seu caminho tem vontade. 

Seja humilde, e permanecerás íntegro. 
Curva-te, e permanecerás ereto. 
Esvazia-te, e permanecerás repleto. 
Gasta-te, e permanecerás novo. 

O sábio não se exibe, e por isso brilha. 
Ele não se faz notar, e por isso é notado.
Ele não se elogia, e por isso tem mérito. 
E, porque não está competindo, 
ninguém no mundo pode competir com ele." 

Lao Tsé, Tao Te Ching

A MATURIDADE

Anota:
A maturidade exige o nosso bem estar.

Querido amigo,
tens razão. A parte mais encantadora é desconhecer. O tempo, a fé, as mudanças e os acontecimentos da vida, como a morte, podem nos trazer um dos benefícios mais belos que a existência nos permite: a maturidade. Tornar-se maduro é um processo longo e, muitas vezes, doloroso. É preciso coragem para perder velhos hábitos, palavreado e limitações. A maturidade não necessita que sejamos mais sérios. Amadurecer é desapegar.
Há coisas que não me preocupam mais. Quando era jovem, eu achara que precisara me impor. Tinha sede em ser admirado. Eu tivera fé que para me mostrar inteligente, eu precisara apontar defeitos. E que sendo um observador eu pudera ser superior às pessoas que eu rotulara como “tolas”. Tolo era eu. As minhas observações eram, em realidade, olhos cegos. Eu fizera as comparações erradas. Eu lutara por igualdade, porém os caminhos eram desiguais. Não é boa pessoa aquela que precisa demonstrar a sua sabedoria. Os sábios não desejam se destacar e, por isso, se destacam.
Perdi. Perdi a preocupação com pessoas que não seguem as mesmas regras que eu. A aceitação de costumes e pensamentos é o primeiro passo para amadurecer. O segundo passo é poder gostar de alguém pela maneira com que nos trata e não pela maneira com que anda. Catarina me tratara bem... Ah! Como Catarina tivera uma importância enorme em meu processo de amadurecimento! O amor, meu querido, tem o poder de acelerar todo o processo.
Todas as tardes, antes da novela, eu caminho pela cidade. E, ontem, durante o meu exercício, escutei uma jovem falando sobre o reality show global, Big Brother Brasil. Me chamou atenção porque quando tivera a idade da moça, eu era igual: crítico. Crítico com as coisas erradas. Assistir um programa de televisão não lhe torna mais burro, nem mais inteligente. São poucas coisas na vida que podem lhe trazer sabedoria, uma delas, é a experiência. Assistir não é aprender. Por isso o erro é tão importante. O erro é o instrumento que podemos utilizar para que possamos nos entender, nos modificar, prosseguir.
Eu criticara o carnaval, a música, as pessoas que usavam roupas coloridas e tinham comportamento exagerado, no entanto, hoje não posso mais fazê-lo. Há criticas que não precisam ser expostas, pois delas nada será construído.
Discutir sobre política é necessário, arrumar briga pelo comentário sobre o futebol da quarta-feira é fútil. Assistir um filme pode ser divertido, ler um livro pode ser confortável, falar palavrões pode ser normal, mas o julgamento não é peça fundamental da maturidade.
A maturidade nos permite a despreocupação com gestos bobos. Já não faz mais sentido sair arrumado todos os dias para comprar pão. Hoje, por exemplo, só penteio o cabelo quando possuo vontade. Os copos sujos da pia são limpos sem reclamações. A naturalidade das coisas é nítida. O amor é sério. As pessoas que não me tranquilizam, foram deixadas de lado. E os compromissos são firmados com cautela.
No entanto, este é um trecho perigoso. A maturidade não é comodismo, como pode parecer nesta carta. A maturidade é focar-se nas coisas certas. É força e aceitação. É despreocupar-se com a superfície a aprofundar a vida em nossos objetivos. O trabalho é a ferramenta fundamental do nosso amadurecimento.
Somente o trabalho pode nos trazer o mérito. É o trabalho que conduz o homem a tornar-se melhor. O sacrifício é que pode orgulhar alguém por não ter desistido na parte dolorosa da caminhada. A beleza dos acontecimentos está no entendimento de que os obstáculos fazem parte do processo. Aceitar e entregar-se a vida está muito próximo do final da corrida.  
O segredo é não deixar que o cérebro envelheça. Fazer contas, trabalhar, praticar exercícios, manter-se disposto, nos alimentar bem, escutar música e poder sorrir, são formas de evitar a morbidez cerebral. A maturidade exige o nosso bem estar.
Ser maduro não possui relação com o envelhecimento. Eu mesmo, meu amigo, tenho corpo de sessenta e mente de mil anos. A questão é: desenvolver a mente mais que o próprio Einstein.

