Respeite o tempo. Possivelmente eu mudei de opinião.

terça-feira, março 25, 2014

III

"Todo mundo acha que pode, acha que é pop, acha que é poeta 
Todo mundo tem razão, vence sempre e na hora certa 
Todo mundo prova sempre pra si mesmo que não há derrota 
Todo homem tem voz grossa e tem pau grande e é maior do que o meu, do que o seu, do que o de todos nós 

Todo mundo é referência e se compara só pra ver que é melhor 
Todo mundo é mais bonito do que eu mas eu sou mais que todos 
Todo mundo tem suingue, é feliz, é forte e sabe sambar 
Todos querem mas não podem admitir a coexistência do orgulho e do amor porque 
Eu sou melhor que você 
Eu sou melhor que você
mas por favor fique comigo que eu não tenho mais ninguém 
Todo mundo diz que sabe e quando diz que não sabe é porque 
é charmoso não saber algo que todas as pessoas já sabem como é 

Todo mundo é original, é especial, é o que todos queriam ser 
Não basta ser inteligente, tem que ser mais do que o outro pra ele te reconhecer 
Todo mundo ganha grana pra dizer que ela não vale nada 
Todo mundo diz que é contra a violência e sempre dá porrada 
Todos querem se apaixonar sem se arriscar, nem se expor e nem sofrer 
Todas querem vida fácil sem ser puta e com reputação se reprimem e começam a dizer 
Eu sou melhor que você 
Mas por favor fique comigo que eu não tenho mais ninguém 

 Todo mundo acha que pode, acha que é pop, acha que é poeta..."

EU SOU MELHOR QUE VOCÊ de MORENO VELOSO

domingo, março 23, 2014

03/2014 II

“Se a gente puder ir devagarinho como precisa, e ninguém gritar com a gente para ir depressa demais, então eu acho que nunca que é pesado…” 

GUIMARÃES ROSA

A COINCIDÊNCIA

Ele é solitário e furioso. Sorri quando ninguém espera, mas o sorriso é tão sombrio que mais parece uma prece. Não fala entrelinhas e não se sente incomodado em parecer assustador. Gosta de dominar. O poder o fascina e, não me perguntem o motivo, mas eu desejo salvá-lo das dores que ele mesmo provoca. Porque, tenho para mim, que o amor é a única coincidência entre os seres humanos.