Como fruto maduro,
Chico.

quarta-feira, janeiro 23, 2013

23 de 365


"Não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora. Mas passa... E que interessa o castigo ou o prêmio? (...). Tudo muda tanto que a pessoa que pecou na véspera já não é a mesma a ser punida no dia seguinte."

Lygia Fagundes Telles

A MORTE


Anota:
A morte é um destino.

Querido amigo,
Cá estou novamente. Mas hoje não me encontro preso em emoções e temo que minha correspondência não mereça o valor de sua última carta. – Estou vazio. – Há dias em que nem as palavras podem me fazer companhia. Não sou um homem de muitos amigos, você sabe. A minha solidão é minha maior companheira. A poeta traduziu: “Amo poucos, mas os poucos que amo, eu amo muito.”. Amo a minha solidão.
Sim, meu querido. Minha nora faleceu há quatro anos. Elias ainda é um tanto apreensivo com a sua perda, mas creio que já se encontra mais forte. Quando tudo aconteceu, senti o medo apavorante de que meu filho não fosse aguentar a dor de perder sua bem amada. Se isolou, procurou rituais e espiritismo, não recebia as minhas visitas, não atendia as minhas ligações, amou a sua solidão. Eu, como pai e como escritor, tivera receio de recriminar as suas atitudes, afinal ele só estava seguindo o meu exemplo. Sempre guardei a dor dentro de mim para poder pincelá-la em letras, porém Elias não soubera o que era dar nome a tristeza.
Sabe, meu querido, quando alguém que nos é próximo morre, temos que deixar aquela pessoa ir. Se ficarmos procurando respostas, remoendo a raiva da perda, tentando decifrar os acontecimentos, nós roubamos a paz da pessoa que nos deixou. O mesmo deve fazer a pessoa que se vai, para onde quer que se vá, ela deve deixar as pessoas que ficam continuarem. São dois lados que se equilibram.
Eu vira Elias tirar o sossego de sua bem amada. Creio que a morte seja mais complexa quando separa duas pessoas que têm uma ligação tão forte como eles tiveram. Tudo o que Elias sofrera, Clara sofrera também. Eu conseguira enxergar a dor que ele causara a sua falecida esposa.
Em uma manhã de domingo recebi um cartão postal de Karina, minha afilhada. Nem me lembrara mais que esses cartões existiam. E, como num passe de mágica, me veio a ideia de escrever a Elias. Comecei a enviar cartas. As primeiras, eu confesso, que remeti sem muito entusiasmo, porque conheço o coração duro de meu filho. Usei de minha experiência como autor e inventei um personagem, escrevi mundos, dei conselhos, abusei das estrelinhas e soube que Elias teria faro para entender tudo o que eu escrevera. Ele é um ótimo revisor de textos. O entusiasmo das cartas veio a partir da primeira resposta: “Quem é você?”. Pena que não herdou a curiosidade do pai.
Fiz com que Elias entendesse que não era um pecado viver o luto. Ele deveria chorar aquela dor. Mas não havia mal algum em continuar. Muitas vezes, em suas respostas, eu percebera que Elias tinha receio de perder definitivamente a presença da esposa. Sabe, nós nunca perdemos definitivamente a presença de quem amamos. A pessoa sempre estará guardada no cantinho de nossos corações. E, mesmo a morte, não pode levar isto da gente.
A morte é o processo que separa as partes físicas. Eu não sei se poderei reencontrar Catarina. No entanto, eu sei que a minha vida não teria o valor que tem se eu não pudesse ter tido a oportunidade de conviver com aquela mulher maravilhosa. Agradeço ao nosso Criador por ter me dado a chance de conhecê-la. Eu tive que confortar a minha dor, por muitos anos, imaginando que ela ainda estava ali. Lembro que a minha avó fizera o mesmo quando perdera o meu avô. Escutara meus tios falarem sobre  ela estar ficando doente por causa da morte de meu avô e, por isso, falara sozinha. Hoje eu sei que a loucura era só uma maneira de lidar com a tristeza. Fingir que as coisas continuavam iguais para que, de pouco em pouco, pudéssemos nos conformar.
Para os velhos isto é só um ritual. Mas, para os jovens, isto pode ser um sopro de vida. Elias soube entender o que eu queria dizer. Se ele pudesse imaginar Clara ali, ele poderia resolver muitas coisas em sua vida. Era só tirar – como é mesmo que se diz? Ah sim! Isto mesmo! – tirar o “lado bom das coisas”. Elias tomou como impulso todos os objetivos que ele e Clara fizeram: terminar os estudos, viajar, abrir seu próprio negócio, comprar uma casa no bairro mais “bonitinho” da cidade... Ele entendeu que se ela se foi, a culpa não era dele. E que se ele ainda está aqui é porque ele ainda tem muito o que viver neste mundo misterioso.
A morte é mais um mistério do mundo. Não existe pessoa preparada para ela. Há pessoas, como nós, que já vivemos o bastante para aceitá-la. E há pessoas que cometem o erro de pensar que ela não virá. – Como pode algo tão natural ser, ao mesmo tempo, tão triste? – A morte é um destino, meu companheiro. Destinos não levam datas, não exigem horários marcados; Destinos não existem.
Cada um tem a sua maneira de lidar com a perda. Eu, como já disse, tive que continuar o amor que construí com Catarina. E acho que esse é o caminho. Não consigo aceitar a ideia de que a morte seja um motivo para terminar de amar. E, você sabe, quando eu falo sobre “amar”, eu quero dizer “enviar amor”.
Um exercício que eu venho fazendo todas as noites, antes de dormir, é me lembrar das pessoas que eu vi durante o dia e imaginar como seria se elas não estivessem mais aqui. É bonito, porque quando o amanhã chega, eu não posso perder a oportunidade de abraçar aquelas pessoas. Depois eu rezo.
Rezar é uma maneira de preparar o nosso espírito. – Boa semana e que você também saiba encontrar a paz, em vida, é claro.