Chegou derrubando armários e mesas, disse que desejava algo e queria logo, não perguntou o meu nome e nem disse que era mais velho. A idade do corpo fosse o único problema da mente. E, mesmo assim, era forte o bastante para não se deixar ser fraco. No fundo, queria companhia, mas ao pensar no risco de perdê-la, preferia ser só. Ele era lindo.
Eu só poderia me sentir viva ao seu lado. Me digam quantas pessoas no mundo podem lhe fazer se sentir vivo e eu lhe direi quantas pessoas você pode amar. O amor tem dessas coisas: a gente tá quietinho, ele vai lá e acende uma vela. É uma música que toca no fundo da alma e que tem o poder de nos fazer dançar. Nos movimenta, nos traz coragem, e nos faz gritar.
Eu gritei o nome dele durante meses. E, todas as vezes, gritei pedindo que fosse embora. Às vezes, sem motivo, desejamos ficar longe das pessoas que queremos perto. Porém eu tivera motivo: ele não era meu. E não poderia ser. O coração daquele homem era quieto, silencioso, distante do meu mundo. Não sei se pertencia a outra, mas sei que não batia, não tinha pulsação, era tão morto quanto um móvel. Frio. Ele não existia.
Eu queria salvá-lo. Queria dar vida. Mas ele era tão teimoso! Insistia em percorrer um caminho que lhe causava dor. Todos os dias, quando acordara, ele levantara da cama pronunciando sete maneiras de melhorar a vida. Sete maneiras impossíveis. A tortura de quem é louco é se convencer que pode dar certo todas as fantasias que ele cria. As sete maneiras eram tão peculiares que cheiravam sangue. Deus, Deus do céu!, eu amara um assassino.
Há mulheres que não se preocupam com a marca do carro, o preço da roupa, os lugares que vão jantar, quem vai pagar a conta ou com a aparência. Essas mulheres só querem atenção. Elas se encantam com a maneira como vira música o nome delas ao serem pronunciados por teus lábios. Elas se surpreendem com como o seu olhar parece enxergar a alma delas, e como és inteligente e divertido. Elas são adultas e querem companhia.
Mas ninguém quer companhia barata. A gente quer lutar por algo que nos traz satisfação. E, aaahhh!, como era satisfatório vê-lo chegar todo final de tarde, pendurar o paletó, afrouxar a gravata e sorrir torto como quem espera uma travessura. Era bom. Fácil. Era inexplicavelmente tranquilo tê-lo por perto.
Mas não era tranquilo enxergá-lo como ele era de verdade. Deixando todo o encanto de lado, ele era perturbador. Lunático. Paranoico. E narcisista. Ele era louco. E homens loucos são diferentes de mulheres loucas. Dos homens nós sempre esperamos lucidez, pés nos chãos, genialidade mas ceticismo. Das mulheres é que nós queremos e aceitamos loucuras, esperança, desequilíbrio, dramas e sentimentalismo. Quando um homem age por puro sentimento, a sociedade o olha como derrota, e não como um bom homem.
Talvez fosse esse o seu problema. Ele era uma derrota. E poucas pessoas no mundo sabem conviver com a ideia de que, para os outros, elas são um erro. Foi aí que ele achou um escape: ser ruim. Mostrar que não tem medo de nada, ter poder, ter dinheiro, ter sangue nas veias e cabeça erguida. Ser heroico, mas taxado pelo mal. Ele era o vilão. E eu queria ser a mocinha.
Meu Deus, aquele homem não era meu. E eu o queria. Eu queria salvá-lo. Eu tentei salvá-lo e pensei que fosse conseguir. Eu pensei que, se eu pudesse ir devagarzinho, dizendo como ele deveria viver, eu fosse levá-lo para casa. Mas ninguém pode ensinar outra pessoa a querer viver. A gente vive por nós mesmos.
E, aos poucos, ele foi vivendo por ele. Foi andando com as pernas que ganhou e enxergara com os meus olhos. Ele aprendeu a amar. Não a mim. Aprendeu a amar a vida. A vida é a mulher que ele sempre quis. A vida, meu bem, é a mulher que todos nós devemos amar.
Porque o amor é a única coincidência entre os seres humanos. E só o amor nos salva. É ele que nos traz a vida e é ele que nos ensina a perder. Não acho que hoje ele seja um homem bom, deve continuar sendo a criatura perversa que sempre foi. No entanto, eu pude entender - todas as criaturas desse mundo são capazes de amar. No fundo nós somos parecidos. Enquanto ele lutara para ser ruim, eu lutara para ser boa. E, por ser boa, não pude roubá-lo de seu destino. Mesmo desejando, como uma criança que deseja um brinquedo, eu deixei que ele fosse dela. Da vida.

quarta-feira, março 12, 2014

03/2014

"Minha jangada vai sair pro mar 
Vou trabalhar, meu bem querer 
Se Deus quiser quando eu voltar do mar 
Um peixe bom eu vou trazer 

Meus companheiros também vão voltar 
E a Deus do céu vamos agradecer 

Adeus,
adeus 
Pescador não se esqueça de mim 
Vou rezar pra ter bom tempo, meu bem 
Pra não ter tempo ruim 
Vou fazer sua caminha macia 
Perfumada com alecrim..."

SUÍTE DO PESCADOR de DORIVAL CAYMMI

A MOÇA QUE NÃO TINHA FÉ

Anota:
Fé é ter esperança.

Que me desculpem as pessoas de muita fé, mas é isso que eu – em minha simplicidade de entender – penso sobre a vida. Não tenho a pretensão de que vocês queiram viver conforme eu determino. Mas, uma coisa é certa: tem muita gente cristã, que crê em Deus, mas que não tem fé.



Era moça alta, de formosura vigiada pelos rapazes, sorriso ameno quase imperceptível, mas olhos chamativos, olhar que devora. Acordara cedo, se vestira, pegara o rumo do trabalho, trabalhara, finzinho da tarde voltara para a casa e começara o segundo empego, estudar. A senhorita da casa 15, esquina com a casa 8, tinha um sonho: ser alguém. Mas não tinha fé. Não acreditara em um criador, nem em destinos, nem sequer nela mesma. A beleza que foi dada a ela era castigada com a sombra de não acreditar.

Não acreditar é um importuno que causa estragos. Todos nós, mesmo os loucos, precisamos acreditar em algo. Algo precisa nos comover. Precisamos crer no hoje, no amanhã, na matéria, no perigo, na dúvida ou na certeza. Algo tem que nos impulsionar, tem que nos movimentar. Porque, senhores, acreditar é inspirar-se. A determinação do homem em ter chego até aqui veio da fé de um louco, que acreditou que poderíamos ser melhores, mais tecnológicos, mais rápidos.

Só que a moça, sabe-se lá o que houve na vida daquela moça!, era cética. Centrada demais, cordial demais, impecável em ser mulher. Eu observara, como quem vigia a hora de a banda passar, os falatórios sobre a afável menina. E me indignara. Sobre a moça? O que eu sei sobre a moça? Sei que não a conheço e que não sei a sua história. Não faço ideia de onde veio, nem posso adivinhar para onde vai. Só sei o que ela, a moça tão serena, me deixa ver.

Vejo que não quer ir muito longe, mas que também não vai ficar por aqui. Que ajuda muitas pessoas e que não se importa em perder algo ou algum compromisso para poder ser solidária. Se sente bem ao perceber que fez alguém sorrir. De alguma maneira, tem medo da morte, mas se arrisca todos os dias quando sai de casa. Não gosta do cabelo muito comprido, por isso cuida sempre do corte. Talvez fale outra língua, mas eu não trabalho com suposições. Sempre encontramos um “obrigada, por favor, me desculpe” em seu falatório. E, por falar em falatório, não parece se importar com o seu redor. Evita fofocas. E, por isso, fofocam sobre ela. Acho que, a moça, embora não viva dentro da igreja, age com muita paz.

Enquanto o mundo corre seu ritmo ininterrupto e difícil de se acompanhar, ela se senta na poltrona e lê um livro como quem lê a própria vida. Se encontra em cada estrofe da música que toca no rádio e pede, por favor, que o locutor não volte com anúncios. No almoço, come feijão e arroz, porém não tem muito apreço por carne. Adora pipoca. Não dispensa um chocolate. Seu filme predileto foi dirigido por Quetin Tarantino. E chora todas as vezes que assiste incansavelmente o clássico Titanic. Creio que, a moça, não seja tão diferente das demais.

'Talvez seja isso mesmo que assuste: a normalidade. E a maneira com quem faz tudo ser tão natural. Como ela consegue? Como ela dá conta de viver tão tranquila se, da vida, parece querer tão pouco? Não sei, não sei. E temo que muito gostaria de saber. Mas a resposta é um tanto quanto lógica. A vida continua. A continuidade e a sequência da nossa existência é a chave para tudo. Porque, na verdade, mesmo que nos falte algo, nós temos que ir em frente. Mesmo que doa, e que a tristeza tome boa parte do dia, o dia segue e vira noite, e dia, e noite, e...

E até para os pecadores a vida vai andando e acontecendo, o passado fica para trás e, quando vê, lembra-se de tão pouco! Não precisamos mais daquilo que era tão importante. Aquele sapato, hoje velho, não era tão bonito assim. E aquela festa não parece mais ter tanta estima.

As coisas mudam, meu amigo. Os gostos mudam. A rotina muda. As pessoas ao nosso redor se alteram e se alternam, novas pessoas aparecerem, e, de repente, a única coisa que sobrou é aquele móvel que só acumula poeira no canto da casa.

Você aí deve estar se perguntando “o que a fé tem a ver com isso?”. Ah! A fé! Talvez ela não altere tanto as coisas. Tem muita gente que vive sem acreditar. No entanto, quem tem fé, tem tudo. Ela completa aquele cantinho que ontem estava vazio. Ela deixa cair, mas levanta.  Com a fé a vida parece mais fácil. E talvez seja. A fé e a esperança alimentam a alma que precisa viver. E são poucas as coisas que despertam a alma: medo, fé, ódio e amor.

Rancor? Rancor não alimenta, só corrói, gasta o que não tem. Mas o ódio e o medo dão oportunidade ao que pode matar. E a fé e o amor nos dão coragem.