Com vida,
Chico.

quarta-feira, janeiro 16, 2013

16 de 365

“Foi aí que decidi que precisava fazer alguma coisa. Precisava decidir o que ia fazer e o que ia ser. Estava de pé ali, esperando que alguém fizesse alguma coisa, até perceber que a pessoa que eu estava esperando era eu mesmo.” 

O azarão, Markus Zusak

AS MUDANÇAS


 Anota:
 Você costuma parar para pensar como será daqui a dez anos?
É possível largar tudo sem saber como estaremos ao voltar?

Querido amigo,
fico feliz em saber que está tudo bem com a sua família. Adorei receber fotos dos seus lindos filhos. Junto desta carta mando recordações dos laços que também construí. É bonito ter pessoas que nascem do nosso amor, não é mesmo? Creio que seja uma das razões pelas quais a vida ainda vale a pena.
Às vezes eu me faço promessas estranhas. Prometi que não escreveria mais quando estivesse emocionado. Ah! Que tolice! A emoção é o que nos move, não é? Se o coração não bater um pouquinho mais forte parece que não há a vontade necessária para seguir em frente. É que quando abri o envelope e vi suas fotos, resolvi olhar nossas fotografias de quando éramos jovens. Sabe, sinto falta do entusiasmo que correra em minhas veias quando tivera a idade dos nossos. Queria um dia voltar a correr como antes. É mágica a velocidade de nossas pernas quando temos 19 anos. Às vezes, observo as crianças que estamos educando hoje e me pergunto "como elas podem ficar mais de seis horas sentadas, gastando sua energia, com uma máquina que chamam de computador?". Os jovens não se esticam, não leem, não param para refletir. São tolos e egoístas, criam felicidades falsas e nem ao menos sabem o que é ser alegre. Meu neto recentemente foi internado em uma clínica de reabilitação... Bom, não quero tocar neste assunto. Me dói saber que a educação que dei aos seus pais não foi repassada. Enfim, parece que quando nós éramos jovens, a vida era mais simples, mas era mais bonita.
Desde que a minha amada se fora, penso em ir embora. Mas ir embora requer muita coragem. A tecnologia é a grande responsável por meus medos. Imagino deixar esta casa de paredes verdes, com gramado, árvores e janelas marrons, permanecer fora por dez anos e, ao voltar, encontrar pessoas morando em baixo do solo porque os cientistas descobriram que era mais saudável ou fora a última moda. É amedrontador saber que as coisas mudam muito rápido e que nós não percebemos a mudança. O que nós dois estamos fazendo, trocar cartas, é um exemplo de caretice. Sabe o que eles fazem agora? Trocam torpedos pelo celular. Há um mês o namorado de minha caçula terminou o namoro por uma SMS. Incompreensível. Somos medrosos e, agora, nos escondemos e vivemos conforme a tecnologia. Você costuma parar para pensar como será daqui a dez anos? Os carros? Como serão? É possível largar tudo sem saber como estaremos ao voltar? A tecnologia altera os objetos, meu amigo. E, infelizmente, ela altera as pessoas também.
É por isso que cultivar os detalhes pequenos é importante. A compaixão, o nascer do sol, a corrida no final da tarde, o futebol com os amigos, um bom livro, a boa música, uma boa conversa, pessoas que velam a pena... Tudo o que nos fizer entender o porquê de ainda estarmos aqui. E, a fé. Volto à ela, porque acreditar é o que nos resta. É o que nos exemplifica e nos faz esperar com mais calma por aquele dia.
Sabe, eu vejo o maldito dia se aproximar. Catarina costumara dizer que algumas pessoas já sabem que irão embora mais cedo. Eu sempre soube que o Parkinson iria me roubar as coisas que eu mais adorara. Por isto a urgência, as noites em claro, a bebedeira, o cigarro, o desespero que só me tornou mais fraco, mais tolo. Todas as vezes que uma parte do meu corpo começara a tremer e eu perdera o controle, me sentira vulnerável. Escrever durante um ano foi praticamente impossível. Tenho certeza que quando ler este parágrafo saberá que não estou mentindo. Se lembra que eu sempre tremera? Eu, meu amigo, o escritor. Antes mesmo de fazer os exames, eu já soubera. Quando eu e Catarina estávamos a sós eu costumara a dizer: "Estou tremendo". E ela sempre respondera: "Eu também". Eu tentara avisá-la de que eu previra a morte, mas ela já havia entendido muito antes. Como disse, ela costumara dizer que algumas pessoas já sabem que irão embora mais cedo.
Tremer, às vezes, não é tão ruim. Eu não preciso mais me esforçar para escovar os dentes. É só ficar sem tomar o remédio... Quando minha amada ainda era viva, a parte trêmula, também me era útil. Bem, nem sempre por causa dos remédios. Mas a velhice nos toma isto também.
Não há nada demais em envelhecer. Eu preferira estar certo e ter ido antes, mas há uma longa trajetória a ser percorrida. Eu tivera que acompanhar as mudanças. Tivera que estar aqui para escutar o choro de meus netos ao nascer. E tivera que aconselhar meu filho quando ele perdera minha nora. Não foi fácil para Elias entender a morte.
Ah! A morte! Falaremos disso em nossa próxima correspondência. Saudosas vibrações durante o novo ano e um conselho: compartilhe suas alegrias.

Com os olhos de 19 anos,
Chico.