E coragem, meus queridos amigos, é tudo o que aquela moça não tem. Mas, mesmo assim, todos os dias ela acorda, vai trabalhar, vai tentando viver...

domingo, março 02, 2014

03-2014

"Os únicos presentes no mar são golpes vigorosos e ocasionalmente a chance de sentir-se forte. Claro, eu não sei muito sobre o mar, mas sei que é assim que é aqui. E também sei como é importante na vida, não necessariamente ser forte, mas sentir-se forte. Para se testar ao menos uma vez. Pra passar pelo menos uma vez pela mais antiga das condições humanas, enfrentando desafios sozinho, sem nada para ajudá-lo. Exceto as mãos e a cabeça."

 Na natureza selvagem, Into the Wild, 2007

domingo, novembro 03, 2013

03-11-2013

"(...) Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa." 

Perdoando Deus em "A descoberta do mundo", 1970, Clarice Lispector

A BATALHA

"É preciso nos afastar das pessoas para conhecê-las. Para sabermos se farão falta, se tiveram algum lugar em nossas vidas, para tomarmos conhecimento do que elas pensavam de nós. É, meu caro amigo. As línguas que um dia nos fizeram sorrir são as mesmas que hoje nos reprovam. E foi com as mesmas que eu aprendi: Não podemos julgar diante da raiva, revidar diante da dor, muito menos provocar com ódio quem um dia já amamos."



De novo e, dói confessar-lhe isto, de novo estou só. Natural. Acho que já me acostumei com a minha solidão. Minha própria companhia parece até mais confortável do que a última vez. Ter meu tempo, meus planos, meus horários e poder decidir se vou usar um par de chinelos ou sandálias é muito doce. Doce, sim, meu caro. O açúcar de minha vida se encontra na saudade daquilo que eu ainda nem vivi. E para viver terei que andar com meus próprios passos. O percurso solitário mostrou-me que algumas coisas somente eu poderei fazer com que dêem certo. E quero muito que o final desta estrada tenha uma satisfação chamada “batalha”.

A batalha é um conjunto de coisas que nos levarão ao sucesso. Ter uma vida saudável, bons amigos, exercitar a mente, vencer os nossos medos, encontrar alguém, terminar a faculdade e arrumar um bom emprego. Tudo o que o sonho americano já pediu de tantas pessoas. Monótono, eu sei. E nada a ver comigo. Mas é só isso que eu ando desejando: sossego. E, mais que isso, fazer aquilo que eu gosto. Independente do que as outras pessoas irão falar. Ah! Admito que já me preocupei demais. Tu bens sabes que por muitos anos eu chorei sozinha pela opinião de quem não faz diferença alguma em minha vida. Cansei. Se as minhas botas vermelhas de combate não agradam, elas me deixam muito confortáveis. Se não são femininas, eu acendo o meu próximo cigarro e espero sonolenta que lancem algo “da moda” e do meu gosto. Ou não. Tanto faz. Pode esquecer o “da moda”.

A batalha é tão confusa quanto a cor do meu batom. Alguns dizem ser vermelho cereja, outros falam em cor de sangue, eu acho a tonalidade perfeita para que ninguém chegue perto. Risos. Estou brincando. Não ando tão chata assim. Só acho que perdi a compreensão. É. Você se lembra como eu era uma menininha compreensiva? Ainda tenho os mesmos sonhos, o mesmo brilho no olhar, a mesma vocação com as palavras e o mesmo acolhimento pelo silêncio. Mas a paciência com o outro se foi... Talvez faça parte dos vinte anos. Ou talvez sou eu que preciso de férias. Creio que a batalha seja mais entre eu e mim mesma do que com os outros. Preciso re-aprender a remar a aceitação. Preciso aceitar o que as outras pessoas querem de mim. Preciso parar um pouco e estender a mão a quem amo, porque essas pessoas também precisam do que eu sou. E elas também desejam que eu mude, pois tenho defeitos. Pois nunca fui e nem tenho vocação para ser perfeita. E porque tudo o que eu sempre quis, talvez, fosse que alguém gritasse para mim que eu estou errando.

O erro é, simultaneamente, a motivação e o estopim da batalha. É pelo o que o exército briga e é também a causa de perderem a calma. É o arrependimento tardio no final da guerra quando já se perderam muitas vidas. É o olhar cansado que vigia o passado e entende que poderia ter sido de outra forma. É o conselho que vem da própria experiência. É aquela regra que se torna parte de nós, porque já sabemos que se fizermos de novo, iremos perder tudo. O erro não é o medo. O erro é a coragem. É preciso coragem para arriscar em uma batalha. E é preciso mais coragem ainda para admitir que erramos.

E porque todos pecam e vão a igreja confessar seus pecados, eu penso que o erro não é tão grave assim. Ensinamos nossas crianças a pedir desculpas, mas esquecemos que a dor não é algo que se conforta com uma palavra. A dor tem fases: o luto, a aceitação, a renovação e então a hora de perdoar. Assim como o arrependimento precisa vencer o orgulho, o perdão precisa vencer a dor. Talvez o estopim de uma guerra perca mais vidas do que as pesquisas apontam. Talvez não foram só milhares de vidas que se perderam, às vezes há corpos que voltam sem almas.

Quem dera pudesse eu resgatar todas as almas que eu deixei ir embora. Pedem demais de mim quando desejam que eu explique os meus motivos ou volte atrás em minhas decisões. Evacuar a área não é mais fácil? É, é sim. Muito mais fácil fugir da batalha do que vivê-la. Porém fui eu mesma que lhe contei sobre a luta, não foi? E sou eu mesma que estou fugindo dela. É porque quem escreve esta carta nem sempre é tão bom assim. E porque todos pecam e vão a igreja confessar seus pecados, eu penso que o erro não é tão grave assim.

Não ligue se hoje estou repetitiva. Ou se daqui nada se pode aproveitar. Não é só o sentimento de saudade. É a libertação que o que sinto me traz. Eu precisara correr um pouco e encontrar o discernimento. Pode ser que eu não volte lá e peça desculpas. Até porque na mesma proporção em que eu errei, eu também senti dor. No entanto, eu gostaria de lembrar que nós não vivemos uma só batalha. São vários campos de guerra que lutam por um único prêmio: o amor. Não é o amor entre o rapaz e a mocinha, mas o amor entre tantas coisas em que nós deixamos a nossa devoção. É o amor por cada parte da nossa vida que já se foi e que nos transformou. Nós somos um conjunto de sabedorias. Uns mais, outros menos... Mas todos possuem uma carga pesada de transformações. Não é a forma como a borboleta foi lapidada, nem quem a lapidou, mas o que ela é hoje.

O que sou hoje, rapaz? Eu realmente gosto do que sou? Eu poderia ter sido mais? Quem está comigo sabe o que eu sou? Será que todos a minha volta conhecem o meu potencial? Qual o meu medo de ser o que sou? O que é que me paralisa? E o que é que me inspira? Será que a minha inspiração pode mesmo estar presa a alguém? Ou talvez eu tenha que aprender a ser a minha própria motivação? – O que eu sou hoje, rapaz?

Eu posso escrever e você cantar milhares de palavras que tocam pessoas. E, mesmo assim, ainda estaremos parados. São felicidades tão frágeis! Foi isso o que eu me tornei? Alguém que precisa de alegrias que não são minhas? Onde é que eu deixei o caminho da fé e pensei que as outras pessoas poderiam me escutar? Não, não senhor. Nós não mudamos. Somos os mesmos. Nós voltamos para o mesmo lugar. E, muitas vezes eu penso que, vamos continuar voltando até descobrirmos o que falta para podermos lutar por essa batalha. A batalha do amor. E da compreensão.

Eu não poderei lhe julgar e pedir que mudes. Não poderei apontar teus erros e nem falar sobre a minha dor. Eu não posso contar-lhe os passos. Não sou eu quem dita as tuas regras. Cada um sabe o que traz em seu coração. E cada um sabe o que leva de mim. Mas, peço-lhe, leva isto: Se fores falar de mim, fala apenas que nunca me conheceu. Que a batalha que eu travei é para me lembrar das coisas que eu deixei para trás. E que, se um dia eu voltar, eu sempre voltarei mais forte. Porque todas as lutas aumentam a minha fé.

sexta-feira, outubro 25, 2013

25-10-2013



"Trago no olhar visões extraordinárias,
De coisas que abracei de olhos fechados."

FLORBELA ESPANCA

MENTIR A COR DOS TEUS OLHOS

“Não poderia me orgulhar de quem fui. Se me perguntarem se minto sobre a minha vida. Sim. Minto. Chegamos a um momento de nossas vidas em que tu tens que incorporar uma postura que se exige. Que as pessoas pedem. Que a profissão lhe dá uma única alternativa: “vestir” aquela moldura.” 



A velha estrada está seguindo comigo. São resquícios de uma vida que lhe acompanha, para sempre. É a lama na barra da calça, é a cicatriz na sobrancelha, são os poucos fios grisalhos. Está gravado nos pequenos detalhes de meu corpo. Quem os observa, reconhece-os. Com o tempo todos saberão. A estrada velha é o caminho que você, eu, ele, já percorremos. O arrependimento. O erro. O pedido de desculpa que não recebe perdão. É a tolice da urgência. O amor perdido, a oportunidade perdida, o tempo perdido. É a morte. A perda. O desgaste. A lembrança que tento apagar. 

Você poderia compreender. São trinta e cinco anos de velas acesas. A chama que queima aqui dentro tem como pólvora a solidão. Olhar teus olhos negros é encontrar a escuridão de minh’alma. Ah! Tão belos olhos negros! Tua fé despenca a minha razão. Teu sorriso entende o meu afeto. Teus sumiços me entregam a nossa semelhança: o medo de amar. O teu segredo é o meu segredo. Eu te esperara, tu me esperara, o nosso silêncio desejara alguém por quem calar. 

Eu deveria, porém não me apetece saber sobre o teu passado. Não é a tua hora. Nem a minha. Deixe a velha estrada escondida nos nossos mistérios. Lhe quero agora. Por agora. Para sempre. Que o sempre dure. Que se esgote. Que nos torne verso. Que rime. Que arrepie. Que nos motive. 

Motivação é o que eu precisara. Deixar os erros do passado no próprio passado é a lição que sinto que vais me dar. Não. Não tire satisfações. Aceite-me. Deite-se ao meu lado que lhe conto porque ser um bom profissional. Eu preciso. Preciso saber que sou capaz. Que há honestidade em meu sucesso. Que posso salvar os pobres. Sim! Salvar os pobres! Lutar por uma causa. Melhorar a vida de quem tenho por perto e de quem precisa da minha profissão. De quem precisa de meus motivos mais do que de minhas palavras. De quem não tem esperança. Eu quero ser a fé de alguém. 

Eu prometi ser o teu amor. Eu vi que tu serás. Podes fugir. Irei fugir também. E, quando voltares, não precisará falar, eu saberei. Eu entenderei a tua volta. Todas as tuas voltas. A partir de agora terei teu nome aqui. Neste caderno onde só passaram pessoas que me motivaram. 

Esquece. Esquece teus erros também. Seja o meu amor. Devolva-me as tuas mãos. Abraça-me. Abraça-me forte. Leia o que escrevo entrelinhas. E nunca, nunca, nunca espere que estas palavras sejam diretas. Terás que descobrir. Terás que reler. Ser o que está escrito. Pronunciar. Escutar. Respirar. E, por favor, venha aos meus braços no final. 

Sou o teu socorro. Sou quem irá lhe ouvir sem a cobrança dos acertos. Quero compreender as tuas inseguranças. Quero ser o momento que tu não desejarás que termine. Acolher a tua covardia e transformar em coragem. Porque sou covarde. Porque tudo me assusta. E porque no teu abraço eu sinto que eu posso ser tudo. 

Vamos mostrar aos tolos que o recomeço nos pertence. Nos pertencer sem prender a alma do outro. Fazer o outro feliz. Porque amar é abrir mão da tua felicidade para fazer o outro feliz. É defender a sementinha que foi plantada no primeiro olhar. É entender não entendendo. É tentar ser a mesma pessoa de 19 anos, que conquistou aquele amor, até os 50. É não esquecer o motivo de tu estar ali. E não esquecer, principalmente, o motivo do outro ainda estar ali. Amar é acordar todos os dias para motivar o outro. 

Quero. Deus do céu! Como quero! Amar-lhe... Deixa transformar o abraço apertado em amor. Muda comido. Vamos ser pessoas melhores pelos olhares de domingo. Ser o motivo de alguém. E, desculpe-me, porque os teus olhos não são negros. Mas o teu abraço é meu.